"A Menina Que Tentou Limpar a Camisa do Mafioso" Capítulo 2
EM NOME DO PATRÃO
Helena entrou na cozinha apoiando uma das mãos no batente.
Luca reconheceu a funcionária antes que ela o visse. Era uma mulher de aproximadamente trinta anos, de cabelo preso às pressas e rosto ainda abatido pela febre. Seus olhos passaram por ele e pararam na filha.
"Nina!"
A menina escorregou da cadeira. Helena se ajoelhou para recebê-la, apertando-a com tanta força que Nina reclamou baixinho.
"Eu procurei você na casa inteira. Por que saiu sem me chamar?"
"Eu fui trabalhar."
Helena afastou a filha apenas o suficiente para enxergar seu rosto.
"Você foi fazer o quê?"
Nina apontou a toalha. A mãe abriu os dedos dela com cuidado, um por um. Luca observou o momento em que a preocupação se transformou em horror.
"Quem fez isso?"
"Haroldo a colocou para lavar uma camisa minha", ele respondeu. "Ela disse que estava tentando impedir que vocês perdessem a moradia."
Helena levantou o rosto. A vergonha que apareceu ali o incomodou mais do que qualquer acusação teria incomodado.
"Eu não sabia. Achei que ela estava dormindo no quarto."
"Eu não disse que você sabia."
Rosa aproximou outra cadeira.
"Sente, Helena. Você ainda está quente."
"Eu posso levar minha filha?"
Luca abriu a boca para dizer que as duas ficariam ali até esclarecerem a situação. Viu os braços de Helena se fecharem em torno da menina e mudou a frase antes de pronunciá-la.
"Pode. Mas gostaria que conversássemos primeiro. Nina já comeu e está aquecida. Posso chamar alguém para avaliar as mãos dela, se você concordar."
Helena olhou para Rosa, depois para a filha.
"Eu quero que examinem, sim."
Luca fez a ligação. Enquanto esperavam, Rosa espalhou papel e lápis numa ponta da mesa. Nina escolheu o azul imediatamente.
"Vou desenhar o monstro. Mas ele vai ficar preso na folha."
Helena beijou seu cabelo e sentou perto o bastante para alcançá-la.
"O que Haroldo disse a você?", Luca perguntou.
"Que eu já tinha faltado uma vez neste mês. Que a preparação do jantar beneficente não podia parar porque eu estava indisposta."
"Você estava indisposta ou estava com febre?"
"Trinta e nove à noite. Rosa me mandou descansar."
"E ele ameaçou tirar a casa?"
"Disse que a moradia era para quem cumpria suas obrigações. Que eram suas instruções."
Luca apoiou as mãos na mesa.
"Não eram."
Helena passou o polegar na borda da xícara que Rosa lhe entregara.
"Eu não tinha como saber."
Ele quase perguntou por que ela não o procurara. A resposta estava no modo como ela mantinha as costas rígidas, mesmo doente, diante dele.
"Mais alguém recebeu esse tipo de aviso?"
"Não quero falar pelos outros."
"Está certo. Vou perguntar diretamente."
O alívio dela foi discreto, mas Luca o viu.
Rosa levou Nina até a outra bancada para escolher uma fruta. Luca pegou o celular e acessou as câmeras da ala de serviço. Procurou o horário aproximado. Encontrou Haroldo entrando na lavanderia com a camisa já manchada e Nina atrás dele.
A gravação tinha som.
"Sua mãe precisa aprender que ninguém vive aqui de graça. Vamos ver se você consegue ajudar."
A menina perguntava se podia chamar Rosa. Haroldo respondia que os adultos estavam ocupados.
Luca interrompeu o vídeo. Não precisava obrigar Helena a ouvir tudo.
Ela encarava a tela apagada.
"Eu pedi a ele para não falar dessas coisas perto dela."
"Você não deveria ter precisado pedir."
Haroldo apareceu alguns minutos depois, de terno cinza e tablet na mão. Parou ao perceber quem ocupava a mesa.
"Senhor Moretti. Não fui informado da sua chegada."
"Venha comigo."
Luca o conduziu ao corredor e fechou a porta da cozinha. Não trancou. Nina não precisava imaginar que alguém desapareceria atrás daquela porta por causa dela.
"O senhor parece preocupado", Haroldo começou.
Luca reproduziu o trecho da gravação.
O administrador acompanhou em silêncio. Quando a imagem terminou, ajustou a posição do tablet contra o corpo.
"Houve um erro de avaliação. A menina insistiu em ajudar."
"Você deixou uma criança de três anos em cima de um banco, com as mãos na água gelada, depois de ameaçar a mãe dela. Qual parte disso depende da vontade da criança?"
Haroldo engoliu em seco.
"Eu precisava manter a disciplina. As pessoas passaram a confundir benefícios com direitos adquiridos."
"Você não tem autorização para alterar as condições de trabalho nem para ameaçar retirar a moradia de ninguém."
"O senhor me contratou para administrar esta casa."
"E não para fazer uma criança sentir medo de ficar sem teto."
O rosto de Haroldo ficou vermelho.
Luca estendeu a mão.
"Seu cartão de acesso e as chaves."
O homem demorou um segundo a obedecer.
"Estou dispensado?"
"Está afastado da administração. Hoje você não dá mais nenhuma ordem. Amanhã, minha advogada e o responsável pelas contas vão ouvir os funcionários e revisar suas decisões. Sua resposta também será registrada."
"Depois de sete anos, o senhor acredita que sou um homem cruel?"
Luca colocou as chaves no bolso.
"Acredito no que acabei de ver."
Haroldo baixou os olhos.
De volta à cozinha, Luca encontrou Nina permitindo que uma médica examinasse suas mãos. Helena segurava a filha no colo. A avaliação não indicou ferimento importante, e a médica deixou orientações diretamente com a mãe.
Luca esperou que terminassem para contar sobre o afastamento.
"Ele não decide mais nada sobre vocês."
Helena assentiu. Não sorriu, e ele respeitou aquilo.
Nina ergueu o desenho: uma mancha azul cercada por grades roxas.
"Agora ele não sai."
"Você fez uma boa prisão", Luca disse.
Ao voltar ao vídeo para salvar o arquivo, encontrou uma passagem anterior. Haroldo conversava com uma mulher de casaco verde. Entre os dois estava uma pasta de couro que normalmente ficava no escritório de Luca.
Nina esticou o pescoço.
"Essa é a moça que não assinou."
Luca pausou a imagem.
"O que ela não assinou?"
"Um papel. O seu Haroldo ficou bravo. Ela falou que conhecia você."
O rosto aparecia de perfil, envelhecido por anos que Luca não acompanhara. Ainda assim, ele reconheceu o pequeno gesto de apertar a boca antes de responder.
Recuou o vídeo. A voz da mulher saiu baixa, perfeitamente nítida.
"Eu não vou assinar nada antes de falar com Luca. Ele sabe que eu estive aqui?"
Luca se levantou tão depressa que a cadeira arrastou no piso.
Não ouvia aquela voz havia vinte e um anos.
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