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"A Cicatriz Que Ninguém Devia Ver" Capítulo 4

正文开头

O nome dela no arquivo

"Vítor, devolva o telefone ao médico", Gabriel disse.

Por um instante, Helena só ouviu o ruído distante de um carro. Vítor estava a caminho do prédio, não na clínica.

"Você precisa descansar, primo. Álvaro vai cuidar de tudo."

"Ele acabou de admitir que há um objeto nas minhas costas. Quero ouvir a explicação dele."

"A febre está fazendo você imaginar coisas."

Helena aproximou o aparelho do rosto de Gabriel. "A ligação está no viva-voz. A central da ambulância também já recebeu a informação sobre o possível objeto."

Vítor soltou o ar. "Você deveria ter escolhido outro plantão, Helena."

A chamada terminou.

Ela anotou o horário exato. Gabriel olhou para a porta como se pudesse enxergar o primo através de cinquenta andares de concreto.

"Ele sempre faz isso", murmurou. "Decide qual parte da verdade os outros têm permissão para ouvir."

"E você deixava?"

"Durante anos, era conveniente."

Helena verificou novamente o estado dele. A febre persistia, e a fraqueza na perna esquerda parecia mais marcada. Pediu que descrevesse qualquer mudança de sensibilidade sem tentar se levantar. No corredor, as luzes piscaram uma vez antes de voltarem à intensidade normal.

Caio ligou pela linha interna. Encontrara a equipe da ambulância junto à entrada de serviço, mas o elevador continuava bloqueado. A médica responsável subia pela escada com outro profissional e material de atendimento. Um terceiro aguardava a liberação da maca no térreo.

"Quanto tempo?", Helena perguntou.

"Estão tentando outra entrada. Não quero prometer cinco minutos e entregar vinte."

"Avise que a pressão dele está caindo e que há suspeita de infecção associada a um procedimento na região lombar."

Caio repetiu a mensagem para alguém do outro lado. Antes de desligar, acrescentou:

"Vítor mandou dois homens à portaria. Não permiti que chegassem perto da equipe."

Helena ficou com o telefone na mão por mais um segundo. Se o homem de segurança era leal a Gabriel, ainda não sabia a que custo. Naquela casa, confiança não se media por declarações; media-se por portas abertas.

Uma mensagem entrou em seu celular particular. Era uma fotografia antiga publicada numa notícia sobre o Hospital Santa Cecília. Helena aparecia saindo pela entrada lateral, com o jaleco dobrado no braço. A legenda a chamava de médica investigada por irregularidades. Em seguida veio outra mensagem, sem assinatura: "Sua agência conhece esta história?"

Ela apagou a prévia da tela antes que Gabriel visse.

"Vítor?", ele perguntou.

"Provavelmente."

"O que ele encontrou?"

Helena poderia ter respondido que era assunto dela. Gabriel não a obrigara a revelar o passado quando perguntara antes. Mas Vítor já o transformara em arma, e fingir que não existia lhe daria mais força.

"Eu era cirurgiã de trauma no Santa Cecília. Denunciei procedimentos cobrados de pacientes que não precisavam deles. Alguns prontuários foram alterados depois das cirurgias."

Gabriel manteve os olhos nela.

"Você denunciou à polícia?"

"Procurei primeiro a direção e reuni cópias. Eles alegaram que eu tinha acessado arquivos sem autorização e usaram um erro antigo, corrigido antes de prejudicar alguém, para questionar meu julgamento. Perdi meus privilégios cirúrgicos. Minha inscrição profissional ficou suspensa enquanto eu recorria."

正文1

"E sua prova?"

"Parte dela desapareceu do servidor. As cópias que guardei não foram suficientes para provar quem fez as mudanças."

Ela não contou que o marido saíra de casa seis meses depois, levando as plantas da varanda e deixando as contas. Não tinha nada a ver com o paciente. Ou talvez tivesse: desde então, Helena se recusava a chamar de apoio qualquer promessa que desaparecesse ao primeiro risco.

"Como está trabalhando aqui?", Gabriel perguntou.

"Fiz formação técnica anterior à medicina. Minha atuação atual é limitada ao contrato de cuidados e à supervisão da agência. Não vou operar você, Gabriel. Vou ajudá-lo a chegar a uma equipe capaz de fazer isso."

Ele assentiu, sem a piedade que ela esperava.

Outra mensagem apareceu. Desta vez, Vítor havia enviado um trecho do antigo processo à direção da agência, copiando Helena. Logo depois a coordenadora ligou.

"Helena, recebemos documentos graves. Preciso que você se retire do caso até esclarecer sua situação."

"O paciente apresenta febre alta, déficit neurológico e possível complicação de um procedimento não registrado na primeira versão do prontuário. A equipe de emergência está a caminho. Não posso abandoná-lo antes da transferência."

"Você não está autorizada a tomar decisões médicas."

"Concordo. Não estou tomando. Registrei sinais, acionei atendimento e informei o paciente. Envie outra profissional, se puder chegar a tempo. Por favor, anote que a ligação foi feita enquanto a transferência estava impedida pelo controle de acesso do prédio."

A coordenadora ficou em silêncio. Helena ouviu o som de teclas.

"Vou abrir ocorrência", disse enfim. "E falar com a central de emergência."

"Obrigada."

Quando desligou, Gabriel estava olhando para a porta.

"Ele tentou tirar você daqui usando seu passado."

"Tentou."

"Por que ainda está?"

"Porque você continua doente. Minha disputa com ele pode esperar."

Um ruído metálico veio do corredor. Helena saiu até a antecâmara, sem se afastar da linha de visão do quarto. Do outro lado da porta de serviço, alguém testava a maçaneta. Era uma mulher que se identificou como médica da equipe móvel. Helena confirmou o nome pelo protocolo da central antes de abrir.

A doutora Isabela Rocha entrou com um socorrista, ambos ofegantes pela subida dos últimos andares desde um acesso técnico. Helena fez a passagem do caso em frases curtas: ferimento original, evolução, sinais atuais, segunda incisão, ausência de consentimento apresentado, possível objeto e informação recebida de Álvaro. Mostrou os arquivos originais e distinguiu o que observara do que apenas ouvira.

Isabela examinou Gabriel. Sua expressão mudou ao ver a ferida.

"Precisamos de acesso à maca e ao elevador agora."

Caio, de volta ao andar, tentou destravar o sistema com sua credencial. A tela devolveu uma mensagem de permissão negada. Ele fotografou a recusa, incluindo horário e identificação da conta administrativa.

"Vítor bloqueou pessoalmente", disse.

Helena olhou para Isabela. "Sua central registrou que houve impedimento?"

"Sim. E já solicitou apoio no prédio."

Gabriel ouviu o esforço de cada um e, pela primeira vez naquela noite, pediu a Caio algo que não envolvia ameaça.

"Ligue para Renata. Diga que entregue aos investigadores a cópia do arquivo que deixei no escritório, caso eu não saia daqui."

Caio empalideceu. "Gabriel..."

"Faça."

Helena reconheceu a mudança: até então, ele queria escapar do primo. Agora aceitava expor o que o primo poderia usar contra ele.

O telefone de Caio tocou antes que conseguisse ligar. Ele escutou, olhou para Isabela e disse:

"A portaria acaba de informar que o elevador foi liberado. Vítor está subindo junto com Álvaro."

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