"A Menina Que Tentou Limpar a Camisa do Mafioso" Capítulo 3
A MULHER DE CASACO VERDE
O segurança confirmou o nome no registro de visitantes.
Isabela Vale.
Ela deixara um cartão com o endereço do hotel e um pedido para que Luca entrasse em contato. Haroldo não encaminhara nenhum dos dois.
Luca guardou o cartão no bolso. Antes de sair, voltou à cozinha. Helena acabava de vestir o casaco em Nina.
"Se houver qualquer problema esta noite, peça ao segurança para me ligar. Não precisa passar pela administração."
"Eu agradeço o que fez por ela", Helena disse. "Mas preciso que isso continue valendo quando o senhor sair por aquele portão."
Ele olhou para a menina, que tentava fechar o zíper sozinha.
"Tem razão. Amanhã você vai receber tudo por escrito."
Nina desistiu do zíper e lhe entregou as duas pontas.
Luca se ajoelhou, encaixou a peça e puxou devagar para não prender a blusa.
"Sua mãe precisa descansar. Hoje você fica perto dela."
"E você pega a camisa?"
"Eu pego."
Só então ela aceitou ir embora.
Na manhã seguinte, Luca chegou ao hotel de Isabela com dez minutos de antecedência. O motorista permaneceu na rua. Na recepção, ele pediu que anunciassem seu nome e sentiu uma irritação absurda quando lhe disseram que ela já o esperava no salão de café.
Isabela estava perto da janela, com uma pasta sobre a mesa e o casaco verde na cadeira ao lado. O cabelo escuro tocava o queixo. Havia alguns fios prateados nas têmporas, e ela ainda segurava a xícara com as duas mãos.
Aos quarenta e cinco anos, tinha o mesmo olhar atento que, na juventude, o fazia conferir se estava sendo ridículo antes de abrir a boca.
Ela pousou a xícara.
"Bom dia, Luca."
"Você esteve na minha casa."
"Ontem. Pedi que avisassem."
"Não avisaram."
"Eu percebi."
Ele permaneceu em pé.
Isabela apontou a cadeira.
"Se pretende me dar uma bronca de vinte anos, vai ficar mais confortável sentado."
"Vinte e um."
O sorriso dela desapareceu.
"Eu sei quanto tempo passou."
Luca puxou a cadeira. De perto, viu que ela apertava o anel no dedo indicador. Fazia aquilo antes de provas difíceis, quando ainda emprestava livros a ele e reclamava das marcas de graxa nas páginas.
"Por que voltou?"
Isabela abriu a pasta e retirou um envelope amarelado.
Luca reconheceu a letra da mãe antes de ler o destinatário.
"Haroldo me enviou isto no mês passado", ela explicou. "Encontrou numa caixa de correspondências antigas durante a organização dos arquivos da fundação. A primeira tentativa de entrega foi devolvida anos atrás. Meu endereço tinha mudado. Desta vez localizaram meu escritório."
"Por que ele não me mostrou?"
"Você precisa perguntar a ele."
Luca tocou a borda do envelope sem puxá-lo.
"Minha mãe morreu há quinze anos."
"A carta foi escrita antes disso. Ela estava tentando reunir os registros de um projeto antigo. Pediu ajuda à minha mãe, mas Sofia já tinha morrido. A correspondência acabou voltando."
Ele levantou os olhos.
"Eu não soube da Sofia."
"Ela viveu seis anos depois que saímos de Nova York."
Luca olhou para a rua. Precisou esperar que um ônibus atravessasse o cruzamento para voltar a falar.
"Sinto muito."
"Obrigada."
Havia perguntas demais entre eles. Por que partira, por que nunca telefonara, por que agora parecia mais fácil falar da morte das mães do que do silêncio que tinham deixado crescer.
Isabela deslizou uma cópia da carta na direção dele.
"Não vim cobrar nada da nossa história. Existe uma situação urgente. Gostaria que você lesse."
Luca baixou os olhos.
Maria escrevia sobre um imóvel, antigos colegas da lavanderia do hotel e a dificuldade de encontrar recibos. No último parágrafo, a voz dela parecia atravessar a mesa.
"Se um dia isso chegar às suas mãos, procure meu filho. Ele conhece o prédio, mesmo que não conheça a história inteira. Não deixe que a nossa falta de organização apague o trabalho de tanta gente."
Luca leu outra vez.
"Que prédio?"
"O Edifício Mercer."
O nome lhe trouxe a imagem de uma escada estreita, cheiro de sopa e uma bicicleta sem roda diante de um portão. Sua mãe o levava ali aos sábados. Dizia que precisava ajudar umas amigas.
"Ela fazia faxina lá."
"Às vezes. Também recebia aluguel, pagava consertos e ajudava quem chegava sem dinheiro."
"Minha mãe não tinha um prédio."
"Não tinha dinheiro para comprar um sozinha. Por isso se juntou a outras pessoas."
Isabela abriu uma folha com nomes e valores pequenos. Maria Moretti. Sofia Vale. Outros que Luca reconheceu de mesas de cozinha e festas onde cada família levava uma travessa.
"Minha mãe contribuiu enquanto pôde", Isabela continuou. "Outros contribuíram com trabalho. O imóvel acabou registrado sob a responsabilidade de Maria, mas a intenção era criar uma moradia acessível e um ponto de apoio para trabalhadores."
Luca passou o dedo pelo nome da mãe.
"Por que você está cuidando disso?"
"Sou advogada. Trabalho com moradia e organizações comunitárias em Lisboa. Quando li a carta, procurei os registros e entrei em contato com alguns moradores."
"Haroldo deu acesso aos arquivos?"
"A parte deles. Depois me apresentou um acordo de confidencialidade e disse que eu não deveria incomodar você com detalhes. Recusei."
Luca recostou na cadeira.
"Você continua gostando de contrariar ordens."
"Continuo gostando de saber quem as deu."
Ele quase sorriu. O movimento parou quando ela retirou o último documento.
"O problema não é só recuperar a história, Luca."
Na folha havia o nome de uma empresa do grupo Moretti, o endereço do edifício e uma proposta de reforma para unidades de alto padrão.
Abaixo, uma previsão de envio de notificações aos moradores.
Seis semanas.
"Isso não foi autorizado por mim."
"Foi aprovado dentro da sua empresa. Eu preciso saber se você pretende manter."
Ele encarou o papel.
Construíra fortuna suficiente para nunca mais ver a mãe ameaçada por um proprietário. Agora, a poucos centímetros de sua mão, estava uma lista de famílias que poderiam perder a casa em nome dele.
Isabela não desviou os olhos.
"Sua mãe ajudou a abrir aquelas portas. A sua empresa está se preparando para fechá-las."
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