"Minha Filha Chamou o Chefe da Máfia de Papai" Capítulo 2
TUDO O QUE ELE NÃO VIU
Eu poderia ter mentido por mais alguns segundos. Havia feito aquilo tantas vezes que conhecia a sensação exata: a boca seca, a resposta pronta, o cálculo de quanto da verdade cabia sem me destruir.
Mia bocejou contra o meu ombro.
Foi esse gesto pequeno que acabou comigo.
"Ela é sua filha."
Lorenzo não se aproximou. A mão que ele apoiara na escrivaninha ficou completamente parada.
"Eu quero dormir, mamãe", Mia pediu.
Fui até o sofá porque minhas pernas já não sustentavam uma discussão. Encontrei a manta, tirei o curativo que começava a descolar do joelho dela e conferi o arranhão. Mia se acomodou com o rosto na almofada.
"O papai precisa me dar boa-noite."
Fechei os olhos por um instante.
"Ele pode conversar com você depois, meu amor."
Lorenzo já estava ao meu lado.
"Boa-noite, Mia."
"Você esqueceu o beijo."
Ele se abaixou com um cuidado que quase doeu olhar. Tocou os lábios nos cachos dela e permaneceu ali por um segundo, a mão suspensa, sem saber onde colocá-la.
Mia resolveu por ele. Puxou seus dedos para perto da bochecha.
"Agora você pode trabalhar."
Lorenzo soltou uma respiração curta. Não chegou a ser uma risada.
Esperei até o corpo dela relaxar. Depois me afastei do sofá.
"Eu descobri a gravidez dois dias antes de sair do apartamento."
Ele baixou os olhos para a minha barriga, como se procurasse uma cena que o tempo já tinha levado.
"Você sabia quando deixou a chave na bancada."
"Eu sabia."
"Eu liguei quarenta e três vezes."
"Eu vi as chamadas."
Seu rosto mudou. Eu teria suportado melhor se ele tivesse levantado a voz.
"Você podia ter atendido uma delas."
"Uma mulher me procurou. Ela sabia onde nós nos encontrávamos, sabia da pulseira que você me deu e tinha fotografias suas diante de um armazém cercado pela polícia."
"Qual era o nome dela?"
"Sofia Bellini."
Lorenzo endireitou o corpo.
"O que ela disse?"
"Que o seu pai tinha escolhido uma esposa para você. Que eu seria usada contra a família se continuasse perto. Ela disse que uma criança tornaria tudo pior."
Ele olhou na direção do sofá.
"Você contou a ela sobre a gravidez?"
"Eu não contei a ninguém. Ela disse que sabia. Eu tinha acabado de sair da consulta quando ela me abordou."
Lorenzo virou o rosto para a janela. A chuva marcava o vidro em linhas finas.
"Meu pai estava doente. Havia problemas no porto. Eu estava resolvendo coisas que não queria levar para dentro do nosso apartamento."
"Você passou a não ir ao apartamento. Às vezes eu recebia uma mensagem do seu motorista dizendo que você não viria. Eu perguntava o que estava acontecendo, e você dizia que resolveria."
Ele fechou os olhos.
"Eu achei que estava poupando você."
"Eu achei que você estava se preparando para me deixar."
A distância entre nós cabia em poucos passos. Mesmo assim, aquela conversa precisava atravessar quase quatro anos.
Contei sobre Sofia, a pasta de fotografias e o aviso de que não adiantaria pedir ajuda a Lorenzo. Ela me mostrara uma imagem minha entrando na clínica. Depois mencionara o nome da tia com quem eu morava.
Naquele dia, eu entendi que ela sabia como chegar a todas as pessoas que eu amava.
"Eu era muito mais fácil de assustar do que você", falei.
Lorenzo apoiou as mãos na cintura.
"Você acreditou que eu escolheria aquela mulher?"
"Eu acreditei que havia coisas na sua vida que você nunca me deixaria conhecer. Nisso eu estava certa."
Ele recebeu a resposta sem se defender.
O relógio marcou mais um quarto de hora.
"Onde ela nasceu?", perguntou.
Eu precisei engolir antes de responder.
"Em uma maternidade de Registro. Chovia tanto que a minha tia levou duas horas para chegar."
"Você ficou sozinha?"
"Uma enfermeira chamada Célia ficou comigo. Eu apertei a mão dela até machucar."
Lorenzo se sentou.
Foi um movimento lento, pesado, como se alguma coisa finalmente tivesse cedido nas pernas dele.
"Eu não sabia como fazer tudo", continuei. "Na primeira noite em casa, Mia chorou até amanhecer. Eu também chorei. Depois aprendemos algumas coisas."
Ele passou o polegar sobre os lábios.
"Qual foi a primeira palavra dela?"
"Ela disse cachorro. Tinha um vira-lata deitado na porta da padaria."
Ele olhou para Mia e balançou a cabeça, quase sorrindo.
"Eu teria perdido para um cachorro de qualquer maneira."
A pequena tentativa de humor me feriu mais do que uma acusação.
Contei sobre os primeiros passos entre o sofá e a mesa, sobre o medo do aspirador e a mania de guardar pedrinhas. Ele ouviu sem interromper. Uma vez abriu a boca, desistiu e fez outra pergunta mais simples.
Quando Mia se mexeu, nós dois nos levantamos ao mesmo tempo.
Ela abriu os olhos.
"Eu estou com fome."
Olhei para o relógio. Já passava das dez.
"Você não quis comer o sanduíche que eu trouxe."
"Eu quero panqueca."
"A cozinha está fechada", respondi.
"A cozinha é minha", Lorenzo disse.
Virei o rosto para ele.
"Não comece a fazer isso."
"Eu ainda não fiz nada."
"Você está prestes a contrariar a mãe dela."
Mia se sentou depressa.
"A mamãe também pode comer panqueca."
Ele abaixou a cabeça para esconder um sorriso. Eu não consegui esconder o meu.
Na cozinha, dona Rosa nos recebeu com o susto de quem encontrava o dono da casa segurando uma criança de vestido amassado.
Ela me olhou. Eu assenti uma única vez.
Os olhos da governanta se encheram de lágrimas, mas ela teve a delicadeza de pegar uma tigela antes de fazer perguntas.
Lorenzo tirou o paletó. Arregaçou as mangas e deixou Mia mexer a massa com uma colher grande demais.
Quando ela derramou leite na roupa, ele procurou um pano limpo antes mesmo de eu me levantar.
"Você pode segurar a tigela com as duas mãos", sugeriu.
"Eu só tenho duas mãos, e uma precisa mexer."
Ele me olhou por cima da cabeça dela.
"Ela tem um argumento razoável."
Eu lembrei das noites em que ele tentava cozinhar para mim e queimava o alho porque se distraía me beijando junto ao fogão. Desviei os olhos depressa.
Mia comeu uma panqueca e meia. Lorenzo terminou a metade fria sem perceber que eu observava.
Depois a levou no colo até a casa dos fundos. Minha filha dormiu no caminho, o rosto encaixado no pescoço dele.
Na porta do quarto, ele esperou que eu afastasse a colcha. Deitou Mia, tirou os sapatos que finalmente tínhamos encontrado e alinhou os dois ao lado da cama.
Eu o acompanhei até a saída.
"Você vai querer um exame?", perguntei.
Ele olhou para o corredor estreito, para a bicicleta pequena encostada na parede.
"Nós podemos fazer o que for necessário para cuidar dela. Mas você acabou de me contar que eu tenho uma filha. Eu não vou passar esta noite fingindo que não acredito em você."
Segurei a maçaneta com força.
"Eu tenho medo de você tentar ficar com ela."
O rosto dele perdeu a pouca suavidade que tinha recuperado.
"Eu não vou tirar Mia de você. Eu quero conhecê-la, e preciso que você me deixe fazer isso."
Eu assenti, embora as lágrimas já estivessem descendo.
Lorenzo levantou a mão como se fosse tocá-las. Parou antes de encostar.
"Há uma coisa que eu ainda não entendi", disse. "Se você nunca mostrou uma fotografia minha, por que ela entrou naquela biblioteca sabendo quem eu era?"