"O Bilionário Ia Pedir Outra Mulher em Casamento… Até Encontrar a Ex-Esposa com Trigêmeos na Chuva" Capítulo 5 — PAPAI, VOCÊ VAI EMBORA TAMBÉM?
— Se você é nosso pai, por que nunca veio buscar a gente?
Lucas fez a pergunta sem levantar a voz. Foi isso que mais doeu. Rafael permanecia ajoelhado na sala do hospital, com os três exames de paternidade entre os dedos.
Marina se aproximou do filho, mas não o interrompeu. Lucas tinha direito à resposta.
— Porque eu não sabia que vocês existiam — disse Rafael. — E porque cometi erros terríveis com a sua mãe.
O menino apertou a alça da mochila vermelha.
— Mamãe sabia onde você morava?
— Sabia — respondeu Marina, com a garganta apertada. — Mas aconteceram coisas que você ainda não consegue entender.
Lucas pensou por alguns segundos.
— Então você não gosta de procurar pessoas?
Rafael sentiu o golpe. Durante três anos, aceitara a versão conveniente de que Marina havia partido por dinheiro. Nunca procurara além dos documentos apresentados pela família.
— Eu devia ter procurado mais — admitiu. — E vou passar muito tempo tentando fazer a coisa certa.
Luna puxou a manga do paletó dele.
— Você sabe fazer panqueca, papai?
O silêncio se quebrou. Marina levou a mão à boca. Era a primeira vez que uma das crianças usava aquela palavra diante dele.
— Ainda não — respondeu Rafael. — Mas posso aprender.
— A mamãe faz em formato de coração — informou Luna, muito séria.
Sofia sorriu do banco, abraçada a uma boneca de pano. Estava cansada depois dos exames, e Marina percebeu o esforço que fazia para acompanhar a conversa.
O doutor Henrique apareceu à porta. Disse que Sofia poderia voltar para casa naquele dia, mas precisava retornar para acompanhamento. Explicou novamente os sinais de alerta e pediu que Marina telefonasse imediatamente se a menina apresentasse febre ou piora importante.
Rafael escutou cada orientação. Anotou no celular, depois perguntou se poderia receber uma cópia das informações com autorização de Marina.
Ela hesitou antes de concordar.
— Ser pai não significa mandar em tudo — avisou.
— Eu sei. Ou estou começando a aprender.
Na manhã seguinte, Rafael apareceu no apartamento de Vila Mariana carregando três sacolas enormes. Dentro havia brinquedos caros, roupas novas e um castelo eletrônico que quase não passava pela porta.
Marina cruzou os braços.
— Você comprou uma loja inteira?
— Eu não sabia do que eles gostavam.
— Podia ter perguntado.
A frase o fez olhar para as sacolas como se fossem prova de outro erro.
Lucas examinou o castelo, apertou um botão e recuou quando a música começou. Luna se interessou mais pela caixa de papelão. Sofia pediu que Rafael se sentasse ao lado dela para terminar um desenho.
Ele obedeceu. A menina colocou um lápis azul em sua mão.
— Desenha uma casa.
Rafael traçou um retângulo torto, com janelas desiguais.
— Parece uma geladeira — comentou Lucas, da mesa.
Luna gargalhou. Rafael também. Era estranho ouvir risadas dirigidas a ele sem ironia, sem interesse e sem medo.
Na cozinha, Marina preparava arroz, feijão e frango desfiado. Rafael tentou ajudar e descobriu que não sabia onde ficavam os pratos. Quando perguntou, Lucas apontou para o armário mais baixo.
— A gente põe ali porque a Sofia alcança quando está bem.
A naturalidade da explicação fez Rafael perceber quanto aquela família já havia organizado a vida em torno da doença.
Ele quis oferecer uma casa maior, uma equipe de funcionários, transporte particular. Conteve-se.
— Posso lavar a louça? — perguntou.
Marina ergueu as sobrancelhas.
— Você sabe?
— Vou descobrir.
Quebrou um copo na primeira tentativa. Pediu desculpas, recolheu os cacos com cuidado e terminou a tarefa. Marina o observou pelo canto dos olhos. O homem que costumava abandonar o jantar por uma ligação agora enxugava panelas sem olhar o relógio.
Depois da refeição, Sofia pediu uma história. Rafael começou a inventar a aventura de uma menina que encontrava estrelas dentro de um guarda-chuva.
— Não pode guardar estrela — corrigiu Lucas.
— Nesta história pode.
— Então a estrela tem que ajudar a Sofia — disse Luna.
Rafael perdeu a voz por um instante.
— Vai ajudar — prometeu, com cuidado para não transformar esperança em garantia.
Marina se sentou perto da janela. A história não curava nada, mas a voz dele parecia aliviar o medo dos três.
Mais tarde, Beatriz telefonou. Rafael saiu para o corredor.
— O salão está reservado para sexta-feira — disse ela. — Minha mãe confirmou a imprensa e os convidados. Não me faça passar vergonha.
— Não haverá noivado, Beatriz.
— Você está jogando nossa vida fora por causa de uma mulher que desapareceu?
— Estou encerrando uma relação que não posso continuar.
Beatriz respirou fundo.
— Sua mãe disse que vai fazê-lo mudar de ideia.
— Minha mãe não decide por mim.
Ele desligou. Pela primeira vez, não sentiu necessidade de explicar a escolha a ninguém.
Antes de sexta-feira, Rafael voltou ao apartamento com uma lista escrita à mão. Não era uma lista de presentes, mas de perguntas: alergias, horários, desenhos favoritos e o nome da professora da creche.
Marina leu a folha e ficou surpresa.
— Você anotou tudo isso?
— Não quero ser um estranho que aparece com caixas caras.
Ela apontou para o último item.
— Lucas não gosta que mexam nas coisas dele sem pedir. Ele precisa sentir que tem algum controle.
Rafael assentiu. Naquele dia, pediu licença antes de tocar nos carrinhos do menino. Lucas autorizou apenas um. Os dois construíram uma pista com almofadas.
Quando o carro de Rafael caiu, Lucas explicou as regras com uma seriedade engraçada. Rafael ouviu até o fim, sem interromper.
Marina, da cozinha, percebeu que ele estava aprendendo a respeitar um limite pequeno. Talvez fosse assim que mudanças grandes começassem.
Na sexta-feira, compareceu ao evento apenas para impedir que o anúncio fosse feito em seu nome. Beatriz o recebeu sob lustres dourados, usando um vestido verde e um sorriso ensaiado.
— Você veio — sussurrou, segurando seu braço.
Rafael afastou a mão dela delicadamente.
— Vim esclarecer que não haverá pedido de casamento.
Os convidados próximos ouviram. O sorriso de Beatriz desapareceu.
— Está me humilhando na frente de todos?
— Eu pedi que cancelasse. Você insistiu em reunir as pessoas.
Verônica avançou entre as mesas.
— Rafael, não transforme um capricho em escândalo.
— Meus filhos não são um capricho.
A palavra filhos percorreu o salão. Beatriz empalideceu. Rafael saiu antes que os fotógrafos se aproximassem.
No apartamento, Marina tentava fazer Sofia tomar um pouco de sopa. A menina estava pálida e reclamava de tontura.
— Quer deitar? — perguntou a mãe.
Sofia assentiu. Quando se levantou, suas pernas falharam.
A colher caiu no chão. Marina conseguiu segurá-la antes que batesse a cabeça, mas a menina perdeu a consciência por alguns instantes.
Luna começou a chorar. Lucas correu até a porta.
Rafael chegava naquele exato momento. Viu Marina com Sofia nos braços e o rosto desfeito de pavor.
— Rafael! Chama uma ambulância!
Ele pegou o telefone com as mãos trêmulas. Enquanto informava o endereço e seguia as instruções da equipe de emergência, Lucas segurou a barra de sua camisa.
— Papai, você vai embora também?
Rafael se abaixou apenas o suficiente para olhar nos olhos do filho.
— Não, Lucas. Eu fico.
A sirene começou a soar na rua. Marina apertou Sofia contra o peito, esperando que a filha abrisse os olhos.
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