"O Bilionário Ia Pedir Outra Mulher em Casamento… Até Encontrar a Ex-Esposa com Trigêmeos na Chuva" Capítulo 4 — DOIS MILHÕES POR UMA MENTIRA
— Dois milhões de reais — disse Rafael, colocando o documento sobre a mesa.
Marina estava na cozinha de seu pequeno apartamento na Vila Mariana. Uma panela de arroz fervia no fogão. No chão, Luna desenhava uma casa com quatro janelas.
A mulher olhou o comprovante sem tocá-lo.
— O que é isso?
— Uma transferência feita na semana do nosso divórcio. Está no seu nome.
Marina leu o número. Depois leu novamente.
— Eu nunca vi esse dinheiro.
— Minha mãe diz que foi o acordo que você aceitou.
Marina ergueu o rosto. O cansaço se transformou em indignação.
— Você veio até aqui para me acusar de novo?
Rafael olhou para a porta do quarto, onde Lucas ajudava Sofia a organizar bonecas.
— Eu vim entender.
— Então comece ouvindo.
Ela abriu uma gaveta e retirou uma pasta grossa, cheia de extratos, recibos e comprovantes de aluguel.
— Aqui estão meus últimos três anos. Pode olhar. Eu não tenho medo dos números.
Rafael folheou os documentos. Havia pagamentos pequenos de clientes, depósitos da mãe de Marina, despesas de farmácia e atrasos de aluguel negociados com o proprietário.
Nenhum sinal de dois milhões.
— A conta indicada aqui não é minha — afirmou Marina, apontando o número bancário. — Eu nunca tive conta nessa instituição.
Rafael fotografou os dados.
— Vou pedir uma auditoria independente.
— Não quero que você use isso para me vigiar.
— Quero descobrir quem falsificou a transferência.
Marina cruzou os braços.
— Você acredita em mim?
Ele demorou um segundo a mais do que deveria.
— Acredito que precisamos verificar os documentos.
Ela soltou uma risada sem alegria.
— Três anos depois, você continua começando pela suspeita.
Rafael abaixou a cabeça.
— Você tem razão. Eu devia ter perguntado primeiro como você sobreviveu.
O silêncio foi interrompido por Luna.
— Mamãe, o moço vai jantar?
Marina se virou.
— Hoje não, meu amor.
— Mas fiz uma cadeira para ele no desenho.
A menina mostrou a folha. Havia uma mulher, três crianças e um homem alto de mãos dadas, todos sob um sol enorme.
Rafael se ajoelhou para olhar.
— Ficou muito bonito.
— Você pode ser o papai do desenho — anunciou Luna.
Marina prendeu a respiração.
Rafael tocou de leve a borda do papel.
— Eu gostaria muito.
Lucas apareceu no corredor.
— Desenho não faz ninguém virar pai.
Rafael não discutiu.
— Você está certo, Lucas.
Na manhã seguinte, Rafael contratou uma equipe externa de auditoria e entregou os documentos ao advogado independente que Marina escolhera. O procedimento de paternidade também foi organizado com consentimento formal e coleta adequada.
Enquanto aguardavam os resultados, Marina levou Sofia para mais uma consulta. Rafael acompanhou a família, mas respeitou o pedido de esperar do lado de fora durante parte do atendimento.
Na recepção do hospital, Beatriz Albuquerque surgiu com um vestido elegante e dois seguranças.
— Rafael! Finalmente encontrei você.
Ele se levantou.
— Beatriz, não é um bom momento.
— Não é um bom momento? Você me deixou esperando diante da minha família inteira!
Algumas pessoas olharam para os dois.
— Podemos conversar em outro lugar — pediu ele.
Beatriz percebeu Marina saindo do corredor com uma pasta médica.
Seu sorriso desapareceu.
— Então é verdade. Você voltou.
Marina parou.
— Não vim aqui falar com você.
— Claro que não. Você veio falar com um bilionário.
Rafael deu um passo à frente.
— Chega, Beatriz.
Ela ignorou o aviso.
— Três filhos de um homem rico? Que coincidência conveniente! Deve ser uma ótima estratégia.
Marina apertou a pasta contra o peito.
— Estratégia? Passei noites inteiras segurando minha filha no hospital enquanto você escolhia vestidos para festas.
— Não precisa fazer cena.
— Cena é vir a um hospital humilhar uma mãe diante de outras famílias.
A recepcionista pediu silêncio. Beatriz corou de raiva.
— Rafael, você vai permitir que ela fale assim comigo?
Ele respondeu sem hesitar.
— Você vai pedir desculpas à Marina. Agora.
Beatriz arregalou os olhos.
— Está escolhendo ela em vez de mim?
— Estou escolhendo não aceitar crueldade.
Beatriz olhou para os corredores, procurando apoio. Não encontrou nenhum.
— Você vai se arrepender — sussurrou.
Saiu batendo os saltos no piso brilhante.
Marina soltou o ar lentamente.
— Não precisava fazer isso por mim.
— Precisava, sim. Eu deveria ter feito muito antes.
O celular de Rafael vibrou. Era o auditor.
— Doutor Rafael, a conta que recebeu os dois milhões não pertence à senhora Marina. Foi aberta com dados inconsistentes e está ligada a uma empresa intermediária.
— Qual empresa?
— Uma sociedade controlada indiretamente por Marcelo Ferraz. Ainda estamos confirmando a cadeia documental.
Rafael sentiu o rosto endurecer.
— Preserve todos os registros. Não confronte ninguém ainda.
Ele desligou e contou a Marina o que descobrira.
Ela ficou quieta, absorvendo a notícia.
— Então alguém inventou uma fortuna no meu nome enquanto eu contava moedas para comprar fraldas.
— Sim.
— E você acreditou.
Rafael não tentou justificar.
— Acreditei. E foi uma das maiores falhas da minha vida.
Marina olhou para a porta da sala de exames.
— Não quero vingança. Quero que meus filhos cresçam sem medo.
— Vou fazer o possível para que isso aconteça.
No corredor, Sofia pediu água. Rafael correu até o bebedouro, encheu um copo e voltou com passos cuidadosos. A menina recebeu a água com as duas mãos.
— Obrigada, moço.
— Pode me chamar de Rafael.
— Rafael é nome de príncipe?
Ele sorriu, apesar do aperto no peito.
— Não. É só o meu nome.
Sofia pareceu satisfeita. Marina observou a cena em silêncio. A delicadeza daquele instante não apagava o passado, mas mostrava uma possibilidade que ela temia desejar.
Lucas se aproximou e ofereceu à irmã o próprio casaco. Rafael percebeu que o menino assumira responsabilidades grandes demais para sua idade.
A porta se abriu. Uma funcionária chamou os dois para receber o resultado da análise de parentesco.
Marina segurou a bolsa com força. Rafael se levantou tão depressa que a cadeira raspou no chão.
Dentro da sala, a profissional explicou os procedimentos, conferiu os documentos e entregou os laudos referentes às três crianças.
Rafael abriu o primeiro envelope.
Lucas Oliveira: paternidade biológica confirmada.
Abriu o segundo.
Sofia Oliveira: paternidade biológica confirmada.
O terceiro papel tremia em suas mãos.
Luna Oliveira: paternidade biológica confirmada.
Ele olhou para Marina. Ela chorava em silêncio, mas não havia surpresa em seus olhos.
— São meus — murmurou Rafael.
Marina assentiu.
— Sempre foram.
Rafael tentou falar. Nenhuma palavra saiu.
Pensou nos primeiros passos que não vira, nos aniversários perdidos, nas febres, nos desenhos presos à geladeira. Pensou em Sofia entrando sozinha na sala de exames.
Ajoelhou-se ao lado da cadeira, incapaz de sustentar o próprio peso.
— Meu Deus... eu tenho três filhos.
Do outro lado da porta, Lucas ouvira apenas a última frase.
Ele entrou devagar e encarou o homem ajoelhado.
— Então você é mesmo o nosso pai?
Rafael levantou o rosto molhado de lágrimas.
— Sou, Lucas.
O menino olhou para a mãe antes de fazer a pergunta que Rafael mais temia.
— Se você é nosso pai... por que nunca veio buscar a gente?
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