"Como Treinar Seu Papai Mafioso" Capítulo 4 — O Mafioso Virou Bebê!
Sofia ainda exigiu que Rafael registrasse num papel quantas vezes Dante havia dito obrigado. O segurança apresentou a contagem: duas.
— Duas? — Dante repetiu, indignado. — Eu agradeci quando?
— Quando Teresa trouxe café e quando o elevador abriu — respondeu Rafael.
— Eu agradeci ao elevador?
— O senhor disse “graças a Deus”.
Sofia decidiu que aquilo valia meia estrela.
Na segunda-feira, Sofia chegou à mansão carregando uma sacola de farmácia quase maior do que ela.
Rafael se abaixou para ajudar.
— O que você comprou, pequena chefe?
— Equipamento profissional.
Dentro da sacola havia uma escova de dentes rosa com desenho de dinossauro, um patinho de borracha, adesivos de estrela e um livro infantil sobre um lobo rabugento.
Rafael olhou os objetos e franziu a testa.
— Isso tudo é para o senhor Dante?
— Ele precisa de tratamento intensivo contra mau humor.
No quarto, Dante terminava uma ligação quando a menina apareceu à porta.
— Desliga. Hora de escovar os dentes.
— Estou resolvendo um problema de negócios.
— E eu estou resolvendo um problema de bafo.
Dante ficou imóvel. Rafael, atrás dela, apertou os lábios com tanta força que o rosto ficou vermelho.
— Meu hálito está perfeitamente normal — respondeu Dante.
Sofia abriu a sacola e exibiu a escova.
— Comprei uma bonita pra você não chorar.
— Isso é uma escova infantil!
— Você faz birra infantil. Combina.
Dante olhou para Rafael, exigindo apoio. O segurança estudou cuidadosamente uma mancha imaginária na parede.
— Traidor — murmurou Dante.
A rotina de higiene era conduzida por profissionais e pelo próprio Dante naquilo que podia fazer. Sofia apenas fiscalizava, com a seriedade de uma inspetora de aeroporto.
Quando Dante terminou de escovar os dentes com sua escova habitual, a menina abriu a boca, indignada.
— Você não usou o dinossauro!
— Ele pode ficar de reserva.
— Tá bom. Mas ele vai ficar triste.
Dante observou o brinquedo rosa sobre a pia.
— Diga ao dinossauro que não é pessoal.
Sofia assentiu como se tivesse recebido um comunicado diplomático importante.
À tarde, ela encontrou Dante reclamando da equipe que o ajudaria no banho. O banheiro era adaptado e o procedimento exigia privacidade e segurança, mas Sofia decidiu que havia um problema maior.
— Você tá fazendo cara de jacaré de novo.
— Saia do banheiro, Sofia.
— Eu só trouxe um ajudante.
Ela colocou o patinho de borracha perto da porta, ao alcance da equipe, e apertou sua barriga.
QUÉC!
Dante encarou o brinquedo.
— Tire isso daqui.
QUÉC!
— Sofia.
QUÉC!
— Eu vou jogar esse pato pela janela!
A menina abraçou o patinho, horrorizada.
— Não pode! Ele tem família!
Teresa, que passava pelo corredor, precisou apoiar a bandeja na parede para não derrubar tudo de tanto rir.
Mais tarde, Dante descobriu o pato sobre sua mesa de trabalho. Havia um bilhete ao lado, escrito com ajuda de Beatriz: SEJA EDUCADO COM O SENHOR QUÉC.
Ele chamou Rafael.
— Descubra quem colocou isso aqui.
— O senhor já sabe, chefe.
— Então descubra como fazer o pato desaparecer sem provocar uma crise internacional.
Rafael levou a mão ao peito.
— Missão delicada.
Na hora do almoço, Sofia resolveu ensinar Dante a pedir as coisas com gentileza.
— Me passa o sal — disse ele.
— Palavra mágica?
— Agora.
— Errada.
— Imediatamente.
— Também errada.
Dante fechou os olhos.
— Por favor.
Sofia sorriu e passou o saleiro.
— Viu? Sua boca não caiu.
Beatriz aplaudiu. Dante lançou à mãe um olhar de profunda traição.
Depois do almoço, o doutor Henrique chegou para avaliar a evolução do paciente. Sofia quis acompanhar a conversa, sentada num banquinho, mas Beatriz explicou que certas informações médicas eram privadas.
— Então eu espero lá fora — respondeu a menina. — Mas não deixa ele fugir.
O médico riu.
— Vou fazer o possível.
Henrique avaliou força, sensibilidade e respostas musculares, registrando os resultados sem prometer uma recuperação rápida. O acidente havia causado uma lesão complexa, e qualquer progresso dependeria de exames, tempo e reabilitação.
— Não quero falsas esperanças — disse Dante.
— Nem eu — respondeu Henrique. — Quero dados e trabalho consistente.
Dante desviou o olhar.
— Trabalhar pra quê? Pra falhar de novo?
O médico guardou a prancheta.
— Porque sua vida não está suspensa enquanto esperamos uma resposta das suas pernas.
A frase permaneceu no quarto depois que Henrique saiu.
À noite, uma tempestade caiu sobre São Paulo. Trovões sacudiram as janelas da mansão. Sofia, que aguardava Marina terminar o turno em outro emprego, abraçou o coelho com força.
Dante a encontrou sentada no sofá da biblioteca.
— Está com medo?
— Não. Meu coelho está.
— Entendo.
— Ele quer uma história.
Dante pegou um livro da estante.
— Posso ler alguma coisa.
Sofia abriu a sacola e tirou o livro do lobo rabugento.
— Eu trouxe o melhor.
A capa mostrava um lobo de sobrancelhas grossas que não gostava de tomar banho, comer legumes ou ouvir conselhos.
Dante observou a ilustração.
— Por que ele está usando uma camisa preta?
— Porque é elegante.
— E por que parece bravo?
— Porque não tem educação.
Sofia subiu no sofá, deixando espaço entre os dois, e começou a contar a história com suas próprias palavras. O lobo brigava com os pássaros, assustava as borboletas e expulsava quem tentava ajudá-lo.
— Um dia — narrou ela — chegou uma coelhinha muito inteligente.
— Imagino que ela mandou nele — comentou Dante.
— Mandou. E fez ele comer cenoura.
— Esse lobo sou eu?
Sofia olhou para o desenho, depois para Dante.
— Se a carapuça serviu...
Ele soltou uma gargalhada. Sofia também riu, orgulhosa de ter aprendido aquela expressão com Dona Teresa.
O trovão seguinte fez a menina estremecer. Dante percebeu e estendeu a mão.
— Quer sentar mais perto?
— É pro coelho não ficar com medo — esclareceu ela.
— Naturalmente.
Sofia se aconchegou ao lado dele, segurando o brinquedo entre os dois. Dante continuou a história, inventando vozes ridículas para o lobo e a coelhinha.
Aos poucos, os olhos de Sofia ficaram pesados.
— Você conta história melhor quando não grita — murmurou.
Dante olhou para ela.
— Vou considerar isso um elogio.
— É... um elogio... — sussurrou a menina, adormecendo.
Dante chamou Teresa para ajudá-la a descansar no quarto de hóspedes, onde Marina a buscaria em breve. Antes que a governanta a pegasse no colo, Sofia abriu os olhos por um instante.
— Não fica triste, tá, grandão?
— Vou tentar.
— Promete?
Dante hesitou. Não sabia fazer promessas sobre felicidade.
— Prometo tentar — respondeu.
Ela sorriu e voltou a dormir.
Mais tarde, quando Marina levou a filha para casa, Beatriz encontrou Dante na biblioteca, com o livro do lobo aberto sobre o colo.
— Você está lendo histórias infantis agora? — perguntou.
— Pesquisa — respondeu ele.
— Pesquisa sobre o quê?
Dante virou uma página, fingindo concentração.
— Sobre como negociar com uma criatura de três anos e meio.
Beatriz sorriu e saiu em silêncio.
Sozinho, Dante percebeu que aquela era a primeira noite em muitos meses em que não sentia vontade de trancar a porta para o mundo.
Sobre a mesa, o patinho de borracha parecia observá-lo.
Dante apertou sua barriga.
QUÉC!
E riu sozinho.
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