"O Bilionário Se Levantou… E a Ex Entrou em Pânico!" Capítulo 1 — A Noite em Que Ele Se Levantou
— Você ainda vem a festas, Dante? Pensei que tivesse aprendido a ficar em casa.
Verônica Albuquerque ergueu a taça de champanhe. Seu vestido vermelho brilhava sob os lustres do Hotel Palácio Imperial, nos Jardins. Ao lado dela, Marcelo Ferraz abriu um sorriso que não chegou aos olhos.
Dante Montenegro estava numa cadeira de rodas, diante da mesa reservada aos principais patrocinadores. O terno preto era impecável. A expressão, também. Mas os dedos apertaram discretamente os apoios quando ouviu a voz da antiga noiva.
— Boa noite, Verônica.
— Boa noite? — Ela soltou uma risadinha. — Você continua educado. Pelo menos isso o acidente não tirou de você.
Alguns convidados se aproximaram. Outros fingiram escolher canapés enquanto escutavam. O quarteto de cordas seguia tocando, mas a música parecia cada vez mais distante.
Marcelo passou o braço pela cintura dela.
— Amor, deixa o homem aproveitar a noite. Já deve ser difícil chegar até aqui.
— Difícil? — Verônica apontou para a cadeira. — Difícil é lembrar que quase me casei com alguém que agora precisa de ajuda até para se levantar.
Uma senhora desviou o rosto. Um empresário pigarreou. Ninguém interveio.
Oito meses antes, Dante perdera o controle do carro na Rodovia dos Imigrantes. Passara semanas internado, meses em fisioterapia e noites inteiras aprendendo a suportar a dor. Durante aquele período, Verônica deixara de visitá-lo. Depois, devolvera a aliança por intermédio de um motorista.
Dante ainda lembrava o bilhete: Não posso abandonar a vida que planejei.
Naquela noite, ela parecia determinada a transformar a escolha em espetáculo.
— Você sabe qual é a pior parte? — Verônica perguntou aos curiosos. — Ele continua se comportando como se comandasse o mundo.
— Eu comando minhas decisões — respondeu Dante.
— Ah, claro. Desde que alguém empurre a cadeira.
Marcelo riu alto demais. Dois convidados o acompanharam, sem coragem de encarar Dante.
Do outro lado do salão, Marina Oliveira parou com uma bandeja de copos. Trabalhava havia seis horas sem descanso. Seu uniforme preto tinha uma pequena etiqueta com o nome bordado. Reconheceu a crueldade antes de entender quem era o homem.
O supervisor segurou seu cotovelo.
— Não se meta. Aqueles convidados pagam nossas contas.
Marina olhou para Dante. Ele estava cercado por pessoas que o tratavam como uma atração. Ninguém perguntara se ele precisava de alguma coisa.
— Água também faz parte do serviço — respondeu ela, soltando o braço.
Atravessou o círculo de convidados.
— Com licença, senhor. Gostaria de um copo d'água?
Dante ergueu os olhos. Pela primeira vez naquela noite, alguém falava com ele sem examinar a cadeira.
— Obrigado. Gostaria, sim.
Marina entregou o copo diretamente à mão dele. Não tentou ajudá-lo sem pedir. Não mudou a voz para um tom infantil.
Verônica arqueou as sobrancelhas.
— Que cena comovente. A garçonete resolveu bancar a enfermeira?
— Não, senhora — disse Marina. — Só perguntei se ele queria água.
— Então volte ao seu trabalho.
Marina hesitou. O supervisor fazia sinais desesperados perto do bar.
Dante percebeu.
— Qual é seu nome?
— Marina Oliveira.
— Obrigado, Marina.
Ela assentiu, mas não saiu imediatamente.
— Minha mãe sempre dizia que a gente descobre quem é de verdade quando ninguém está olhando — comentou baixinho.
Dante observou o salão. Todos estavam olhando. Era justamente por isso que o silêncio deles doía tanto.
Verônica bateu a taça com uma colher.
— Atenção, pessoal! Nosso grande Dante Montenegro tem algo a dizer? Talvez um discurso sobre superação?
Marcelo se inclinou para ele.
— Não precisa se esforçar. Podemos chamar alguém para levá-lo embora.
Dante apoiou o copo na mesa.
Uma semana antes, o doutor Henrique Sampaio confirmara que ele conseguia caminhar curtas distâncias sem apoio, embora ainda sentisse dor e fadiga. Dante pedira discrição. Precisava concluir uma investigação pessoal sobre as pessoas que o cercavam.
Não planejara revelar a recuperação naquela festa. Mas Verônica acabara de dar à noite outro significado.
— Você quer mesmo que eu diga alguma coisa? — perguntou.
— Por favor — respondeu ela, abrindo os braços. — Surpreenda a gente.
Dante respirou fundo.
— Passei oito meses descobrindo o que meu corpo ainda podia fazer. E descobrindo também quem achava que minha vida tinha perdido valor.
A expressão de Verônica endureceu.
— Não transforme uma brincadeira numa tragédia.
— Uma brincadeira? — Marina deixou escapar.
Verônica virou o rosto.
— Você ainda está aqui?
Dante ergueu uma das mãos.
— Ela fica.
O salão silenciou.
— Quando eu estava no hospital, muita gente me prometeu lealdade — continuou ele. — Alguns desapareceram antes que eu conseguisse sair da cama. Outros esperaram para ver quanto dinheiro ainda poderiam tirar de mim.
Marcelo perdeu o sorriso.
— Está insinuando alguma coisa?
— Estou dizendo que hoje eu não preciso mais adivinhar.
Dante posicionou os pés sobre o mármore. Sentiu uma pontada na perna esquerda. Esperou que passasse. Depois apoiou as mãos nos braços da cadeira.
Marina deu um passo instintivo, pronta para ajudá-lo se fosse necessário.
— Senhor Dante...
— Está tudo bem.
Ele empurrou o corpo para cima. Primeiro os joelhos tremeram. Depois conseguiu endireitar as costas. Ficou de pé diante de Verônica, que recuou como se tivesse visto um fantasma.
Uma taça caiu e se partiu no chão.
— Não... — Verônica levou a mão à boca. — Você não pode!
Dante manteve uma das mãos na cadeira para se equilibrar. O esforço era real. O silêncio também.
— Posso dar alguns passos — disse. — E, mesmo quando não podia, continuava sendo o mesmo homem.
Marcelo fitou as pernas dele. A cor desapareceu de seu rosto.
— Desde quando? — perguntou Verônica.
— Tempo suficiente para saber quem você é.
Um convidado começou a aplaudir, mas Dante levantou a mão. Não queria comemoração. Queria que todos lembrassem o que tinham acabado de presenciar.
Marina recolheu discretamente os cacos da taça. Ao erguer a cabeça, viu Verônica se aproximar de Marcelo e sussurrar alguma coisa. Ele respondeu com uma palavra curta e agressiva.
Marina se lembrava da primeira vez em que precisara trabalhar num evento daquele porte. A mãe lhe dissera para manter a cabeça erguida, mesmo quando os convidados fingissem que ela era invisível.
Naquela noite, porém, a invisibilidade parecia um privilégio. Dante tinha sido exposto como se a dor dele pertencesse ao público.
Perto do palco, um fotógrafo perguntou se podia registrar o momento em que Dante ficara de pé. Ele recusou com educação.
— Minha recuperação não é um número de circo.
O fotógrafo abaixou a câmera, constrangido. Uma senhora que antes permanecera calada aproximou-se para pedir desculpas.
— Eu devia ter dito alguma coisa quando ela começou.
— Talvez da próxima vez a senhora diga — respondeu Dante.
Marina ouviu a resposta e percebeu que aquele homem não estava procurando aplausos. Estava cobrando algo mais difícil: coragem.
Antes que Dante pudesse ouvi-los, a porta lateral se abriu com violência.
Um garçom entrou correndo, pálido, procurando alguém entre os convidados.
— Senhor Montenegro!
Dante virou o rosto.
— O que aconteceu?
— Tem um homem na entrada reservada. Ele disse que o senhor precisa vê-lo imediatamente.
— Quem é?
O rapaz engoliu em seco.
— Ele disse que descobriu quem provocou seu acidente.
Verônica apertou a taça com tanta força que os dedos ficaram brancos.
E Dante percebeu que Marcelo já estava procurando a saída.
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