"Como Treinar Seu Papai Mafioso" Capítulo 2 — Quem Manda Aqui Sou Eu!
No meio da tarde, Sofia decidiu fazer uma inspeção nos sapatos de Dante. Estavam alinhados no armário, impecáveis e sem uso.
— Por que tem tantos?
Dante demorou a responder.
— Eu gostava deles.
Sofia pegou um par de couro brilhante e colocou ao lado da cadeira.
— Então deixa aqui. Gostar de uma coisa não tem prazo de validade.
Dante ficou olhando para os sapatos mesmo depois que ela saiu.
Na manhã seguinte, Dante acordou com três batidas na porta.
TOC. TOC. TOC.
— Se for remédio, pode levar embora! — gritou.
A porta se abriu apenas uma fresta. Uma mãozinha apareceu segurando um papel cheio de desenhos tortos.
— Bom dia, paciente número um!
Dante fechou os olhos.
— Não. Não pode ser.
Sofia entrou acompanhada de Dona Teresa, a governanta, e de Beatriz. Marina havia autorizado uma visita curta, supervisionada, depois de uma longa conversa por telefone. A pequena continuava convencida de que era um emprego de verdade.
— Sua mãe sabe que você está aqui? — perguntou Dante.
— Sabe. E falou pra eu não incomodar ninguém.
— Excelente conselho.
— Mas você precisa ser incomodado, porque é muito teimoso.
Beatriz disfarçou um sorriso e saiu com Teresa. Rafael ficou no corredor, encarregado de garantir que nenhuma brincadeira interferisse nos cuidados médicos.
Sofia colou o papel na porta do armário.
— Regras da casa. Regra um: acordar sem xingar. Regra dois: escovar os dentes. Regra três: comer feijão. Regra quatro: falar por favor.
Dante olhou os desenhos.
— Isso é uma batata usando coroa?
— É você.
— Por que eu sou uma batata?
— Porque fica parado fazendo cara feia.
Dante arrancou a folha e a rasgou em quatro pedaços.
— Pronto. Regras canceladas.
Sofia abriu sua mochilinha e tirou outra folha idêntica.
— Tenho cópia.
Ele rasgou a segunda.
Ela retirou uma terceira.
— Tenho mais sete. A vovó Beatriz tem impressora.
Dante ficou em silêncio por cinco segundos inteiros.
— Minha mãe está financiando uma revolução.
Sofia colou a terceira folha numa altura que ele podia ver.
— Hoje você perdeu a sobremesa.
— Eu tenho uma cozinha inteira.
— Mas não tem permissão.
Dante apertou o botão do interfone.
— Teresa, mande um brigadeiro para o meu quarto.
A voz da governanta veio acompanhada de um risinho.
— Desculpe, seu Dante. Dona Beatriz pediu para seguir o cardápio do doutor Henrique.
— Eu sou dono desta casa!
Sofia ergueu um dedo.
— Regra cinco: não gritar que é dono da casa.
Ele lançou a ela um olhar capaz de gelar um banqueiro. Sofia bocejou.
No café da manhã, o cozinheiro serviu pão de queijo, mamão e café para os adultos. Para Sofia, leite e uma porção pequena de frutas.
Dante empurrou o mamão para longe.
— Não quero.
— Você nem provou — observou Sofia.
— Eu sei do que não gosto.
Ela pegou um pedacinho com o próprio garfo infantil.
— Eu também não gosto de acordar cedo. Mas acordei pra trabalhar.
Dante encarou a fruta como se fosse uma proposta de rendição.
— Uma mordida — negociou Sofia. — Depois você pode reclamar durante dez segundos.
Ele comeu. Sofia contou em voz alta o tempo da reclamação, marcando cada segundo nos dedos.
— Isso é ridículo — disse Dante.
— Acabou seu tempo. Próximo assunto.
Rafael quase derrubou a bandeja.
Às dez, Dante reuniu três homens no escritório. Havia documentos de empresas, mapas de depósitos e contratos que exigiam sua assinatura.
— Ninguém entra — avisou ao segurança.
Cinco minutos depois, Sofia apareceu com um relógio de cozinha em formato de tomate.
— Hora do intervalo!
— Estamos trabalhando — rosnou Dante.
— Eu também. E você está atrasado pra beber água.
Um dos homens, alto e tatuado, olhou para o teto para não rir.
Dante apontou para a saída.
— Rafael, retire essa criança.
Sofia colocou o tomate sobre a mesa.
— Se você gritar, vai ficar cinco minutos sem falar.
— Eu não recebo ordens de uma criança!
— Recebeu ontem. E comeu feijão.
O homem tatuado soltou um som esquisito. Dante virou a cabeça.
— Algum problema, Marcelo?
— Não, chefe. Engasguei com... o ar.
Sofia observou os homens de preto.
— Vocês também precisam beber água. Todo mundo parece bravo.
Ela distribuiu copinhos de papel que Teresa havia preparado para a brincadeira. Os três homens aceitaram, incapazes de contrariar aquela miniatura de comandante.
Dante ficou olhando para seu copo.
— Eu controlo operações que movimentam milhões.
— E não consegue tomar água sozinho? — perguntou Sofia.
Rafael virou o rosto para esconder o sorriso.
Depois da reunião, Dante tentou se vingar. Mandou instalar um pequeno sino na porta, imaginando que Sofia se assustaria quando ele tocasse de repente.
A menina examinou o objeto, fascinada.
— Que legal! Sino de pedir abraço!
Antes que Dante protestasse, ela apertou o sino e abriu os braços.
— Abraço solicitado!
Ele recuou a cadeira alguns centímetros.
— Eu não solicitei nada!
— O sino solicitou.
Sofia se aproximou devagar. Dante suspirou, resignado, e permitiu um abraço rápido. A menina cheirava a sabonete e pão de queijo.
Por um instante, ele se lembrou de como era voltar para casa e encontrar alguém feliz por vê-lo.
A lembrança passou depressa.
— Pronto. Já chega — resmungou.
— Você abraça igual geladeira — avaliou Sofia.
— Ótimo. Não faça de novo.
— Precisa de treino.
À tarde, Sofia encontrou uma caixa de controles remotos na sala. Dante tinha um para a televisão, outro para as cortinas e um terceiro para a iluminação.
Ela os alinhou no tapete.
— Quantos botões pra uma pessoa só!
— Devolva isso.
— Você parece um astronauta preguiçoso.
Dante estendeu a mão, mas Sofia já havia entregue os controles a Teresa, que os colocou ao alcance dele em uma bandeja organizada.
— Tudo continua aqui — explicou a governanta. — Só ficou mais fácil encontrar.
Dante odiou perceber que a ideia era boa.
No jantar, Beatriz quis saber como tinha sido o dia.
— Seu filho teve três birras — informou Sofia. — Mas bebeu água e falou por favor uma vez.
— Foi quando mandei Rafael sair da frente — corrigiu Dante.
— Falou por favor — insistiu Sofia. — Conta.
Beatriz aplaudiu discretamente.
— Um progresso extraordinário.
Dante pousou os talheres.
— Estão todos contra mim.
Sofia colocou uma estrelinha dourada no caderno.
— Não. Estamos do seu lado. Só que você dá trabalho.
A resposta deixou Dante sem uma réplica pronta.
Quando Marina chegou para buscar a filha, Sofia guardou o caderno depressa. Não queria que a mãe descobrisse como seu paciente era famoso, rico e difícil.
— Se comportou? — perguntou Marina.
— Eu, sim. Ele, mais ou menos.
Dante ouviu a resposta do outro lado da sala e quase sorriu.
Na despedida, Sofia apontou para a porta da varanda.
— Amanhã tem atividade ao ar livre.
— Nem pensar! — respondeu Dante.
— Vou trazer protetor solar.
— Eu não saio desta casa!
Sofia fez uma anotação solene no caderno.
— Paciente apresenta medo de sol. Caso grave.
Dante viu a menina ir embora e, sem perceber, ficou esperando a manhã seguinte.
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