"Minha Filha Chamou o Chefe da Máfia de Papai" Capítulo 3
O HOMEM NO VIDRO
"Eu não sei", respondi. "Há alguns meses ela viu você num jornal e disse a mesma coisa. Eu pensei que alguém tivesse confundido a cabeça dela."
Lorenzo permaneceu na porta.
"Quem ficava com ela antes de vocês virem morar aqui?"
Contei os nomes. Minha tia, a vizinha, uma cuidadora que trabalhava duas tardes por semana. Ele não interrompeu nem tentou transformar aquelas mulheres em suspeitas diante de mim.
Quando terminou de anotar, guardou o telefone.
"Nós perguntamos a ela amanhã, com calma. Eu não quero que pense que fez alguma coisa errada."
Depois voltou sozinho para a casa principal.
Naquela noite, deitei ao lado de Mia e ouvi a respiração dela até amanhecer. Lorenzo sabia. Não havia mais uma história pronta para contar se ele aparecesse, nem uma mala que me permitisse apagar o que acontecera.
Às sete, minha filha acordou perguntando se o pai tinha ido embora.
"Ele mora na casa grande, meu amor."
"Então podemos tomar café com ele."
Antes que eu respondesse, alguém bateu à porta.
Lorenzo estava do outro lado com uma sacola de pão e duas caixas pequenas.
"Eu não sabia qual leite ela toma", explicou.
Ele comprara três tipos.
Mia apareceu atrás das minhas pernas e o abraçou pela cintura.
Lorenzo afastou os braços para não acertá-la com as compras. Ficou assim durante um segundo, surpreendido, até apoiar a mão livre nas costas dela.
"Eu acordei", ela anunciou.
"Eu estou vendo. Você dormiu bem?"
"Eu sonhei com um cachorro dentro da piscina."
"Então nós temos um assunto importante para o café."
Minha mesa tinha três lugares. Um deles servia para empilhar correspondências e desenhos. Retirei tudo, de repente envergonhada pela cadeira bamba, pela toalha desbotada, pela porta do armário que não fechava direito.
Lorenzo não pareceu reparar em nada daquilo.
Reparou na fotografia de Mia recém-nascida presa à geladeira.
Ficou olhando enquanto eu colocava a água para ferver.
"Minha tia tirou essa no segundo dia", falei.
"Ela era muito pequena."
"Ela nasceu com três quilos. Eu achava enorme."
Ele sorriu sem tirar os olhos da imagem.
À mesa, Mia passou geleia no pão com concentração. Esperei que terminasse antes de perguntar.
"Meu amor, quem mostrou uma fotografia do papai para você?"
Ela lambeu um dedo.
"A moça do perfume."
Meu estômago se contraiu.
"Qual moça do perfume?"
"Aquela que tem o cabelo assim."
Mia tocou o próprio queixo, indicando um corte curto.
Lorenzo colocou o copo na mesa com cuidado.
"Você lembra onde conheceu essa moça?"
"Eu estava com a tia Neide. A mamãe foi falar com dona Rosa."
Lembrei da entrevista para o emprego. A vizinha tinha esperado com Mia no jardim externo enquanto eu entregava documentos na administração. Por semanas, eu me perguntara se entrar naquele portão seria a pior decisão da minha vida.
Não imaginara que alguém estava me observando do outro lado.
"Ela falou alguma coisa sobre mim?", Lorenzo perguntou.
"Ela falou que você era o meu pai e que a mamãe estava com medo."
Eu empurrei a cadeira para trás antes de conseguir me controlar.
Mia me olhou, assustada.
"Você não fez nada errado", falei imediatamente, ajoelhando ao lado dela. "Eu só lembrei de uma coisa. Você pode terminar o seu pão."
Ela encostou a testa na minha.
"Você ainda está com medo?"
Olhei para Lorenzo.
"Eu estou tentando entender algumas coisas."
Ele se abaixou do outro lado da cadeira.
"Os adultos vão cuidar disso. Você não precisa se preocupar."
Mais tarde, dona Rosa ficou com Mia na cozinha principal, escolhendo cortadores de biscoito. Lorenzo me apresentou a Marco De Luca num escritório menor.
Eu o conhecia de vista. Era o homem que verificava o portão, conversava com os motoristas e sempre devolvia as bolas que Mia chutava por baixo da cerca da residência de serviço.
Ele não pareceu surpreso quando Lorenzo disse que ela era sua filha.
"Eu vi vocês chegando juntos esta manhã", explicou. "Achei melhor esperar que você me contasse."
"Eu preciso das imagens do dia em que Helena veio fazer a entrevista", Lorenzo disse.
Marco consultou a data na ficha da administração. A rotina antiga apareceu numa tela: carros, um jardineiro empurrando um carrinho, minha figura pequena entrando com uma pasta contra o peito.
Lorenzo viu meu nome completo na ficha.
"Você não usou outro nome."
"Eu precisava de trabalho. Não podia inventar documentos."
Marco esfregou a nuca.
"A contratação passou pela administração de serviços. Nós verificamos antecedentes, não relacionamentos pessoais. Se alguém tivesse me dito que procurávamos Helena Duarte nesta cidade, eu teria cruzado os dados."
Lorenzo não respondeu. Continuou olhando a minha fotografia de funcionária, tirada a poucos metros da casa onde ele morava.
Eu lembrava de ter prendido o cabelo antes da foto. Queria parecer responsável. Queria que alguém me escolhesse para um emprego que permitisse pagar a escola de Mia.
Marco passou para a câmera do jardim externo.
Neide estava num banco. Atendeu uma ligação e se levantou, permanecendo perto do carrinho. Uma mulher se aproximou de Mia pelo caminho lateral.
O casaco claro. A postura ereta. O jeito de inclinar o rosto como se oferecesse um segredo gentil.
"É Sofia", falei.
Eu conhecia aquele perfume. Na primeira vez que o sentira, tinha saído de um café com a certeza de que minha filha corria perigo.
Na tela, Sofia agachou diante de Mia e tirou uma fotografia da bolsa.
Lorenzo ficou ao meu lado, tão perto que a manga dele tocou meu braço.
"Ela sabia onde você estava", disse.
"Ela me mandou desaparecer. Depois veio até a minha filha."
Minha voz tremeu. Apertei as mãos uma contra a outra até os dedos doerem.
Marco salvou o trecho. Procurou outra câmera, mas o caminho lateral estava encoberto por uma árvore.
"Eu quero falar com ela", disse a Lorenzo. "Não quero ouvir por terceiros o que resolveu fazer com a minha filha."
Ele assentiu.
"Você vai falar."
Marco voltou alguns segundos no vídeo. Sofia se levantava, guardando a fotografia. Atrás dela, uma porta de vidro refletia o caminho da garagem.
Havia um homem ali.
Lorenzo segurou meu braço.
Não foi um aperto. Foi a necessidade súbita de se apoiar em alguma coisa.
"Volte a imagem", pediu.
Marco obedeceu.
O homem no reflexo usava um casaco escuro. Levantou a mão até o rosto por um instante. O relógio no pulso devolveu um brilho à câmera.
Marco se aproximou da tela.
"Lorenzo, eu preciso verificar o arquivo original antes de afirmar qualquer coisa."
Lorenzo nem pareceu ouvi-lo.
"Quem é esse homem?", perguntei.
Ele olhou para mim, e toda a cor tinha desaparecido do seu rosto.
"Esse homem é o meu irmão. Eu enterrei Matteo há quatro anos."