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"A Cicatriz Que Ninguém Devia Ver" Capítulo 8

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O preço de contar tudo

"Marque a conversa", Gabriel disse a Renata. "Com o advogado dele presente, se quiser."

"Não é uma visita de reconciliação", ela avisou.

"Eu sei."

O ex-funcionário chamava-se Jonas Ribeiro. Chegou ao escritório de Renata com uma pasta escolar gasta e a irmã, Miriam, ao lado. Ela administrara uma loja de peças para caminhões na zona leste. Uma dívida discutível com uma empresa do grupo crescera até que homens ligados à cobrança levaram mercadorias, quebraram o portão e impediram fornecedores de entrar.

Jonas trabalhava na transportadora naquela época. Guardara ordens de serviço, mensagens e recibos. Não procurara a polícia antes porque seu emprego pagava o tratamento da mãe. Ela morrera no ano seguinte. O medo permanecera mais tempo.

"Não vi Gabriel dentro da loja", Miriam disse. "Mas a carta chegou com a assinatura dele. Quero saber se era dele mesmo."

Renata examinou a cópia sem prometer uma resposta imediata. Gabriel participava da conversa por chamada, com a autorização da equipe médica para um período curto. Reconheceu o modelo do documento.

"A assinatura eletrônica era minha. Eu aprovava lotes. Não conferia cada cobrança."

Miriam se inclinou para a câmera. "Então podia dormir porque não conhecia meu nome?"

Ele não respondeu de imediato. "Podia. E dormi."

Ela desligou a própria câmera, mas permaneceu na chamada. Renata pediu que Jonas entregasse cópias para análise e conservasse os originais. Também explicou que qualquer reparação privada precisaria respeitar a investigação e não poderia comprar silêncio.

Gabriel concordou antes que Miriam pedisse. Depois que a chamada terminou, ficou olhando para a tela apagada.

Antes de sair da reunião, Miriam dissera que não queria aparecer em fotografia apertando a mão de quem assinara a carta. Se um dia lhe oferecessem reparação, ela exigiria um caminho transparente, sem obrigação de agradecer ou calar. Gabriel respondera que ela jamais precisaria recebê-lo. A conversa terminara ali, sem absolvição.

Helena entrara para entregar um livro que ele solicitara. Não assistira à reunião. Renata lhe contou apenas o necessário: havia outra família prejudicada pelas operações antigas.

"Eu imaginava que isso aconteceria", Helena disse.

"Imaginar não é ouvir a pessoa", Gabriel respondeu.

"Não."

Ele esperou que ela dissesse que havia mudado. Helena colocou o livro na mesa e não ofereceu aquela saída.

Nos dias seguintes, vieram mais relatos. Alguns descreviam Vítor. Outros apontavam decisões assinadas pelo próprio Gabriel. Renata organizou os documentos por origem e data; Gabriel identificou o que reconhecia e o que precisava verificar. Recusou a sugestão de apresentar tudo como obra exclusiva do primo.

Enquanto isso, Helena preparou seu próprio pedido de reexame do caso Santa Cecília. Seu recurso antigo ainda existia, mas permanecera parado entre respostas formais. Desta vez, juntou a página que identificava Álvaro como consultor, sem tratá-la como prova de sua inocência. Pediu a avaliação independente de acessos, alterações e arquivos financeiros preservados.

A ex-colega que lhe enviara discretamente uma cópia anos antes, Patrícia, aceitou encontrá-la numa padaria em Pinheiros. Chegou cansada, ainda de uniforme hospitalar.

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"Guardei o extrato da madrugada em que mudaram as agendas", disse, tirando um envelope da bolsa. "Tive medo de lhe entregar quando tudo aconteceu."

Helena não estendeu a mão de imediato. "Por que agora?"

"Vi sua foto na notícia. Depois li que acharam um corte escondido num paciente. Não quero esperar mais uma pessoa ficar doente para admitir o que vi."

O extrato indicava acessos a prontuários por uma conta de auditoria externa. Não trazia o nome do usuário individual. Patrícia explicara a origem e preservara o documento sem edição; a análise técnica ainda teria de verificar sua autenticidade.

"Você não me deve coragem atrasada", Helena disse. "Mas preciso que conte isso oficialmente, se quiser ajudar."

Patrícia assentiu. "Vou contar."

Helena pediu permissão para registrar o estado do envelope, inclusive as dobras e a data escrita pela colega. O cuidado pareceu exagerado por um segundo. Então Patrícia lembrou que a primeira denúncia fora descartada porque ninguém conseguia explicar a origem de certas páginas. Desta vez, assinaria uma declaração sobre quando e como obtivera o extrato.

Quando Helena saiu, encontrou três chamadas perdidas da agência. A coordenadora pedira que não se apresentasse como membro da equipe enquanto durasse o afastamento. Ela respondeu por escrito, confirmando que respeitaria a decisão e solicitando uma cópia integral da ocorrência aberta na noite do resgate.

Não precisava da agência para provar que a cicatriz existia. Precisava evitar que a mesma cadeia de fatos se partisse em pequenas versões convenientes.

Gabriel começou a fazer sessões de reabilitação no leito. A perna direita dava sinais graduais; a esquerda permanecia incerta. Num fim de tarde, Helena o viu tentar segurar o copo sozinho. Ele derramou água na manta e soltou uma palavra irritada.

"Quer que eu chame alguém?", perguntou.

"Quero que finja que não viu."

"Isso eu não prometo."

Ele pegou o copo de novo, desta vez com as duas mãos. Conseguiu beber. Helena recolheu a manta molhada e a entregou a uma funcionária. Nenhuma das duas ações exigia que ela virasse sua salvadora.

"Se vier aqui só por obrigação, pode parar", Gabriel disse.

"Meu contrato foi suspenso."

"Eu sei."

"Então sabe que estar aqui é escolha minha. Não transforme a escolha numa dívida."

Ele sustentou o olhar. "Estou tentando aprender a diferença."

Naquela noite, Renata recebeu o resultado preliminar da análise do material retirado da região lombar. O laboratório identificara componentes incompatíveis com a descrição de tratamento fornecida por Álvaro; a apuração sobre conteúdo, origem e efeito exato continuava. Era suficiente para exigir respostas novas, não para declarar resolvida a cadeia inteira.

Vítor mudou de estratégia. Por meio do advogado, alegou que Gabriel planejara usar o primo como bode expiatório para antigos crimes e que Helena havia manipulado a cena do apartamento. Também apresentou cópias de mensagens antigas entre Gabriel e Caio sobre pagamentos de cobrança.

Renata mostrou o material ao cliente.

"São suas mensagens?"

Gabriel leu uma por uma. "São. Eu não sabia que ele guardara cópias."

"Elas podem prejudicar você."

"Devem. Fiz o que está escrito."

Dois dias depois, a imagem de uma das mensagens circulou na imprensa sem o contexto da investigação. Pela primeira vez, quem defendera Gabriel por ter sido vítima precisou encarar o fato de que outras pessoas também tinham sido vítimas dele.

Helena leu a frase na tela: "A equipe resolveu a cobrança. Não haverá nova resistência." O nome de Gabriel aparecia logo abaixo.

Ela guardou o telefone e foi ao hospital. Queria ouvi-lo dizer, olhando para ela, o que aquela frase significava.

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