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"O Chefe da Máfia Se Ajoelhou em Lágrimas e Implorou Para a Empregada Ficar" Capítulo 1 — A Viagem Que Nunca Aconteceu

正文开头

Dante Montenegro ouviu uma gargalhada antes mesmo de alcançar a sala.

Parou no corredor da mansão, ainda com a pasta de couro na mão. Aquele som não combinava com a casa onde seus filhos tinham aprendido a viver em silêncio.

Era Tomás. Ou Miguel. Talvez os dois.

Fazia meses que Dante não conseguia distinguir o riso de um do outro. Porque nenhum dos gêmeos ria.

Naquela manhã, ele deveria estar num avião para Genebra. O motorista o deixara no aeroporto de Guarulhos às oito. Às oito e quarenta, porém, Dante já voltava pela entrada de serviço, sem avisar ninguém.

A ideia tinha sido de Verônica Albuquerque.

“Precisa ver o que aquela moça faz quando o senhor sai”, dissera a governanta, apertando as mãos sobre o avental impecável.

“Marina?”

“Não quero acusar ninguém sem provas.”

Verônica nunca pronunciava uma acusação inteira. Deixava a última parte suspensa, para que os outros a completassem.

Dante conhecia aquele jeito. Durante onze anos, confiara a ela as chaves da casa, as contas domésticas e, depois da morte de Beatriz, até a rotina dos meninos.

“Eles ficam diferentes quando ela está sozinha com os dois”, acrescentara Verônica. “O senhor não gostaria de saber como.”

Dante cancelou o voo.

Agora, diante da porta entreaberta, sentia a raiva que o acompanhara durante o trajeto perder força.

A sala parecia ter sido invadida por um vendaval de brinquedos. Almofadas formavam muralhas. Cobertores pendiam das poltronas. No centro do tapete, uma jovem de cabelos castanhos estava deitada de costas.

Marina Oliveira usava luvas amarelas de borracha.

“Socorro!”, gritou, com uma voz monstruosa. “Os dois príncipes me derrotaram!”

Tomás bateu as mãozinhas. Miguel se jogou sobre a barriga dela, rindo tanto que precisou parar para respirar.

“Não! Piedade!”, implorou Marina, cobrindo os olhos com as luvas. “Esse castelo agora pertence a vocês!”

Dante se apoiou no batente.

Lembrava-se de noites em que os filhos choravam até adormecer. De refeições intocadas. De brinquedos caros que não despertavam interesse algum.

Lembrava-se principalmente da resposta de Verônica a cada pergunta.

“É uma fase, senhor Dante.”

A jovem no tapete levantou um boneco de pano e fez uma voz fina. Os meninos explodiram em novas gargalhadas.

Dante não conseguiu dar outro passo.

Tomás foi o primeiro a percebê-lo. Ficou imóvel, apoiado no joelho de Marina. Depois apontou um dedo pequeno para a porta.

“Papai.”

O mundo pareceu parar.

Dante deixara passar o primeiro aniversário dos filhos numa reunião em Brasília. Não ouvira os primeiros sons que eles tentaram repetir. Guardava fotos, vídeos e presentes, mas quase nenhuma lembrança vivida.

“Tomás?”, chamou, rouco.

O menino engatinhou até ele. Dante largou a pasta e se ajoelhou para recebê-lo.

“Fala de novo, filho.”

“Papai.”

Dante apertou os olhos. Beijou a testa do menino e sentiu um nó subir pela garganta.

Miguel veio atrás, tropeçando nos próprios joelhos. Dante abriu o outro braço.

Por um instante, teve os dois filhos junto ao peito.

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Então Marina se levantou.

Os meninos se viraram ao mesmo tempo e estenderam as mãos para ela.

“Mamã!”, disse Miguel.

“Mamã!”, repetiu Tomás.

Dante ficou sem ar.

Marina congelou. As luvas amarelas pendiam de suas mãos, absurdamente alegres diante do silêncio que se instalou.

“O que eles disseram?”

“Senhor Dante...”

“Perguntei o que disseram.”

Marina tirou as luvas devagar.

“Eles começaram a me chamar assim há algumas semanas.”

“E ninguém achou que eu precisava saber?”

“Eu tentei falar com o senhor.”

“Quando?”

“Na terça-feira passada. E antes, no domingo. A senhora Verônica disse que o senhor não queria ser incomodado com assuntos pequenos.”

Dante soltou Tomás com cuidado. O menino voltou para Marina, que o acolheu sem pensar.

“Chamar outra mulher de mãe não é um assunto pequeno.”

“Eu sei.”

“Então por que escondeu?”

Ela olhou para o corredor.

A reação foi breve, mas Dante percebeu. Marina tinha medo de alguém naquela casa.

“Eles perderam a mãe antes de aprender a falar”, explicou ela. “Não estou tentando ocupar o lugar de dona Beatriz. Nunca faria isso.”

Dante observou Miguel encostar a cabeça no ombro da babá. O menino parecia tranquilo pela primeira vez em meses.

“E por que eles choram tanto quando saio?”

Marina apertou os lábios.

“Porque algumas coisas mudam quando o senhor não está.”

“Que coisas?”

“Eu preciso ter certeza de que o senhor vai me ouvir até o fim.”

Dante sentiu o sangue esquentar.

“Marina, meus filhos estão envolvidos. Não me peça paciência.”

“É justamente por eles que estou pedindo.”

Antes que ele respondesse, Tomás se encolheu.

O menino encarava a porta do corredor. O sorriso desapareceu de seu rosto. Miguel começou a choramingar, agarrando a gola da blusa de Marina.

“Vó”, murmurou Tomás.

Dante seguiu o olhar do filho.

“Quer ver a vovó Verônica?”

Tomás sacudiu a cabeça com força.

“Vó má.”

Aquelas duas sílabas atravessaram a sala como um estalo.

Marina ficou pálida.

Dante se levantou lentamente.

“Quem ensinou isso a ele?”

“Ninguém”, respondeu Marina. “Eu nunca diria uma coisa dessas perto deles.”

“Então por que meu filho está com medo?”

O trinco da porta ao fundo girou.

Verônica apareceu com um molho de chaves na mão. Vestia preto, como fazia desde o enterro de Beatriz, embora ninguém jamais lhe tivesse pedido luto.

“Senhor Dante?”, disse ela, surpresa demais para parecer sincera. “O senhor não estava viajando?”

Tomás começou a chorar.

Marina recuou um passo com Miguel no colo.

Dante olhou da governanta para os filhos. Pela primeira vez, não encontrou segurança na mulher que administrava sua casa.

“Não”, respondeu. “E parece que voltei na hora certa.”

Verônica encarou as almofadas espalhadas.

“Está vendo? Eu avisei. Essa moça transforma sua sala numa bagunça. As crianças ficam completamente descontroladas.”

“Eles estavam rindo.”

“Crianças riem de qualquer coisa.”

“Os meus não riam.”

A governanta hesitou.

Dante caminhou até ela.

“Quero saber por que Tomás chama você de ‘vó má’.”

Verônica levou a mão ao peito.

“Essa menina colocou palavras na boca dele!”

“Não fale dela. Fale dos meus filhos.”

Marina tentou intervir, mas Dante ergueu a mão.

“Hoje ninguém vai sair desta casa antes de eu entender o que acontece aqui.”

No corredor, Augusto Ribeiro, chefe da segurança, surgiu ao ouvir a voz do patrão.

“Feche os portões”, ordenou Dante. “E traga as gravações das câmeras internas.”

Verônica deixou cair uma chave.

Foi um som pequeno. Dante, porém, ouviu perfeitamente.

“Algum problema?”, perguntou.

A governanta se abaixou depressa.

“Não, senhor. Nenhum.”

Marina observou a chave no chão. Reconheceu a fita vermelha presa à argola.

Era a chave da porta onde Verônica nunca permitia que ela entrasse.

E, naquela manhã, havia ouvido um choro vindo de lá.

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