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"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 10

正文开头

A camisa de mangas compridas

Osvaldo não pediu para ver as mensagens por curiosidade.

Queria saber quais delas Vicente havia guardado.

Clara recebeu essa informação de André na manhã seguinte. Os investigadores ouviriam o antigo caseiro sem a presença dela. Se ele tentasse diminuir o que fizera com Caio, caberia aos registros e aos depoimentos mostrar as contradições.

Ela foi ao hospital.

Caio estava sentado numa cadeira junto à janela. Davi ocupava a cama, distribuindo cartas entre os dois. Havia dias que Caio dizia que o irmão embaralhava mal; ainda assim, entregava o baralho a ele em toda partida.

"Osvaldo apareceu?", Caio perguntou assim que Clara entrou.

"Foi localizado. Está falando com os investigadores."

"Ele vai dizer que eu caía."

"Talvez diga. Há médicos que examinaram você e pessoas que estão conferindo o que aconteceu."

Caio passou uma carta de uma mão para a outra. O pulso esquerdo ainda estava protegido, mas já conseguia apoiá-lo sobre a mesa sem se encolher.

"Meu pai vai dizer a mesma coisa."

Clara puxou uma cadeira.

"Você quer falar sobre ele?"

"Quero saber se perguntaram da camisa."

Davi parou de mexer nas cartas. Clara explicou que ainda não conhecia tudo o que Osvaldo dissera. Caio colocou a mão direita sobre a faixa.

"Ele me deu uma camisa azul depois que viu meu braço. Falou para usar quando viesse gente ao sítio. Eu não queria porque era grande demais. Osvaldo disse que, se meu pai mandou, eu ia usar."

"Você contou isso quando conversou com a equipe?", perguntou Clara.

"Contei. Mas não falei uma coisa."

Ela esperou.

"Tinha um botão faltando no punho. Meu pai ficou bravo com Osvaldo por causa disso. Disse: 'Se alguém vir, vão perguntar por que ele está usando roupa velha.'"

Caio examinou a reação dela.

"Ele não estava bravo porque eu me machuquei."

Clara não tentou transformar aquela lembrança numa conclusão sobre tudo que Vicente pensara. Era suficiente pelo que mostrava: ele vira o filho ferido, escolhera uma peça de roupa para cobri-lo e se preocupara com o que outros poderiam notar.

"Se quiser acrescentar isso ao seu relato, André pode avisar quem está acompanhando o caso", disse.

Caio assentiu. Davi juntou as cartas, embora a partida ainda não tivesse terminado.

"Posso ficar quando ele contar?", perguntou.

"Você pode perguntar a Caio se ele quer."

"Quero", respondeu o irmão, antes mesmo que Davi terminasse de olhar para ele.

Naquela tarde, André informou que Osvaldo havia reconhecido parte dos pagamentos e dito que Vicente conhecia as condições do sítio. Também admitira ter impedido Caio de sair sem autorização. Sobre as agressões, tentou descrevê-las como castigos por desobediência. Seu relato não era uma defesa para Clara; era mais uma versão a ser confrontada com os ferimentos, as datas e o que Caio contara.

Os investigadores obtiveram mensagens preservadas em aparelhos e cópias de contas usadas pelos dois homens. Numa delas, Osvaldo avisava que Caio estava com o pulso inchado e se recusava a trabalhar no quintal. Vicente respondera que passaria no domingo.

正文1

Era o domingo de que Caio se lembrava.

Dias depois, Osvaldo perguntara se devia levar o menino a uma unidade de saúde. A resposta de Vicente fora curta:

Espere minha próxima visita. Não quero perguntas sobre ele.

Clara leu a cópia no escritório de André. Não havia ordem para quebrar o braço do filho. Havia conhecimento do ferimento e uma decisão registrada de adiar ajuda.

"Caio pode saber que encontramos isso?", ela perguntou.

"Pode receber a informação de forma adequada, com apoio de quem o acompanha. Não precisa descobrir por uma notícia."

Clara concordou. Antes de sair, pediu uma cópia de tudo que ela própria entregara desde a festa. Queria saber, sem depender de Vicente ou da memória, qual havia sido sua participação nas contas do instituto. André explicou que a auditoria ainda separava assinaturas, autorizações e pagamentos efetivos. Ela continuaria respondendo às perguntas necessárias.

O afastamento de Vicente mudou a rotina do Instituto Caminhos. Renata reuniu os coordenadores dos abrigos, apresentou um calendário de pagamentos essenciais e contratou uma equipe externa para revisar as despesas antigas. Dois fornecedores ficaram sem novos contratos enquanto suas entregas eram conferidas. Funcionários reclamaram da demora para aprovar compras; Renata manteve um canal direto para alimentação, medicamentos e reparos urgentes.

Clara ofereceu-se para ajudar, mas Renata recusou seu retorno à administração naquele momento.

"Você trouxe documentos importantes", disse. "Também assinou parte do que estamos examinando. O trabalho precisa seguir sem depender de nenhum dos dois."

Clara aceitou. Pela primeira vez, entendeu aquela distância como uma proteção real para a instituição.

Quanto a Lívia, o material encontrado no sítio motivou uma nova análise das circunstâncias de sua morte. A gravação danificada, a anotação com o endereço de Clara e o relato de Joana seriam conferidos com os registros disponíveis. Ninguém podia dizer ainda o que provocara a colisão. Vicente continuava afirmando que não tivera relação com ela.

Caio perguntou sobre isso quando Clara o visitou no dia seguinte.

"Descobriram quem matou minha mãe?"

"Ainda não descobriram se alguém causou o acidente", ela respondeu. "Estão examinando o que ela fazia antes de sair e com quem falou."

"E se nunca descobrirem?"

Clara sentou-se perto da cama.

"Então vou lhe contar o que soubermos, sem inventar uma resposta."

Caio olhou para as mãos. Ficou alguns segundos em silêncio e depois perguntou se a mãe realmente havia tentado procurar Clara.

"Havia uma anotação com meu endereço", ela disse. "Também houve uma ligação que eu recebi. Eu não a escutei naquela hora."

"Ela queria me buscar?"

"A carta e a gravação mostram que estava tentando tirar você de lá. Ela continuou procurando ajuda."

Caio cobriu o rosto com a mão boa. Clara não se aproximou até que ele a chamasse. Então lhe entregou um lenço e permaneceu ao seu lado, sem pedir que parasse de chorar.

Uma semana depois, os responsáveis pelo caso permitiram que Caio participasse de uma conversa supervisionada com Vicente. O menino pedira o encontro. Clara verificou duas vezes se compreendia que podia desistir a qualquer momento.

"Não vou para ouvir desculpas", Caio disse. "Quero fazer uma pergunta."

Vicente entrou na sala sem o terno que costumava usar no instituto. Parecia cansado. Olhou primeiro para Clara, depois para Davi, que permanecia perto da porta. O filho mais novo recusara conversar com ele, mas pedira para acompanhar Caio até ali. Ficaria do lado de fora durante o encontro.

Caio levou consigo uma sacola de papel. Tirou de dentro a camisa azul que havia sido recolhida no sítio e depois devolvida conforme as orientações recebidas. A peça fora lavada antes de ser guardada, mas o punho continuava sem um botão.

Vicente encarou a camisa.

"Caio..."

"Você lembra dela?"

"Lembro."

Caio a colocou sobre a mesa.

"Quando viu meu braço, por que trouxe isso em vez de me levar ao médico?"

Vicente respirou fundo.

"Eu disse a Osvaldo que cuidaria da situação."

"Foi isso que perguntei?"

Clara viu as mãos do menino tremerem. Ele não retirou a camisa da mesa.

Vicente baixou os olhos.

"Eu achei que podia resolver tudo sem envolver mais ninguém."

"Meu braço não estava escondido quando mostrei para você."

"Eu sei."

"Então você viu."

Vicente não respondeu de imediato.

"Vi."

Caio levantou-se. Tinha preparado mais frases, mas pareceu decidir que não precisava delas.

"Era isso que eu queria ouvir."

Saiu da sala antes que Vicente pudesse pedir outra conversa.

No corredor, Davi se aproximou. Não perguntou o que o pai dissera. Apenas caminhou ao lado do irmão até o elevador.

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