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"A Cicatriz Que Ninguém Devia Ver" Capítulo 3

正文开头

O homem que ainda mandava

"Abra a cópia antiga", Gabriel pediu.

Caio colocou o tablet ao alcance dele. Gabriel leu com esforço a linha vazia onde agora aparecia uma intervenção em suas costas.

"Eu assinei alguma coisa?"

"Não há autorização anexada", Caio disse.

"Isso não significa que não exista", Helena acrescentou. "Significa que ainda não vimos."

Gabriel devolveu o tablet. "Você sempre defende a hipótese menos confortável?"

"É a única forma de separar suspeita de prova."

A central da ambulância confirmou que a equipe estava a caminho. Helena pediu a Caio que anotasse o horário, encaminhasse à central as informações necessárias e garantisse acesso pelo elevador de serviço. Ele saiu até a sala de segurança, deixando a porta do quarto aberta.

Quando ficaram a sós, Gabriel observou o curativo no ombro.

"Meu pai morreu há um ano e meio. Desde então, Vítor acha que enlouqueci."

"O que você fez?"

"Fechei depósitos usados para cobrança violenta. Interrompi contratos de transporte que não resistiriam a uma fiscalização. Mandei devolver dois imóveis tomados de devedores."

Helena não tentou esconder a reação. "Você fala dessas coisas como se fechar fosse um favor."

"Não é. Deveriam ter sido impedidas antes."

"Por você?"

"Por mim também."

O reconhecimento veio sem defesa. Helena conferiu o monitor antes de responder.

"Então há pessoas que podem querer sua morte por mais motivos do que uma disputa de herança."

"Há. Mas foi Vítor quem escolheu a clínica e decidiu quem entrava neste apartamento."

"Por que deixou?"

Gabriel apertou os olhos. "Porque eu ainda o chamava de família."

Caio voltou trazendo um envelope transparente para guardar os documentos copiados. Tinha também uma notícia: o registro da portaria mostrava que Álvaro e Vítor haviam entrado juntos na clínica na noite anterior à piora das pernas de Gabriel. A informação, sozinha, não provava o que ocorreu dentro da sala, mas contrariava a versão de que Vítor apenas combinara um horário por telefone.

"Mantenha a sequência original", Helena disse. "Sem recortar vídeo nem editar imagem."

Caio a encarou. "Você já fez isso antes?"

"Tentei."

O telefone de Helena vibrou com uma mensagem da central. Ambulância a doze minutos. Ela foi até o corredor, onde a voz de Vítor saiu do interfone da sala de segurança.

"Caio, mande a enfermeira descer. Álvaro assume daqui."

"Gabriel solicitou a transferência", Caio respondeu.

"Ele está delirando. Você sabe disso."

"Foi capaz de identificar a mudança no prontuário", Helena disse perto do aparelho.

Vítor não respondeu de imediato.

"Você não entende o que está fazendo", disse enfim.

"Então venha explicar com documentos."

O interfone se desligou. Gabriel ouviu apenas o fim da conversa. Quando Helena retornou, ele perguntou:

"O que ele quer?"

"Que eu saia antes de Álvaro chegar."

"E você?"

"Quero que o hospital saiba exatamente o que encontrou quando você chegou lá."

Ela mostrou a ele as fotografias da ferida e o horário anotado, pedindo autorização para enviar o material diretamente à equipe que assumiria o atendimento. Gabriel concordou. A resposta saiu cansada, mas clara. Caio testemunhou e registrou o consentimento no relatório da noite.

正文1

Helena encontrou entre as folhas da clínica uma tabela de sintomas. O primeiro relato de dor nas costas precedia a febre. A perda de força começara no dia seguinte. O médico escrevera "evolução esperada" sem descrever exame neurológico.

"Isso não é uma evolução esperada para um ferimento no ombro", ela disse. "Mas ainda precisamos de imagem e avaliação hospitalar para saber a extensão do problema."

Gabriel passou a mão pelo rosto.

"Se eu não voltar a andar?"

Helena puxou uma cadeira para perto, sem fingir certeza.

"Essa pergunta é importante. Eu não tenho uma resposta honesta agora."

"As outras pessoas me diziam para descansar."

"Descansar não vai explicar uma cicatriz que você não conhecia."

Ele a estudou por um instante. "Você era médica?"

Helena ficou imóvel.

"Caio me disse que você trabalhava como enfermeira particular", Gabriel continuou. "Mas olha para um prontuário como alguém que já precisou defender cada linha dele."

"Hoje estou aqui como profissional de cuidados contratada pela agência. O que importa é conseguir um médico que avalie você imediatamente."

"Você não respondeu."

"Eu sei."

Ele deixou a pergunta descansar. Pela primeira vez, a escolha pareceu respeito, não derrota.

Um alerta apareceu no tablet de Caio. Ele leu e franziu a testa.

"O acesso do elevador de serviço foi suspenso."

"Desfaça", Gabriel ordenou.

"Não posso. Vítor tem credenciais de administrador. Também bloqueou a liberação remota do elevador privativo."

Helena pegou o próprio telefone. Ainda havia sinal. Ligou para a central da ambulância, informou que estavam impedidos de receber a equipe e pediu que registrassem a obstrução e buscassem apoio para entrar. Não desligou até ouvir a confirmação do protocolo.

"Há uma escada de emergência?"

"Há", Caio respondeu. "A porta abre por dentro. Cinquenta andares com uma maca não são opção, mas posso encontrar a equipe em um acesso inferior."

"Encontre. E avise a portaria para não negar que ela chegou."

Caio hesitou ao olhar Gabriel. "Se Vítor subir antes..."

"Deixe a cópia do prontuário comigo", Helena disse. "A equipe receberá o arquivo assim que entrar."

Gabriel segurou o braço de Caio por um segundo. "Vá."

Enquanto ele corria para o corredor, Helena enviou as fotografias e o relatório ao contato oficial da central, guardando o comprovante de envio. O gesto não melhorou a febre de Gabriel nem abriu as portas. Ao menos a informação já não dependia de um único aparelho naquele apartamento.

Uma nova chamada chegou ao telefone dela. Álvaro.

"Helena, escute com atenção", disse o médico, sem a calma anterior. "Não entregue aquela fotografia a ninguém."

"Já foi enviada à equipe de emergência."

Do outro lado, ouviu-se uma discussão abafada. Álvaro afastou a boca do aparelho e voltou.

"Então diga a eles que não façam ressonância antes de verificar uma coisa."

Helena sentiu a pele dos braços esfriar.

"O quê, doutor?"

Ele demorou dois segundos.

"Há um objeto perto da coluna. Eu não sei se é seguro submetê-lo ao exame."

Gabriel percebeu pela expressão dela que a resposta chegara. Helena ativou o viva-voz.

"Gabriel está ouvindo. Repita o que disse e explique quem colocou esse objeto ali."

Álvaro não respondeu.

Então o telefone mudou de mãos. A voz de Vítor surgiu, muito próxima:

"Desligue, doutor. Eles já descobriram o bastante."

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