"O Homem Que Impediu Uma Menina de Comer Picanha… E Revelou o Segredo da Churrascaria!" Capítulo 5 — A Menina Que Ouviu Demais
Antes da reunião, Renato visitara discretamente o médico responsável por seu acompanhamento cardíaco. O profissional ajustara recomendações de descanso e insistira que ele não enfrentasse sozinho situações de tensão.
— Sua saúde não pode virar o preço dessa investigação — advertira.
Renato prometera obedecer, embora soubesse que manter a promessa seria difícil.
Ao sair da consulta, encontrou uma mensagem de Marina agradecendo pela ajuda com a escola. Ele respondeu que qualquer medida de segurança deveria respeitar a rotina e a vontade dela.
Marina releu a frase duas vezes. Estava habituada a homens que confundiam ajuda com autoridade. Renato, ao contrário, sempre perguntava antes de decidir algo que afetasse sua filha.
No fim da tarde, Sofia mostrou à mãe um caderno de português. A professora pedira que escrevessem sobre uma pessoa corajosa.
A menina escolhera Marina.
“Minha mãe trabalha muito e não deixa ninguém dizer que eu sou menos importante”, escrevera, com letras grandes.
Marina abraçou a filha sem conseguir falar. Aquele pequeno texto lhe deu coragem para enfrentar mais uma noite de incerteza.
— SOFIA NÃO CHEGOU À CASA DA VIZINHA!
Marina repetiu a frase com a voz quebrada. Renato segurou seu braço antes que ela atravessasse o estacionamento sem olhar para os carros.
— Ligue para a escola. Eu vou chamar Helena.
— A aula terminou há quarenta minutos. Dona Célia sempre busca minha filha no portão.
Marina discou uma vez, depois outra. Na terceira tentativa, a vizinha atendeu ofegante.
— Marina? Eu estava tentando falar com você!
— Cadê a Sofia?
— Está comigo. Ela deixou a mochila na sala de artes e voltamos para buscar. Meu celular ficou sem bateria. Desculpa!
Marina se apoiou na parede. As pernas não sustentavam mais seu peso.
— Coloca ela na linha. Por favor.
— Mamãe? — Sofia perguntou. — Você está chorando?
— Estou com saudade, meu amor. Não saia de perto da dona Célia.
Renato esperou até a ligação terminar. Só então examinou a fotografia recebida. O ângulo mostrava a calçada diante da escola, a mochila rosa e o relógio da fachada.
— Quem mandou isso sabe a rotina dela — observou.
— Alguém ficou seguindo minha menina.
— Vamos registrar a nova ameaça. E mudar temporariamente os horários de saída.
Marina apertou o celular contra o peito.
— Não quero que Sofia viva com medo.
— Nem eu. Mas precisamos agir antes de descobrir quem está por trás disso.
Helena atendeu em viva-voz. Pediu os arquivos originais, o horário das mensagens e os dados do registro anterior. Recomendou que Marina não respondesse ao número desconhecido.
— Vou acompanhá-la para formalizar tudo — garantiu a advogada. — E pediremos à escola que preserve as imagens da entrada.
Naquela noite, Marina buscou Sofia pessoalmente. A menina correu para seus braços e quase derrubou o coelhinho de pano que carregava.
— Aconteceu alguma coisa ruim?
— Alguém tentou assustar a mamãe — respondeu Marina. — Mas estamos tomando cuidado.
Sofia ficou quieta durante o caminho até o apartamento no Água Verde. Só depois do jantar tirou da mochila um desenho dobrado.
Era a churrasqueira Santa Brasa, com três pessoas de mãos dadas. Marina, Sofia e um homem de cabelos grisalhos.
— Esse é o tio Renato — explicou. — Ele parece bravo, mas não é.
Marina tentou sorrir.
— Por que desenhou nós três?
— Porque naquele dia ele não deixou ninguém machucar a gente.
A resposta apertou o coração de Marina. Ela guardou o desenho na gaveta onde mantinha os documentos mais importantes.
Na manhã seguinte, Renato reuniu Helena, Marcelo e Paula numa sala emprestada de seu escritório de consultoria. Não queria discutir os arquivos sensíveis dentro da churrascaria.
Paula colocou o pendrive sobre a mesa.
— Eu copiei as planilhas antes que meu acesso fosse limitado.
Helena conectou o dispositivo a um computador isolado e começou a catalogar os arquivos. Havia notas fiscais, mensagens de aprovação e versões sucessivas de uma proposta de compra.
— O nome de André aparece aqui — disse ela. — Mas precisamos confirmar a autenticidade e a origem de cada documento.
Renato examinou uma planilha.
— Os relatórios de manutenção foram alterados depois dos incidentes.
Marcelo apontou para uma linha.
— Essa pinça foi marcada como substituída. Eu nunca recebi uma nova.
Paula abaixou a cabeça.
— Eduardo mandava fechar os chamados antes da auditoria mensal.
— Você sabia que as peças continuavam em uso? — perguntou Renato.
— Não. Eu acreditei que a cozinha tivesse recebido as reposições.
Helena anotou a resposta sem fazer julgamento.
— Precisamos de quem recebeu, conferiu e armazenou os equipamentos. Não podemos pular etapas.
Na escola, Sofia esperava o sinal do fim da aula. Dona Célia já havia avisado que chegaria mais cedo. Mesmo assim, a menina olhava repetidamente para o portão.
Na semana anterior, antes de toda aquela confusão, Sofia ouvira duas vozes masculinas perto da entrada de serviço da Santa Brasa.
Ela estava esperando Marina terminar um turno extra. Tinha ido buscar água quando escutou o nome do tio Renato.
— O velho vai aparecer quando o problema estourar — dissera uma voz.
— Então precisamos que os sócios tenham medo antes da votação — respondera outra.
Sofia não compreendera. Achara que os homens discutiam algum programa de televisão. Mas agora lembrava claramente de um deles usando sapatos brilhantes.
Ao chegar em casa, perguntou:
— Mamãe, quem é o homem de terno azul que fala com seu chefe?
Marina parou de lavar a louça.
— Por quê?
— Eu ouvi ele falar do tio Renato perto da porta dos fundos. Foi antes do almoço da picanha.
— Quando, Sofia?
A menina pensou um pouco.
— Na quinta-feira. A senhora Jéssica me deu um copo d'água.
Marina pegou o telefone e ligou para Renato. Ele pediu que ela não interrogasse a filha e que anotasse exatamente o que Sofia lembrava espontaneamente.
— Uma criança pode confundir detalhes — explicou. — Mas isso pode indicar onde procurar testemunhas adultas.
Naquela mesma tarde, Helena solicitou a preservação das gravações da porta de serviço. Marcelo descobriu que parte do arquivo havia sido sobrescrita, mas Jéssica ainda tinha uma fotografia tirada naquele dia.
A imagem mostrava um carro preto estacionado junto à entrada dos fornecedores. André aparecia de perfil, conversando com Eduardo.
Renato observou a fotografia por muito tempo.
— Eles disseram que mal se conheciam.
— Agora sabemos que se encontraram — respondeu Helena. — Ainda não sabemos o que combinaram.
No apartamento, Marina recebeu uma ligação de número oculto. Não atendeu. Segundos depois, chegou um áudio curto.
Uma voz masculina distorcida dizia:
— Sua filha tem uma memória perigosa. Faça ela esquecer.
Marina mostrou a mensagem a Renato por chamada de vídeo. Ele pediu que preservasse o arquivo e prometeu acompanhá-la à delegacia.
Antes de desligar, Sofia apareceu atrás da mãe.
— Tio Renato, eu fiz uma coisa errada?
— Não, Sofia. Você não fez nada errado.
— Então por que aqueles homens estão bravos comigo?
Renato demorou um instante a responder.
— Porque algumas pessoas têm medo da verdade.
Naquele momento, Helena enviou uma mensagem urgente. Jéssica acabara de reconhecer o homem da fotografia.
E afirmava ter visto André entrar sozinho na cozinha, depois do fechamento.
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