"O Homem Que Impediu Uma Menina de Comer Picanha… E Revelou o Segredo da Churrascaria!" Capítulo 1 — Não Sirva Essa Picanha!
— NÃO SIRVA ESSA PICANHA!
O grito atravessou o salão da Santa Brasa. Diego Martins parou com a bandeja suspensa. A gordura da picanha ainda estalava quando todos os clientes se viraram para o homem de camisa escura.
— O senhor está falando comigo?
— Estou. Não leve esse prato à mesa doze.
Diego olhou para a carne, depois para o desconhecido. Aquele homem usava jeans e tênis gastos. Não parecia alguém autorizado a interromper o serviço de uma das churrascarias mais conhecidas do Batel.
— Acabou de sair da churrasqueira, senhor.
— Eu sei. Coloque a bandeja sobre aquela bancada.
— Com licença, mas o senhor não trabalha aqui.
Renato Azevedo se levantou devagar. Uma pontada antiga atravessou seu peito, lembrança dos problemas cardíacos que o haviam afastado da cozinha cinco anos antes. Ele respirou fundo e apontou para a borda da fatia.
— Está vendo aquele brilho? Me dê dez segundos.
Diego hesitou. No fundo do salão, uma menina de vestido amarelo batia as mãos de felicidade. A mãe acabara de prometer que, naquele dia, ela poderia experimentar a famosa picanha da casa.
— Mamãe, está chegando!
Marina Oliveira sorriu para Sofia. Trabalhava ali como garçonete havia quase três anos, mas era sua primeira visita como cliente. Guardara dinheiro durante meses para cumprir a promessa de levar a filha à Santa Brasa.
— Está sim, meu amor. Hoje é o seu dia.
Sofia completara oito anos na semana anterior. No apartamento pequeno do Água Verde, a comemoração fora um bolo de chocolate caseiro. O almoço especial era o presente que Marina conseguira pagar.
Na parede atrás do balcão, uma fotografia antiga mostrava a inauguração da churrascaria. Renato evitou olhar para ela. Não voltara ao lugar para recordar os bons tempos. Um bilhete anônimo recebido na sexta-feira o trouxera ali, exatamente naquele horário.
Renato pegou uma pinça limpa da bancada. Diego tentou protestar, mas o homem já havia levantado a fatia com cuidado. Uma lasca fina de metal caiu sobre a prata com um som seco.
O garçom ficou branco.
— Meu Deus. O que é isso?
— Parece parte de um utensílio quebrado. Não toque sem proteção.
Renato aproximou o prato vazio para separar o objeto. A ponta era afiada como uma agulha. Se tivesse sido engolida, poderia ter causado uma lesão grave.
Marina se levantou ao perceber o tumulto.
— Diego? Aconteceu alguma coisa com o pedido?
O rapaz mostrou a bandeja, incapaz de encontrar palavras. Marina reconheceu imediatamente o perigo. Apertou a mão da filha com tanta força que Sofia reclamou.
— Mamãe, está machucando.
— Desculpa, meu anjo.
Renato virou-se para elas.
— Essa carne seria servida à sua filha?
Marina assentiu. Seu rosto perdeu a cor.
— Sofia, fique aqui comigo.
A menina olhou para o metal, curiosa.
— Era para eu comer aquilo?
— Não, querida — respondeu Marina, ajoelhando-se. — Ninguém vai servir esse prato.
A voz de Eduardo Sampaio cortou a conversa.
— QUE CONFUSÃO É ESSA?
O diretor-geral atravessou o salão com o paletó aberto. Tinha quarenta e quatro anos, relógio caro e um sorriso que desaparecia sempre que algum funcionário cometia um erro.
— Diego, por que parou o serviço?
— Senhor Eduardo, encontramos metal na picanha.
Eduardo observou a bandeja por um segundo. Em seguida, voltou sua irritação contra Renato.
— Foi o senhor que mexeu no prato?
— Impedi que fosse servido.
— E quem autorizou? Pode ter derrubado isso aí.
Renato sustentou o olhar do gerente.
— O fragmento estava preso na parte inferior da carne. Seu chef precisa examinar o lote e os equipamentos.
Eduardo soltou uma risada debochada.
— Todo cliente agora acha que sabe administrar uma cozinha profissional.
Marina não suportou o comentário.
— Senhor Eduardo, eu vi quando ele encontrou a peça. Minha filha estava esperando aquele prato.
O gerente virou-se para ela.
— Marina? O que faz aqui em horário de folga?
— Vim almoçar. Fiz reserva e pagarei a conta.
— Então comporte-se como cliente e não se meta no funcionamento da empresa.
Algumas pessoas começaram a filmar. Marina sentiu o rosto queimar, mas manteve Sofia atrás de si.
— Estou falando da segurança da minha filha.
Eduardo se aproximou demais.
— Cuidado com seu emprego.
Sofia começou a chorar. Marina pensou no aluguel atrasado, na conta de luz e no uniforme escolar que ainda precisava comprar. Mesmo assim, não conseguiu baixar a cabeça.
— Se eu ficasse calada, ela poderia ter engolido isso.
— Leve sua filha embora, então!
Renato deu um passo à frente.
— Não fale assim com ela.
— O senhor quer ser retirado também?
— Quero que pare de intimidar uma mãe que quase viu a filha ferida.
Eduardo apontou para a entrada.
— Segurança!
Dois funcionários se aproximaram. Renato não levantou a voz. Apenas colocou a mão sobre a bancada, ao lado do prato isolado.
— Chamem Marcelo Ribeiro. Agora.
Eduardo estreitou os olhos.
— Como sabe o nome do chef?
— Chame Marcelo.
Diego aproveitou a hesitação para correr à cozinha. Marina abraçou Sofia, tentando acalmá-la. O salão inteiro parecia esperar uma explosão.
Marcelo Ribeiro surgiu enxugando as mãos num pano branco.
— O que houve? A churrasqueira está parada por quê?
Eduardo apontou para Renato.
— Esse sujeito está criando um escândalo por causa de um pedaço de metal.
Marcelo ergueu o rosto. O pano escorregou de seus dedos.
— Chef Renato?
O desconhecido assentiu.
— Olá, Marcelo.
— Meu Deus. O senhor voltou!
Eduardo perdeu o sorriso.
— Renato Azevedo?
O nome percorreu as mesas como uma onda. Renato era o fundador da Santa Brasa, o chef que desenhara sua primeira churrasqueira vinte anos antes. Mesmo afastado da gestão, ainda possuía dezoito por cento do negócio.
Eduardo abriu os braços, subitamente cordial.
— Renato! Que surpresa maravilhosa! Não sabia que viria.
— Percebi. Há um minuto, você queria me expulsar.
O gerente soltou uma risada sem graça.
— Um mal-entendido.
Renato apontou para a bandeja.
— Então vamos esclarecer este outro.
Marcelo examinou a lasca sem tocá-la. Seus ombros enrijeceram. Ele lançou um olhar rápido para Eduardo, que respondeu com um movimento quase imperceptível de cabeça.
Renato viu a troca.
— Marcelo, de onde veio isso?
— Não sei com certeza, chef.
— Mas suspeita.
O cozinheiro engoliu em seco.
— Precisamos conversar em particular.
— Por quê?
Marcelo olhou para Sofia, ainda agarrada à saia da mãe.
— Porque não foi a primeira vez que encontramos metal na cozinha.
— MARCELO! — gritou Eduardo.
Renato não desviou os olhos do antigo colega. O medo no rosto do chef era maior do que o receio de perder o emprego. E alguém, naquele restaurante, parecia saber exatamente o motivo.
Ao passar por Marina, Renato entregou-lhe um cartão.
— Se alguém tentar culpá-la por isso, ligue para este número.
Ela apertou o cartão na mão.
— Obrigada por salvar minha menina.
Renato observou Sofia, que enxugava as lágrimas com o punho do vestido.
— Ainda precisamos descobrir de quem ela foi salva.
Na porta da cozinha, Marcelo se aproximou e sussurrou uma última frase.
— Chef, alguém sabia que o senhor viria hoje. E estava esperando que chegasse tarde demais.
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