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"Minha Sogra Me Bateu. Meu Marido Mandou que Eu Pedisse Desculpas." Capítulo 3

正文开头

O LADO ERRADO

Coloquei os documentos numa pasta rígida. Conferi o computador e o dispositivo de backup que usava nos meus trabalhos. As versões originais que recebera por e-mail continuavam arquivadas, com as mensagens de encaminhamento da própria empresa.

Não entrei no sistema da transportadora. Não precisava. Aquilo já estava comigo porque Marcelo me pedira que fizesse a revisão.

Camila levou a mala para perto da porta enquanto eu procurava um envelope.

"Você vai deixar um bilhete?"

"Vou deixar o suficiente para ele entender por que não vou voltar."

Separei duas notas, três comprovantes e a cópia do cartão de Helena Prado. Ela tinha me orientado anos antes numa questão profissional. Naquela madrugada, mandei uma mensagem pedindo um horário assim que fosse possível.

No envelope, escrevi:

VOCÊ ESCOLHEU O LADO ERRADO.

Deixei-o na mesa, com a chave reserva que eu carregava no carro. Minha chave pessoal ficou comigo até acertarmos a retirada do restante das minhas coisas.

Antes de sair, fui até a geladeira. Joguei fora o feijão que passara a noite na pia. Foi um gesto pequeno, quase idiota, mas eu não queria que Marcelo chegasse, esquentasse aquele jantar e seguisse a vida esperando que eu voltasse para lavar a panela.

Camila me recebeu no quarto de hóspedes do apartamento dela. Colocou água e os remédios na mesa de cabeceira. Quando deitei, precisei de ajuda com o travesseiro.

"Pode chorar aqui", ela disse, já perto da porta.

Eu não respondi. Chorei assim que ela saiu.

Dormi em pedaços. Acordei com o telefone vibrando sobre uma toalha que Camila pusera para abafar o som.

Marcelo tinha ligado oito vezes.

Às dez e dez, atendi.

"Quais documentos da empresa você levou?"

Eu fiquei olhando para a cortina.

O sol entrava numa faixa estreita, iluminando a caixa do analgésico. Meu rosto doía quando eu encostava a língua por dentro da bochecha.

"Bom dia para você também."

"Renata, estou falando sério. O que significa aquele envelope?"

"Significa que eu saí."

"Eu percebi. Onde você está?"

"Num lugar em que ninguém vai me bater por causa de uma senha."

Ele soltou o ar perto do microfone.

"Não vamos começar assim. Minha mãe reconhece que se excedeu."

"Ela disse isso para você ou para mim?"

"Você está tornando impossível conversar."

A velha frase. Eu a ouvira quando pedi que ele dividisse as tarefas de casa. Quando questionei um empréstimo feito à mãe sem me avisar. Quando quis que passássemos um Natal com minha família.

Dessa vez, reconheci o caminho antes de segui-lo.

"Mande qualquer assunto sobre os documentos para a Helena. O contato está no envelope."

"Você procurou advogada?"

"Procurei."

Houve silêncio. Ao fundo, alguém chamou o nome dele. Marcelo cobriu o telefone e disse alguma coisa que não consegui entender.

"Eu estou voltando para Campinas. Não toma nenhuma decisão antes de a gente conversar."

"Eu tomei uma decisão ontem. Você recebeu a resposta."

Desliguei antes que ele me agradecesse de novo por alguma concessão que eu não tinha feito.

正文1

No começo da tarde, Helena retornou minha mensagem. Conversamos por telefone. Ela me pediu que preservasse os arquivos como estavam, anotasse a sequência dos acontecimentos e não discutisse documentos da empresa em grupos de família.

"Vamos separar os assuntos sem perder de vista que estão tentando ligar um ao outro", explicou. "Seu casamento, a agressão e o seu trabalho precisam ser tratados com cuidado. Ninguém vai resolver os três com uma assinatura improvisada."

Ela marcou uma reunião para segunda-feira. Naquele sábado, Camila me acompanhou para registrar o ocorrido e entregar o que havia sido solicitado sobre a agressão. A camiseta que eu usara estava numa sacola, e o papel do hospital parecia pesar mais que minha bolsa inteira.

Eu ainda tremia ao contar a história, mas não voltei atrás.

Quando retornamos ao apartamento, Marcelo estava na portaria.

O carro dele ocupava uma vaga de visitantes. Tinha viajado com a mesma camisa clara da foto. Ver aquele tecido limpo me causou uma raiva que precisei engolir antes de falar pelo interfone.

"Eu não autorizei você a subir."

"Sua irmã mora aqui, Renata. Não sou um estranho."

Camila pegou o aparelho.

"Você só sobe se ela quiser."

Ouvi Marcelo pedir para falar comigo outra vez.

Eu não queria a conversa dentro do apartamento. Combinei que ele poderia vir até o corredor, com Camila presente, por alguns minutos. Minha irmã deixou a porta aberta apenas o suficiente para eu ficar atrás dela, sem passagem livre para ele entrar.

Marcelo olhou primeiro para Camila. Depois para a mancha no meu braço.

"Eu não sabia que tinha ficado assim."

"Você não perguntou."

Ele passou a mão no cabelo.

"Minha mãe estava muito nervosa. Eu achei melhor esperar vocês esfriarem a cabeça."

"Eu estava no hospital."

"Eu sei disso agora."

Peguei o telefone e mostrei minha mensagem, com o horário.

Ele desviou os olhos.

"Eu quis dizer que não sabia da gravidade."

Camila ficou ao meu lado. Não falou por mim, mas sua presença impediu que eu caísse naquele hábito de ajudar Marcelo a terminar as próprias desculpas.

"O que você veio buscar?", perguntei.

"Minha mulher."

"Então por que sua primeira pergunta foi sobre os arquivos?"

Ele olhou para o corredor vazio. Baixou a voz.

"Porque aquilo pode causar um problema enorme. Você sabe como uma revisão mal interpretada vira fofoca."

"Eu também sei ler uma autorização de pagamento."

Marcelo apertou o celular na mão.

"Volta para casa. A gente senta, conversa. Eu faço minha mãe pedir desculpas."

"Em troca de quê?"

"Não fala como se fosse uma negociação."

Esperei.

Ele esfregou a nuca.

"Você devolve os arquivos, encerra essa história no hospital e a gente resolve tudo dentro de casa."

A dor nas costelas aumentou quando respirei fundo.

"Por que ela precisava tanto da nossa reserva?"

"Renata, não complica."

"Você quer conversar. Estou fazendo uma pergunta."

"Era só uma ajuda."

"Ajuda para quê?"

Ele perdeu a paciência e ergueu a voz:

"Ela só precisava cobrir aquele buraco até segunda-feira. Depois devolveria o dinheiro."

Marcelo fechou a boca.

Eu continuei segurando a porta.

Dessa vez, nenhum de nós podia fingir que ele não sabia.

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