"Como Treinar Seu Papai Mafioso" Capítulo 6 — A Greve da Pequena Cuidadora
O problema começou com um par de barras paralelas e uma palavra que Dante detestava: tentativa.
— Vamos repetir o movimento — orientou o doutor Henrique, na sala de reabilitação da mansão.
Dante segurou os apoios. Dois profissionais estavam posicionados para garantir sua segurança. Ele tentou transferir o peso, mas as pernas não responderam como desejava.
A frustração explodiu antes que o médico terminasse a frase.
— Chega! Não vou fazer esse espetáculo outra vez!
Henrique recuou um passo.
— Ninguém está exigindo que o senhor fique em pé hoje.
— Então por que me fazem tentar?
Sofia estava perto da porta, segurando um caderno coberto de estrelas adesivas. Cada estrela representava uma sessão cumprida.
— Hoje você ganha uma dourada — anunciou.
Dante virou a cabeça.
— Guarde essas porcarias.
A menina piscou, surpresa.
— Mas é a estrela de coragem.
— Eu não preciso de estrelinhas! Nem de você me dizendo o que fazer!
O silêncio foi imediato.
Sofia olhou para o adesivo grudado no próprio dedo. Não chorou. Apenas o descolou devagar.
— Tá bom.
Dante ainda estava furioso demais para perceber a tristeza escondida na voz dela.
— Quero ficar sozinho.
— Então vai ficar.
Ela saiu com passos pequenos e decididos.
Teresa encontrou Sofia na cozinha, organizando o conteúdo da mochila rosa. Havia um pente, um coelho de pelúcia, dois biscoitos e uma folha dobrada.
— O que está fazendo, meu anjo?
— Uma greve.
— Uma greve?
— Igual às que aparecem na televisão. Só que a minha tem biscoito.
Teresa se agachou.
— O senhor Dante falou sem pensar. Ele está sofrendo.
Sofia apertou os lábios.
— Eu sei. Mas gente triste não pode machucar os outros de graça.
Teresa não encontrou argumento melhor.
Sofia pediu uma folha maior e escreveu com letras tortas, ajudada pela governanta: CUIDADORA EM GREVE. Embaixo desenhou um coração com cara zangada.
Colou o cartaz na porta do escritório.
Quando Dante apareceu, meia hora depois, leu a mensagem duas vezes.
— O que significa isso?
Rafael, de plantão no corredor, respondeu:
— A funcionária suspendeu as atividades, senhor.
— Ela tem três anos!
— Três e meio. Ela fez questão de corrigir.
— Onde está?
— Na varanda. Com uma cadeira de praia e um copo de suco.
Dante bufou.
— Excelente. Que aproveite as férias.
Ao meio-dia, Teresa serviu o almoço. Dante olhou para a cenoura no prato e esperou uma voz infantil exigir que ele comesse tudo.
Ninguém apareceu.
— Não tem sobremesa? — perguntou.
— Tem, senhor. Mas Sofia disse que o senhor sabe decidir sozinho.
Dante empurrou a cenoura com o garfo.
— Finalmente alguém reconheceu isso.
Mesmo assim, a comida pareceu sem gosto.
Às duas, o jardim estava ensolarado. Dante passou pela porta de vidro e encontrou a cadeira de rodas posicionada exatamente onde Sofia costumava insistir para que ele saísse.
Sobre o braço da cadeira havia um pequeno chapéu de palha.
Ele o pegou, girou nas mãos e devolveu ao lugar.
— Rafael.
— Senhor?
— Não está quente demais lá fora?
— Vinte e seis graus. A Sofia disse que é tempo de não criar mofo.
Dante lançou um olhar mortal ao segurança.
Rafael continuou sério, mas seus olhos brilhavam.
Às quatro, Dante mandou chamar Sofia para escolher um filme.
Teresa voltou sozinha.
— Ela agradeceu, mas disse que está em greve.
— Ela vai perder o salário.
— Disse que aceita receber em abraço atrasado.
Dante ficou olhando para a porta fechada.
Na varanda, Sofia brincava com Dona Teresa de mercadinho. Vendia frutas de plástico por preços absurdos.
— Uma banana custa cem reais — anunciou.
— Mas isso é um assalto! — exclamou Teresa.
— Aprendi com os adultos desta casa.
Rafael, que acabava de chegar, engasgou com a água.
Dante observou de longe. Sofia estava rindo, mas quando o viu, virou o rosto.
Aquilo doeu mais do que ele esperava.
Antes do jantar, Rafael encontrou Sofia fiscalizando a cozinha.
— A senhora está mesmo de greve? — perguntou.
— Tô. Mas greve não impede de conferir se a comida tá boa.
Ela provou uma colher de purê e fez sinal de aprovação.
— Pode servir pro paciente. Sem gritar com ninguém.
Rafael quase sorriu.
À noite, Henrique voltou para conversar.
— A frustração faz parte da reabilitação — explicou o médico. — Mas não justifica descarregar sua dor numa criança.
Dante cruzou os braços.
— Eu sei.
— Ela só queria ajudá-lo.
— Eu sei, Henrique.
— Então talvez devesse dizer isso a ela.
Dante ficou em silêncio. Sabia comandar homens armados, negociar com rivais e enfrentar ameaças. Pedir desculpas a uma menina de três anos parecia mais difícil.
No quarto de hóspedes, Sofia estava sentada na cama, com o coelho no colo. Marina ainda não chegara para buscá-la.
Dante bateu à porta aberta.
— Posso entrar?
— Grevistas não atendem chefes mal-educados.
Ele respirou fundo.
— Então vim falar com a dona do coelho.
Sofia ergueu o brinquedo.
— Ele também tá de greve.
Dante aproximou a cadeira.
— Sofia, eu errei.
Ela não respondeu.
— Fiquei com raiva das minhas pernas. Mas gritei com você. Isso foi injusto.
Sofia passou a mão pela orelha do coelho.
— Eu fiquei triste.
— Eu percebi tarde demais.
— Você disse que minhas estrelas eram porcaria.
Dante olhou para o caderno sobre a cama.
— Não eram. Cada uma mostrava que eu tinha tentado. E você estava orgulhosa de mim.
— Muito orgulhosa.
Ele engoliu em seco.
— Desculpa, princesa.
Sofia levantou três dedos.
— Tenho condições.
— Claro que tem.
— Primeira: nada de gritar comigo.
— Vou me esforçar.
— Segunda: quando ficar bravo, você fala que tá bravo. Não joga palavras feias nos outros.
— Combinado.
— Terceira: tem que pedir desculpa pro doutor Henrique também.
Dante hesitou.
— Isso não estava no contrato.
— Greve muda contrato.
Ele soltou uma risada curta.
— Está bem.
Sofia examinou seu rosto, como se avaliasse um documento importantíssimo.
— E a quarta condição...
— Eram três!
— Promoção de hoje. A quarta é um abraço.
Dante abriu os braços imediatamente.
Sofia pulou em seu colo e o apertou com tanta força que ele soltou um gemido teatral.
— Você vai me quebrar, menina!
— Não. Tô consertando.
Dante fechou os olhos. A menina cheirava a sabonete infantil e biscoito de polvilho.
— Senti sua falta hoje — confessou.
— Eu tava aqui o tempo todo, bobo.
— Eu sei. Mas a casa ficou vazia.
Sofia encostou a testa na dele.
— Então não me manda embora de novo.
Dante segurou sua mão pequena.
— Não vou mandar.
Quando Marina chegou, encontrou Sofia dormindo no colo de Dante. Ele fazia movimentos lentos na cadeira para não acordá-la.
Marina permaneceu à distância, parcialmente escondida pela porta. Não queria que ele a visse. Seu coração apertou ao observar a filha tão segura nos braços daquele homem.
Teresa apareceu ao lado dela.
— Hoje eles fizeram as pazes — sussurrou.
Marina sorriu com os olhos úmidos.
— Ela sempre soube perdoar melhor do que eu.
Dante ergueu o rosto ao ouvir um ruído, mas Marina já havia recuado para o corredor.
Sofia abriu os olhos por um instante.
— Grandão?
— Oi, princesa.
— Amanhã tem estrela dourada, tá?
— Amanhã tem tentativa — respondeu Dante.
E, pela primeira vez, a palavra não pareceu uma ameaça.
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