"“Não Beba!” A Menina Que Fez o Mafioso Ouvir a Verdade" Capítulo 1
A TAÇA QUEBRADA
"Não beba!"
Lorenzo Duca já encostava a taça nos lábios quando uma menina atravessou o salão correndo.
A saia de cetim azul bateu nas pernas pequenas. Um sapato quase escapou do pé. Antes que alguém a segurasse, Mia se lançou contra ele e acertou seu pulso com as duas mãos.
O cristal se espatifou no mármore.
O vinho respingou na barra do vestido dela.
Lorenzo ficou imóvel. Ao redor, trezentos convidados interromperam conversas, sorrisos e movimentos. Até os músicos pararam, deixando uma nota incompleta suspensa no ar.
Mia olhou os cacos. Depois ergueu a cabeça até encontrar o rosto dele.
"Tem uma coisa ruim aí."
Um segurança avançou. Lorenzo ergueu a mão, impedindo que ele tocasse na criança.
"O que você viu?"
Mia apontou para a mulher de vestido prateado ao lado dele.
Serena Romano.
Sua noiva.
O homem que comandava a família Duca havia sobrevivido a ameaças, emboscadas e acordos feitos por pessoas que sorriam demais. Ainda assim, durante alguns segundos, não conseguiu associar o dedo da menina à mulher com quem pretendia se casar.
Serena soltou uma risada curta.
"Lorenzo, alguém precisa chamar a mãe dessa criança."
Helena surgiu entre duas mesas, pálida. Trabalhava havia três anos na administração da casa, organizando fornecedores e ajudando Beatrice nas recepções. Lorenzo conhecia sua eficiência; conhecia menos a filha, que às vezes a acompanhava depois da creche.
"Mia, fique longe do vidro."
A menina se encolheu ao ouvir a mãe. Só então Lorenzo percebeu que ela estava no meio dos cacos.
Segurou-a pela cintura e a colocou sobre a parte limpa do tapete.
"Confira os sapatos dela", pediu a Helena.
A mulher se ajoelhou imediatamente. Mia se apoiou no ombro da mãe, mas continuou olhando para Serena.
"Ela colocou umas gotinhas. Eu vi."
"Viu onde?", Lorenzo perguntou.
"No copo. Antes de dar para você."
O zumbido no ouvido direito pareceu aumentar.
Havia quatro meses, começara como um apito discreto depois do jantar. Agora, algumas vozes chegavam abafadas, como se viessem do outro lado de uma parede. Os exames ainda não tinham esclarecido a causa.
E Serena frequentemente lhe levava uma bebida à noite.
Chá quando insistia que ele precisava dormir. Vinho quando jantavam tarde. Uísque quando o encontrava no escritório.
Lorenzo olhou para ela.
"Você colocou alguma coisa na minha taça?"
"Vai me fazer essa pergunta na frente de todo mundo?"
Ele esperou.
Serena levou a mão ao colar. Conhecia aquele gesto: fazia isso quando precisava recuperar o controle de uma conversa.
"Ela tem três anos."
"Vou fazer quatro", Mia corrigiu, ofendida.
Helena confirmou que não havia ferimentos e começou a se levantar.
"Eu a levo para fora, senhor Duca."
Lorenzo se virou para a menina antes que a mãe a conduzisse.
"Você viu o frasco?"
Mia assentiu. Então puxou sua manga.
"Você é muito alto."
"Alto demais para quê?"
"Para eu contar um segredo."
Ele se agachou.
O tecido do terno esticou sobre seus ombros. Àquela altura, percebeu a respiração rápida da menina e o pequeno tremor em seu queixo. Ela não parecia satisfeita por ter interrompido a festa. Parecia uma criança que só agora começava a entender quantos adultos estavam olhando.
"Pode falar", disse, abaixando a voz.
Mia se inclinou até seu ouvido esquerdo.
"Ela tem um vidrinho vermelho. Coloca assim."
Apertou o polegar contra o indicador, imitando um conta-gotas.
Serena deu um passo à frente.
"Crianças misturam coisas que viram. Deve ter me visto usando perfume."
"Perfume não vai no vinho", Mia respondeu.
Algumas pessoas trocaram olhares. Lorenzo viu Salvatore Romano, pai de Serena, se afastar do grupo perto das janelas.
Antes que chegasse, chamou Marco.
Seu chefe de segurança já estava ao lado dele.
"Guarde a garrafa servida nesta mesa. Peça que recolham uma amostra do vinho antes da limpeza. E mande alguém verificar o camarim de Serena."
"Não!"
A palavra escapou dela alto demais.
Lorenzo se levantou devagar.
Serena olhou os rostos ao redor.
"Não pode mandar seus homens mexerem nas minhas coisas."
"Então me entregue o frasco."
Ela não respondeu.
Mia procurou sua mão. Os dedos dela mal conseguiam fechar em torno de um dos seus.
Ele sentiu o contato antes de olhar para baixo.
"Ela ficou brava comigo", a menina murmurou.
"Fique perto da sua mãe."
"Você também ficou?"
Lorenzo abaixou os olhos para ela.
"Não com você."
Helena colocou a mão nas costas da filha. Não pediu desculpas outra vez. Lorenzo agradeceu silenciosamente por isso; ainda não sabia o que acontecera, mas já não suportaria ouvir um adulto tratar o aviso como uma inconveniência.
Salvatore chegou com a expressão fechada.
"Precisamos conversar em particular."
"Daqui a pouco."
"Você está expondo minha filha."
Lorenzo encarou o homem.
"Sua filha pode responder à minha pergunta."
Serena abriu a boca. Um murmúrio correu pelo salão quando dois funcionários voltaram do corredor.
Marco recebeu de um deles um saquinho transparente.
Dentro havia um frasco de vidro vermelho.
O rosto de Serena perdeu a cor.
"Estava na nécessaire, no camarim", Marco informou, perto o suficiente para apenas Lorenzo ouvir.
Lorenzo não mostrou o objeto aos convidados. Manteve a mão junto ao corpo, esperando que Serena o olhasse.
"É seu?"
Ela fitou o frasco.
"Eu posso explicar."
Mia se esticou na ponta dos pés.
"É esse."
Serena virou o rosto para ela.
"Você não entende o que está dizendo!"
A menina recuou contra a mãe.
Lorenzo se colocou entre as duas.
"Não levante a voz para ela."
Não precisou repetir. Serena fechou a boca, e o silêncio que se seguiu pareceu pior do que os cochichos.
Ele olhou a mancha vermelha perto do próprio sapato. Pouco antes, imaginara que o único problema da noite seria sobreviver aos discursos sobre o casamento. Agora segurava um objeto que sua noiva não quisera entregar.
Mia puxou o vestido de Helena.
A mãe se inclinou. Escutou uma frase, depois outra. Sua mão apertou o ombro da filha.
Lorenzo percebeu.
"O que ela disse?"
Helena hesitou, olhando para o salão.
"Senhor Duca, talvez seja melhor..."
"Eu preciso saber."
Ela respirou fundo.
"Disse que viu outro frasco. Azul."
Lorenzo voltou a se agachar, mas desta vez suas pernas pareceram mais pesadas.
"Com Serena?"
Mia negou.
"Com quem?"
O dedo pequeno atravessou o espaço entre eles, passou pelos seguranças e parou perto dos músicos.
Lorenzo acompanhou o movimento.
O homem de cabelos grisalhos ao lado do piano não tentou se esconder.
Alessandro Vitale. O médico que cuidara de seu pai, segurara sua mão quando era menino e agora tratava a perda de sua audição.
Mia apertou o dedo de Lorenzo.
"Ele também colocou gotinhas na sua bebida."
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