"Minha Filha Chamou o Chefe da Máfia de Papai" Capítulo 1
A PALAVRA PROIBIDA
"Papai."
Seis homens armados ficaram imóveis ao redor da mesa, e o pano de limpeza escorregou da minha mão.
Mia atravessava a biblioteca descalça. Tinha uma meia no bolso do vestido, a outra abandonada em algum lugar, e caminhava na direção do homem mais temido de Santos como se estivesse entrando na cozinha para pedir um copo d'água.
Lorenzo Moretti interrompeu a reunião.
Um dos seguranças abriu o paletó. Vi a arma antes de conseguir respirar.
"Ela é uma criança", eu disse, mas minha voz saiu tão baixa que ninguém se virou.
Lorenzo ergueu a mão.
O segurança parou.
Eu conhecia aquele gesto. Quatro anos antes, ele o usara para dispensar um garçom porque eu ainda não tinha escolhido a sobremesa. Agora bastava levantar dois dedos para que homens perigosos obedecessem sem perguntar por quê.
Mia chegou à escrivaninha e inclinou a cabeça.
"Papai, você pode me pegar no colo?"
Meu coração pareceu bater uma vez dentro da garganta.
O relógio dourado da biblioteca marcava oito e dez. Eu lembraria daquele horário depois, embora não conseguisse recordar como tinha atravessado metade da sala.
Lorenzo olhou primeiro para os braços estendidos da minha filha. Depois, para os cachos castanhos, o joelho com um curativo amarelo, os olhos claros que eu fingia não reconhecer todas as manhãs.
Ele se levantou devagar.
"Mia, venha comigo agora", pedi.
Ela se virou, contrariada.
"Mamãe, eu encontrei o meu pai."
Um dos homens afastou a cadeira. O ruído de madeira contra o piso me fez estremecer.
Eu devia pegá-la, pedir desculpas e sair. Era o que uma funcionária sensata faria. Era o que uma mãe faria antes que alguém decidisse que aquela interrupção tinha sido planejada.
Mas Lorenzo olhou para mim.
Não houve espanto imediato. Houve reconhecimento.
O mesmo homem que eu deixara dormindo num apartamento pequeno, numa madrugada de julho, estava a poucos metros de distância. Mais magro no rosto. Mais largo nos ombros. Com uma cicatriz curta perto do maxilar que não existia quando eu conhecia o gosto da sua pele.
Passei seis meses imaginando aquele encontro e descobri que nenhuma versão me preparara para ele.
"Sinto muito, senhor Moretti. Ela estava na sala ao lado, e eu pensei que a porta estivesse fechada."
Agachei ao lado de Mia e segurei sua cintura.
"Vamos colocar os seus sapatos."
Ela segurou a manga do paletó dele com as duas mãos.
"Eu quero ficar aqui."
Eu tinha aceitado aquele emprego porque incluía moradia e porque a casa dos fundos ficava longe da residência principal. A governanta, dona Rosa, me entrevistara. Lorenzo passava a maior parte da semana em São Paulo, e minha escala nunca incluía os aposentos particulares.
Durante seis meses, limpei quartos de hóspedes, lavei cortinas e desinfetei banheiros sem ouvir a voz dele uma única vez.
Naquela manhã, a funcionária responsável pela ala principal precisara acompanhar a mãe ao hospital. À tarde, a vizinha que cuidava de Mia avisara que não poderia ficar. Dona Rosa permitira que eu trouxesse minha filha até terminar o serviço.
Lorenzo devia chegar na manhã seguinte.
Eu contara com portas, horários e corredores separados. Minha filha atravessara tudo aquilo em menos de um minuto.
"Não encoste nela", Lorenzo disse.
Congelei antes de perceber que a ordem era para o segurança que se aproximava por trás de mim.
Lorenzo contornou a escrivaninha.
Mia levantou o rosto, confiante. Ele poderia ter pedido que eu a retirasse. Poderia ter exigido uma explicação na frente dos outros. Poderia ter feito qualquer coisa que eu temera durante os três primeiros anos da vida dela.
Em vez disso, dobrou um joelho.
O tecido caro do paletó tocou o chão que eu acabara de limpar.
Ninguém falou.
"Como você se chama?", ele perguntou.
"Eu me chamo Mia Duarte, mas a mamãe me chama de Maria quando eu faço bagunça."
Um homem perto da janela apertou os lábios. Lorenzo não desviou os olhos dela.
"E você fez bagunça hoje?"
"Eu só tirei as meias porque o chão estava gostoso."
Ela encostou os dedos na mão dele.
Eu reconheci o tamanho, os nós dos dedos, a pequena marca no polegar. Já tinha adormecido com aquela mão aberta sobre a minha barriga, antes de saber que carregava alguma coisa ali.
Mia fechou a mãozinha em torno do indicador dele.
Lorenzo inspirou fundo.
O som foi discreto. Mesmo assim, eu o ouvi.
"A sua mão está gelada", ela disse.
"Eu percebi."
"Você pode colocar no meu bolso, se quiser."
Ela puxou o vestido para mostrar o bolso minúsculo. A meia caiu entre os dois.
Lorenzo a apanhou.
O absurdo daquela cena quase me derrubou. Homens que resolviam conflitos no porto estavam observando seu chefe ajoelhado, segurando uma meia com desenhos de morango.
"A reunião terminou", ele anunciou.
Um homem grisalho abriu a boca.
Lorenzo levantou os olhos.
O homem fechou a boca.
Pastas foram recolhidas, cadeiras voltaram ao lugar. O último segurança fechou a porta sem fazer barulho. Só então percebi que eu tremia tanto que a fivela da minha pulseira batia no relógio.
Mia olhou para o relógio dourado.
"Eu atrapalhei o trabalho de vocês?"
"Você não está encrencada", Lorenzo respondeu.
"A mamãe vai ficar brava porque eu saí da sala."
"A mamãe ficou assustada", eu disse. "Você precisa me avisar antes de sair de perto de mim."
Minha filha finalmente soltou a manga dele. Veio encostar o rosto no meu pescoço, mas manteve uma das mãos estendida, como se não quisesse perder Lorenzo de vista.
Ele se levantou.
Eu apertei Mia contra o corpo.
"Eu entrego as chaves para dona Rosa e saio ainda hoje. Não vai haver problema com a casa dos fundos. Só preciso arrumar as nossas coisas."
"Você mora aqui?"
Havia alguma coisa pior do que raiva na voz dele.
"Na residência de serviço."
"Há quanto tempo?"
"Há seis meses."
Ele olhou para o meu uniforme, depois para o pano abandonado perto da porta.
O maxilar endureceu.
"Eu estava procurando você."
A frase me atingiu num lugar para o qual eu não tinha defesa.
"Eu não sabia."
"Você deixou alguma maneira de saber?"
Mia se mexeu no meu colo. Beijei sua testa para ganhar alguns segundos.
"Podemos conversar amanhã. Ela está cansada."
"Há uma manta no armário ao lado do sofá. Você pode deitá-la aqui."
"Eu prefiro levá-la para casa."
Lorenzo percebeu a força com que eu segurava minha filha. Deu um passo para trás.
"Helena, eu não vou arrancar essa menina dos seus braços."
Ouvir meu nome na voz dele foi pior do que ouvir qualquer ameaça.
Mia ergueu a cabeça.
"Você conhece a minha mãe?"
Ele me olhou por alguns segundos antes de responder.
"Eu conheço."
"Então você pode ir na nossa casa. A mamãe tem uma caneca sobrando."
Lorenzo passou a mão pelo rosto.
Eu conhecia aquele movimento também. Ele o fazia quando precisava se conter.
"Helena, quantos anos ela tem?"
O relógio continuou batendo atrás de mim.
Mia levantou três dedos, orgulhosa, e respondeu antes que eu pudesse esconder outra coisa.
"Eu já fiz três anos em abril."
Lorenzo ficou imóvel.
Depois olhou diretamente para mim.
"Ela nasceu nove meses depois que você foi embora. Eu preciso que você me diga se Mia é minha filha."