"O Homem Que Impediu Uma Menina de Comer Picanha… E Revelou o Segredo da Churrascaria!" Capítulo 2 — O Dono Que Todos Humilharam
— ALGUÉM SABIA QUE EU VIRIA?
Renato segurou o braço de Marcelo antes que ele entrasse na cozinha. O chef olhou para o corredor, onde funcionários passavam com pratos vazios e fingiam não ouvir.
— Aqui não, chef. Eduardo está observando.
— Então comece pelo que aconteceu com os equipamentos.
Marcelo respirou fundo.
— Três semanas atrás, encontrei um parafuso solto. Depois, uma pinça rachada. Ontem apareceu uma lasca de aço na caixa de descarte.
— Você registrou os incidentes?
— Todos. Eduardo disse que eu estava criando pânico.
Renato ficou imóvel.
— E mandou continuar servindo?
— Disse que trocaria as peças. Tenho dois filhos, Renato. Não posso perder o emprego.
O antigo fundador conhecia aquela expressão. Era o medo de quem dependia de um salário e precisava escolher entre obedecer e fazer o certo.
— Você fez bem em me contar. Agora ninguém serve aquele lote até ser examinado.
Eduardo apareceu na passagem.
— Quem está dando ordens à minha equipe?
Renato virou-se.
— Estou pedindo uma suspensão preventiva. O risco precisa ser avaliado.
— Você não dirige mais a casa.
— Mas ainda sou sócio. E qualquer cliente pode comunicar um risco sanitário.
Eduardo aproximou o rosto.
— Dezoito por cento não dão poder para me humilhar diante de todos.
— Sua preocupação deveria ser a criança, não seu orgulho.
O gerente apertou o maxilar. Por fim, ordenou a Marcelo que interrompesse a saída da picanha por quinze minutos. Renato deixou claro que aquele prazo não substituía uma verificação real.
Enquanto isso, Marina procurava a bolsa de Sofia. A menina estava sentada perto da recepção, abraçada a um coelhinho de pano que levara escondido.
— Mamãe, o moço vai ficar bravo com a gente?
— Não, filha. Ele nos ajudou.
— O homem de terno estava gritando.
Marina ajoelhou-se.
— Às vezes, pessoas adultas fazem coisas erradas. Isso não significa que você tenha culpa.
Diego apareceu com dois copos de água.
— Trouxe para vocês. Desculpa pelo susto.
Marina aceitou um copo.
— Você não colocou o metal na carne, Diego.
— Mas quase servi.
— E parou quando o Renato pediu. Agora precisa contar tudo o que viu.
Diego olhou para o escritório de Eduardo.
— Ele vai querer que a gente esqueça.
— Eu não vou esquecer — respondeu Marina.
A porta principal se abriu. Verônica Sampaio entrou com perfume forte, salto alto e uma bolsa luxuosa. A esposa do gerente olhou para os clientes inquietos como se tivessem estragado sua tarde.
— Eduardo, por que estão todos com essas caras?
O marido veio recebê-la.
— Tivemos um pequeno contratempo.
Verônica viu Marina e Sofia.
— Ah, agora entendi. Funcionária trazendo criança para fazer escândalo.
Marina se levantou.
— Vim como cliente, dona Verônica.
— Espero que tenha dinheiro para pagar. Esta casa não é um refeitório beneficente.
Sofia apertou o coelhinho contra o peito. Marina sentiu a humilhação, mas manteve a voz firme.
— Eu fiz uma reserva e tenho o dinheiro.
— Então deveria ensinar sua filha a se comportar.
— Minha filha não fez nada.
Renato, que descera a escada, ouviu a última frase.
— A senhora está ofendendo uma criança que quase recebeu comida contaminada.
Verônica ergueu o queixo.
— E o senhor é quem?
Eduardo respondeu, constrangido.
— Renato Azevedo.
O sorriso dela mudou imediatamente.
— Chef Renato! Que honra! Não o reconheci.
Ela estendeu a mão. Renato não a aceitou.
— Reconheceria melhor a senhora Marina se a tratasse com respeito.
Alguns clientes abaixaram os olhos para esconder sorrisos. Verônica ficou vermelha. Eduardo agarrou o braço da esposa e a afastou.
Renato se aproximou de Sofia.
— Como está a aniversariante?
A menina ergueu os olhos.
— A mamãe disse que hoje era meu presente atrasado.
— Então você merece um almoço tranquilo, não uma confusão.
— O senhor sabe cozinhar arroz?
Renato sorriu pela primeira vez.
— Sei, mas aposto que o da sua mãe é melhor.
Marina sentiu o rosto esquentar, dessa vez por um motivo diferente. Havia muito tempo ninguém conversava com Sofia sem pressa ou impaciência.
— Precisamos ir — disse ela. — Não quero causar mais problemas.
— Você não causou nenhum — respondeu Renato.
Ele ofereceu o cartão de sua advogada e pediu que Marina guardasse qualquer documento relacionado ao episódio. Ela prometeu fazer isso, sem imaginar quanto aquela recomendação seria importante.
No escritório, Marcelo mostrou a Renato uma gaveta de utensílios. Uma pinça de aço inoxidável tinha uma parte quebrada na mola interna. O formato lembrava a lasca encontrada na picanha.
— São todas novas? — perguntou Renato.
— Chegaram em janeiro. Fornecedor SulChef.
— Nunca trabalhei com essa marca.
Marcelo apontou para uma caixa sob a bancada.
— Paula mudou os pedidos. Disse que a direção queria economizar.
Renato fotografou a etiqueta do lote. Pediu que a peça fosse isolada e que ninguém mexesse nas demais sem registro. Marcelo concordou, embora parecesse preocupado com a reação do gerente.
Uma copeira se aproximou.
— Chef Marcelo, posso falar?
— Fala, Jéssica.
Ela olhou para Renato.
— Ontem, depois do fechamento, vi alguém abrindo essa gaveta.
— Conseguiu reconhecer? — perguntou Renato.
— Não. A pessoa saiu pela porta de serviço. Usava sapato social.
Marcelo ficou tenso.
— Você avisou alguém?
— O senhor Eduardo disse que eu devia ter confundido as coisas.
Renato anotou o relato. Não havia prova de sabotagem, mas a coincidência exigia investigação. Pediu as imagens das câmeras e os registros de entrada daquela noite.
Eduardo surgiu na cozinha.
— Basta de interrogatórios! Minha equipe precisa trabalhar.
— E eu preciso dos registros de manutenção — respondeu Renato.
— Peça pelo jurídico.
— É exatamente o que farei.
Renato telefonou para Helena Prado, advogada de sua holding. Explicou o risco, a participação societária e a recusa da administração em fornecer documentos.
— Estou indo — disse ela. — Não descarte nada. Registre quem teve contato com cada peça.
Enquanto esperava, Renato voltou ao salão. Encontrou Marina perto do vestiário, lendo uma folha que Eduardo acabara de lhe entregar.
Ela parecia prestes a chorar.
— Aconteceu alguma coisa?
Marina ergueu o documento.
— Ele quer que eu assine uma declaração dizendo que causei o tumulto e prejudiquei a imagem do restaurante.
Renato leu as primeiras linhas.
— Isso não corresponde ao que aconteceu.
— Eu disse que não assinaria.
Eduardo apareceu atrás dela.
— E por isso está demitida!
Marina recuou como se tivesse recebido um golpe. Pensou no aluguel, no mercado, nos remédios para a mãe e no uniforme de Sofia.
— O senhor não pode me demitir por proteger minha filha.
— Posso dispensar uma funcionária que desrespeita a direção.
Renato colocou o papel sobre a mesa.
— Você acabou de vincular a demissão à recusa dela em assinar uma declaração contestada. Espero que esteja disposto a explicar isso ao jurídico.
Eduardo soltou uma risada.
— Está defendendo essa mulher por quê? Nem a conhece.
Renato encarou o gerente.
— Conheço o suficiente para saber que ela não merece ser ameaçada.
Marina tentou falar, mas a emoção a impediu. Pela primeira vez, alguém poderoso questionava a injustiça sem pedir nada em troca.
Eduardo apontou para a saída.
— A decisão está tomada!
— Então formalize por escrito, com os motivos reais — respondeu Renato. — Minha advogada vai examinar o caso.
Marcelo apareceu correndo, segurando o celular.
— Chef! A caixa da SulChef sumiu da cozinha!
Renato se virou.
— Como assim?
— Estava debaixo da bancada. Agora desapareceu. A porta de serviço está aberta.
Renato olhou para Eduardo. O gerente pareceu surpreso, mas não perguntou o que havia na caixa.
Na tela do celular de Marcelo, aparecia uma fotografia tirada minutos antes. A etiqueta da embalagem estava nítida.
Renato ampliou a imagem e leu o número do lote.
Então o telefone de Marina vibrou.
Uma mensagem de número desconhecido apareceu na tela.
“Se você quer continuar vendo sua filha sorrir, fique longe de Renato Azevedo.”
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