"A Cicatriz Que Ninguém Devia Ver" Capítulo 1
A sexta profissional
"Se ele acordar e encontrar você aqui, não respondo pelo que acontece."
Helena Duarte continuou lavando as mãos.
Na bancada do banheiro, a água escorria sobre seus dedos enquanto, atrás dela, uma enfermeira enfiava compressas e termômetros na bolsa com tanta pressa que deixou um pacote cair no chão.
"Foi a quinta", disse o homem de terno escuro. "A quinta profissional a desistir em três semanas."
Helena fechou a torneira.
"Temperatura?"
"O quê?"
"Do paciente."
"Trinta e nove e meio. Talvez quarenta."
"Desde quando?"
"Desde a tarde."
"E vocês ainda não o levaram ao hospital?"
O homem pareceu avaliar se ela falava sério. O nariz, quebrado em algum momento da vida, tornava seu rosto menos elegante do que o corte impecável do paletó. No cadastro da agência, chamava-se Caio Nogueira, chefe da segurança de Gabriel Ferraz.
"O senhor Ferraz não entra em hospital", respondeu.
"Então pode morrer com uma vista excelente."
A outra enfermeira soltou uma risada curta. Ao passar por Helena, olhou seu rosto, os cabelos castanhos presos e a silhueta marcada pelo uniforme bem ajustado.
"Boa sorte. Ele deve preferir as bonitas."
Helena não respondeu. A porta do elevador se fechou sobre a mulher, levando consigo o cheiro de perfume e desinfetante.
Do quinquagésimo andar, a cidade de São Paulo brilhava sob uma chuva fina. O apartamento tinha obras de arte, mármore claro e silêncio suficiente para transformar cada ruído vindo do quarto em ameaça.
Três semanas antes, Gabriel fora baleado ao sair de um restaurante no Jardins. O ferimento no ombro parecia controlado. Depois vieram fraqueza nas pernas, febre, confusão e acessos de fúria. O relatório enviado à agência atribuía tudo ao trauma e aos medicamentos.
Helena relera aquela frase cinco vezes durante o trajeto. Nenhuma das cinco a convencera.
Na agência, uma colega lhe aconselhara a recusar o plantão. O pagamento cobriria dois meses de aluguel atrasado, mas não era isso que a fazia permanecer. Helena havia aprendido a reconhecer a distância entre um paciente difícil e um paciente que ninguém conseguia compreender. O primeiro precisava de limites. O segundo podia morrer cercado de gente obediente.
Ela também sabia quanto custava contrariar uma versão oficial. Três anos antes, perdera uma sala de cirurgia, o sobrenome que usava no casamento e a confiança de quase todos que diziam estar do seu lado. Ao atravessar a porta daquele quarto, prometera a si mesma não confundir coragem com imprudência. Examinar, registrar, pedir ajuda: passos pequenos e verificáveis.
"Ele agrediu alguém?", perguntou.
"Atirou um abajur contra a janela. Arrancou o acesso de soro. Segurou o braço de uma técnica."
"Perguntei se agrediu alguém."
Caio abriu a boca, fechou, depois respondeu:
"Machucou o braço dela."
"Entendi. Vou falar com ele antes de encostar. Se perder a consciência, faço o necessário."
"Você fala como se ele fosse aceitar ordens."
"Não preciso que aceite ordens. Preciso que me diga onde dói."
No quarto, Gabriel Ferraz ocupava uma cama larga demais para parecer um leito de doente. Tinha ombros fortes, cabelos escuros grudados à testa e uma tatuagem que desaparecia sob a manga da camiseta. As fotografias da imprensa o mostravam entrando em restaurantes cercado por homens; o homem à sua frente tremia de frio sob dois cobertores.
Helena conferiu os sinais no monitor. A oxigenação estava baixa. Ele respirava de maneira superficial, e a pele tinha um tom acinzentado que não combinava com a justificativa tranquilizadora do relatório.
Ela procurou a folha de medicações.
"Quem registrou a última dose?"
"O médico da clínica."
"Qual médico?"
"Álvaro Vilela. Vítor, primo do Gabriel, foi quem organizou tudo."
Helena marcou o horário no próprio bloco e fotografou a folha com o celular profissional. Uma dose estava anotada, mas faltava a assinatura de quem a administrara.
"Preciso das embalagens usadas hoje."
"Estão no descarte. Por quê?"
"Porque registro incompleto não é resposta."
Um movimento brusco veio da cama. Gabriel abriu os olhos e agarrou o pulso dela antes que Helena pudesse se afastar.
Caio levou a mão ao interior do paletó.
"Não", Helena disse sem tirar os olhos do paciente.
Os dedos de Gabriel apertaram. Seus olhos escuros não se fixavam direito nela.
"Quem mandou você?"
"A agência de cuidados domiciliares. Meu nome é Helena."
"Mentira."
"Seu primo me contratou?"
Caio endireitou o corpo.
Gabriel apertou mais.
"Foi ele?"
"Quem assinou o contrato foi a equipe da casa", Caio respondeu. "Eu conferi os documentos."
Helena sentiu o pulso latejar. Manteve a voz firme.
"Você está com febre alta e pouco oxigênio. Solte minha mão para eu poder cuidar disso. Depois me acusa do que quiser."
Por um instante, ele pareceu ouvir apenas a própria respiração. Então os dedos afrouxaram.
Ela se afastou o suficiente para ajustar a oferta de oxigênio e chamar Caio para observar o monitor.
"Se esse número não melhorar, vamos precisar de atendimento hospitalar urgente. Avise a equipe que o acompanha."
"Ele não vai permitir."
"Ele está ouvindo. Pode decidir quando estiver lúcido. Agora avise."
Gabriel fechou os olhos, mas murmurou:
"Não é o ombro."
Helena se inclinou.
"Onde dói?"
"Nas costas. Embaixo."
Caio cruzou os braços.
"Ele reclama desde que voltou da clínica. Disseram que ficar deitado causava dor."
"Quem examinou?"
"O doutor Álvaro."
Helena afastou o cobertor apenas até a cintura e explicou a Gabriel o que faria. Com a ajuda de Caio, virou-o de lado. O movimento arrancou dele um gemido seco.
A lesão do ombro estava coberta por um curativo limpo. Helena examinou a pele das costas com a lanterna pequena que carregava no bolso. Passou pela região torácica, desceu até a linha da cintura e parou.
Entre duas dobras naturais da pele havia um brilho estranho, fino como uma pincelada de cola.
"Caio. Acenda a luz toda."
O quarto ficou claro. Helena limpou delicadamente a área. Sob a película apareceu uma linha de pontos quase invisíveis. A pele ao redor estava quente e endurecida.
"Que marca é essa?", Caio perguntou.
Gabriel tentou olhar por cima do ombro.
"Que marca?"
Helena tirou uma fotografia, depois outra, incluindo a posição da ferida no corpo. Só então ergueu os olhos.
"Gabriel, você autorizou uma intervenção nas costas?"
Ele a encarou, agora desperto de verdade.
"Eu levei um tiro no ombro."
O elevador privativo anunciou uma chegada.
Caio olhou para o relógio. "Vítor disse que viria amanhã."
Helena manteve uma das mãos perto da ferida, sem tocá-la.
Na entrada do quarto, uma voz masculina chamou pelo primo como se tivesse todo o direito de entrar.
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