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"A Cicatriz Que Ninguém Devia Ver" Capítulo 2

正文开头

A segunda ferida

Vítor Ferraz apareceu acompanhado de dois homens e de uma pasta de couro. Seu sorriso diminuiu quando viu Gabriel de lado, a luz acesa e Helena junto à cama.

"Parece que contrataram alguém diligente demais", disse.

Helena se levantou sem bloquear a passagem de Caio.

"Seu primo precisa ser transferido para um hospital. Quero o prontuário completo da clínica e o nome de quem fez essa incisão."

Vítor não olhou para a ferida. Olhou para Caio.

"É assim que ela costuma falar com a família do paciente?"

"Ela encontrou algo que não estava no relatório", respondeu Caio.

"Uma pequena drenagem. Álvaro explicou."

Helena observou a pasta de couro na poltrona. Vítor a havia trazido ao quarto de um homem gravemente doente e, ainda assim, não a abrira uma vez sequer. Se guardava documentos, poderia apresentá-los. Se não guardava, não tinha por que fingir que conhecia o procedimento melhor do que o próprio paciente. Ela conteve a vontade de acusá-lo: uma acusação prematura lhe daria uma desculpa para expulsá-la.

"Então você pode me mostrar o registro, a indicação e o consentimento", Helena disse.

Vítor apoiou a pasta sobre uma poltrona. "De madrugada?"

"A infecção também não consultou o relógio."

Gabriel soltou uma risada breve que virou tosse. Vítor aproximou-se da cama.

"Você está febril. Não é hora de confiar em uma desconhecida."

"Então mostre os documentos", Gabriel respondeu.

O sorriso do primo desapareceu.

"Álvaro guarda tudo na clínica. Vou buscá-lo amanhã cedo."

Helena abriu espaço para Caio ver o estado do paciente. "Amanhã pode ser tarde. Já pedi atendimento."

"Cancele."

"Não."

Os dois homens atrás de Vítor trocaram um olhar. Helena sentiu o próprio coração acelerar, mas tirou o celular profissional do bolso e mostrou a tela com as fotografias já registradas.

"A ferida está documentada. Quero que o hospital receba essas informações."

"Você fotografa pessoas sem autorização?"

"Registrei um achado clínico para a continuidade do cuidado. Gabriel está consciente; posso perguntar a ele na sua frente se concorda com o envio à equipe médica."

Gabriel fitou o primo.

"Concordo."

Caio guardou a informação no telefone. Vítor recolheu a pasta.

"Vou chamar Álvaro agora. Ele conhece o caso melhor do que essa mulher."

"Ótimo", Helena respondeu. "Peça que venha com as cópias."

Vítor saiu sem se despedir. Caio esperou o elevador descer antes de falar.

Pelo reflexo da janela, Helena o viu conferir discretamente o corredor antes de fechar a porta do quarto. Aquele gesto lhe disse mais sobre a casa do que a decoração: ali, até o chefe da segurança precisava medir quem podia escutar. Pediu que ninguém sem função clínica tocasse no material descartado. Caio ligou para a funcionária da limpeza. Ela já recebera ordem de recolher tudo. Ele a cancelou diante de Helena e anotou quem dera a primeira instrução.

"Você acabou de irritar a pessoa que controla metade da equipe de segurança."

"E ele acabou de dizer que houve uma drenagem que o paciente desconhece. Você ouviu?"

正文1

Caio assentiu devagar.

Helena ligou para o número da equipe móvel indicado no contrato. Caiu na caixa postal. Tentou a central da agência, relatou a gravidade e pediu protocolo do chamado. Em seguida, solicitou a Caio uma cópia dos registros de entrada da clínica e da portaria, antes que alguém os alterasse.

"Não tenho autorização para entregar dados da família."

"Então não entregue a mim. Preserve o original e anote quem acessá-lo. Se a equipe do hospital perguntar, você terá como responder."

Gabriel observava os dois.

"Você acha que Vítor mandou fazer isso?"

"Acho que alguém fez uma incisão nas suas costas sem lhe explicar. O resto exige prova."

"Você fala como advogada."

"Falo como quem já viu prontuário mudar depois de uma reunião."

Helena percebeu tarde demais o que revelara. Gabriel notou, mas não insistiu. A febre o fazia perder o fio da conversa a cada poucos minutos.

Caio voltou com uma caixa lacrada de materiais usados naquele dia e um tablet. Helena não abriu a caixa; pediu que ele registrasse onde fora encontrada. No tablet, a folha de evolução mencionava apenas "observação de ferimento no ombro". Não havia palavra sobre a região lombar.

"Acesso de quem?", ela perguntou.

"Da clínica. O sistema sincroniza."

"Tire uma cópia do que está aparecendo, com a data e o horário."

"Agora?"

"Especialmente agora."

O monitor apitou. A frequência cardíaca de Gabriel havia subido, e ele disse que sentia frio apesar do suor na testa. Helena repetiu a avaliação, acompanhou a resposta às medidas iniciais e informou à central de emergência que havia sinais de infecção associados a um procedimento não esclarecido e déficit neurológico progressivo.

"Uma ambulância foi acionada", disse ao desligar. "Precisamos manter o acesso livre."

"Vítor pode barrá-la na portaria", Caio respondeu.

"Então você vai encontrá-la lá embaixo."

"Se eu sair, deixo vocês dois sozinhos."

Gabriel puxou ar com dificuldade. "Vá quando ela chegar."

Caio não gostou da ordem, mas concordou.

Helena recebeu uma chamada de um número desconhecido. Era Álvaro Vilela. Sua voz tinha a calma treinada de quem explicava riscos a pacientes ricos.

"Vi as fotografias. Não mexa na ferida. É uma reação superficial aos pontos."

"Então explique a indicação do procedimento."

"Não discutirei prontuário pelo telefone."

"Seu paciente está febril, perdeu força nas duas pernas e diz que ninguém lhe falou sobre cirurgia lombar. A ambulância está vindo."

Houve silêncio.

"Quem autorizou a remoção?", ele perguntou.

Gabriel ergueu a voz o quanto conseguiu: "Eu."

Álvaro respirou fundo. "Vou até aí."

A ligação caiu. Helena aproximou-se da cama para verificar novamente as pernas. Gabriel distinguia o toque na direita; na esquerda, hesitou antes de responder. Aquilo não bastava para concluir a causa, mas bastava para não aceitar a palavra "superficial".

Caio mostrou o tablet. Uma entrada nova acabara de surgir no sistema da clínica. O relatório anterior fora substituído por outro, com a expressão "revisão de procedimento lombar" no rodapé.

"Você guardou a versão antiga?", Helena perguntou.

Ele virou o aparelho. A captura estava lá, com hora e identificador.

Pela primeira vez naquela noite, Caio pareceu assustado consigo mesmo.

"Por que corrigiriam isso depois da sua ligação?"

Helena olhou para Gabriel, que tinha ouvido tudo.

"Porque alguém percebeu que ele sobreviveu tempo suficiente para fazer perguntas."

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