"A Menina Que Tentou Limpar a Camisa do Mafioso" Capítulo 1
A MANCHA AZUL
"Por favor, manchinha, vai embora. A mamãe precisa trabalhar aqui."
Luca Moretti parou à porta da lavanderia.
A voz vinha de trás de um cesto de lençóis. Nina, a filha de três anos de uma das funcionárias, estava em cima de um banquinho, descalça, esfregando uma camisa branca dentro do tanque. A torneira permanecia aberta. Os dedos pequenos tinham uma cor que ele não gostou de ver.
Vermelhos demais.
A manga molhada escorregava pelas mãos dela. O vestido azul de princesa estava encharcado na barriga, e uma fita da mesma cor prendia apenas metade dos cachos castanhos.
"Nina?"
Ela se virou num sobressalto. O banco inclinou, bateu na borda do tanque e perdeu o apoio.
Luca atravessou o espaço antes de pensar. Pegou a menina pela cintura, sentindo o corpo leve se encolher contra ele.
Nina não agarrou seu pescoço. Esticou os dois braços na direção do tanque.
"A camisa! Não deixa cair a camisa!"
A peça já estava no chão.
"Você se machucou?"
"Eu quase terminei. Não fica bravo."
Ele fechou a torneira com a mão livre. A água que lhe atingiu o pulso estava gelada. Era novembro, e aquela ala da casa ainda tinha encanamento antigo.
"Quem mandou você fazer isso?"
Nina apertou os lábios. Uma gota desceu do cabelo até o queixo.
"O seu Haroldo."
O administrador da propriedade trabalhava para Luca havia sete anos. Organizado, discreto, sempre pronto com uma resposta antes mesmo de alguém formular a pergunta.
"Ele disse que eu tenho que tirar o monstro azul."
Luca olhou a mancha de tinta perto do punho. Conhecia aquela camisa: italiana, feita sob medida, dois mil dólares desperdiçados numa compra que mal lembrava de ter feito.
"Foi você que sujou?"
Ela balançou a cabeça.
"A mamãe também não. Mas ela ficou doente."
"E por isso você está lavando roupa?"
Nina mexeu num botão da camisa preta dele.
"Ele falou que, se a mamãe não trabalhar, a gente vai embora da casinha. Eu sei trabalhar um pouquinho."
Luca sentiu os ombros endurecerem.
Do lado de fora daquela propriedade, homens armados calculavam as palavras antes de dirigir a voz a ele. Seu sobrenome encerrava discussões em restaurantes, armazéns e escritórios onde ninguém fazia perguntas inocentes. Dentro de casa, uma criança acreditava que precisava salvar o próprio teto esfregando uma camisa.
"Há quanto tempo você está aqui?"
"Não sei."
Ela mostrou o indicador e o polegar separados por uma distância mínima.
"Minha mão ficou doendo desse tamanho."
Ele a levou para a cozinha sem recolher a peça.
Rosa largou a faca assim que os viu. Trabalhava ali desde antes da contratação de Haroldo e poucas coisas ainda conseguiam surpreendê-la. Aquilo conseguiu.
"Meu Deus. O que aconteceu?"
"Pegue uma toalha seca. E alguma coisa para ela vestir."
Luca se aproximou da pia, testou a água até ficar levemente morna e deixou as mãos de Nina debaixo do fio suave. Não esfregou. Ela tentou puxá-las de volta.
"Arde."
"Eu vou devagar. Se piorar, você me fala."
Rosa colocou a toalha no balcão. Os olhos dela encontraram os dele por um instante, e Luca viu raiva suficiente para não precisar perguntar o que pensava.
Nina examinou os desenhos que desapareciam sob a manga arregaçada dele.
"Você desenhou na mão?"
"É uma tatuagem."
"A mamãe não deixa riscar a pele."
"Sua mãe provavelmente tem razão."
"Ela deixa no papel."
"Vou me lembrar disso na próxima vez."
A menina considerou a resposta. Depois tornou a olhar para a porta.
"Tem que pegar a camisa."
"Rosa pega depois."
"Mas o monstro ainda está nela."
Luca fechou a torneira e envolveu os dedos pequenos na toalha. A lembrança veio sem pedir licença: sua mãe à mesa da cozinha, escondendo as mãos rachadas sob um pano porque não queria que ele visse o sangue.
Ele tinha oito anos. A proprietária do apartamento batera à porta naquela noite. Sua mãe pedira que continuasse comendo, embora os dois soubessem que já não havia comida no prato.
Luca respirou fundo.
"Olhe para mim, Nina. Você não precisa lavar nada. Sua mãe não vai perder o emprego porque ficou doente."
Ela levantou os olhos cor de mel.
"E a casinha?"
"Vocês continuam na casinha."
"Hoje?"
A pergunta pequena foi pior do que um grito.
"Hoje. Amanhã também. Não vou mandar vocês embora."
Nina soltou a toalha com uma das mãos e ergueu o mindinho.
"Promete de dedinho?"
Ele olhou para aquele dedo. Já fizera acordos com homens que punham armas sobre mesas. Nenhum deles o obrigara a medir tão cuidadosamente uma promessa.
Entrelaçou o mindinho no dela.
"Prometo."
Rosa voltou com um conjunto infantil que guardava para a neta e levou Nina ao banheiro ao lado. Luca permaneceu junto à pia. Havia água no chão, um pequeno rastro que atravessava a cozinha e terminava em seus sapatos.
Quando voltaram, a menina usava uma blusa amarela grande demais. Rosa lhe ofereceu leite morno e pão com manteiga.
"Pode comer", Luca disse, percebendo a hesitação.
"Eu não trouxe dinheiro."
Rosa virou o rosto para o armário.
Luca puxou uma cadeira e sentou diante da menina.
"Aqui você não precisa pagar pelo lanche."
Nina pegou o pão com as duas mãos. Comeu devagar, olhando para ele entre uma mordida e outra, como se verificasse se a regra continuava valendo.
O segurança da entrada apareceu à porta e endireitou a postura ao reconhecer Luca.
"O senhor voltou antes do previsto. Deseja que eu avise o administrador?"
"Ainda não. Encontre Helena Marques e diga que a filha está na cozinha, comigo e com Rosa. Diga que está segura."
O homem saiu.
Nina baixou o pão.
"Você vai contar para a mamãe?"
"Ela deve estar procurando você."
"Ela vai ficar triste."
"Por quê?"
"Porque eu saí enquanto ela dormia."
Ele deixou o silêncio durar o suficiente para que ela terminasse o leite.
"Sua mãe vai querer abraçar você. O resto nós conversamos depois."
Nina assentiu, mas o pequeno vinco entre as sobrancelhas permaneceu.
"O seu Haroldo disse que você ia gostar."
Luca ficou imóvel.
"Gostar de quê?"
"De eu aprender."
Ela puxou a toalha para mais perto das mãos.
"Ele falou que você não gosta de gente que dá trabalho."
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