"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 9
A assinatura dela
A declaração de Clara não começou com Vicente.
Começou com Lívia.
"Há anos, uma funcionária do Instituto Caminhos tentou me mostrar problemas nas contas. Eu conhecia essa mulher, mas não lhe dei os dez minutos que pediu. Depois assinei um comunicado que ajudou a destruir sua reputação."
Clara gravou a mensagem sentada no escritório de André. Não havia logotipo atrás dela, nem fotografia de Caio ou de Davi sobre a mesa. Falou apenas do que fizera e do que podia demonstrar.
"Entreguei os documentos que possuo às pessoas responsáveis pela apuração. Peço que o instituto preserve todos os registros e que ninguém trate uma acusação antiga como prova de culpa enquanto ela está sendo revista."
André assistiu ao vídeo antes da publicação. Tiraram uma frase que poderia revelar onde Caio estava recebendo atendimento. Clara manteve a referência ao comunicado assinado por ela.
Quando a gravação foi divulgada, os comentários apareceram em minutos.
Alguns a acusavam de ter participado do desvio. Outros diziam que inventara o arrependimento para prejudicar Vicente. Uma mulher comentou que perdera o emprego depois de reclamar da reforma de um abrigo. André guardou o contato para que os investigadores pudessem procurá-la, se ela concordasse.
Clara desligou as notificações. Era cedo para chamar qualquer comentário de prova.
Ao meio-dia, Renata telefonou. O instituto havia recebido mensagens de três antigos funcionários dispostos a informar quem autorizava mudanças nos cadastros de fornecedores. Um deles conservava e-mails da época.
"Seu vídeo trouxe pessoas que não queriam falar conosco", disse Renata.
"Quero que sejam ouvidas sem que seus nomes apareçam na imprensa."
"É o que também quero."
Clara percebeu o cansaço na voz dela. A auditoria começara naquela manhã e encontrara arquivos incompletos. Renata providenciara cópias dos servidores e impedira que novos documentos fossem inseridos nos registros antigos sem identificação. Vicente protestara, alegando que o instituto não podia parar de funcionar. Renata separara os pagamentos urgentes para revisão por outras pessoas.
No hospital, Davi estava esperando com o celular na mão.
"Minha amiga viu você falando da Lívia."
"Eu sei. Queria ter conversado com você antes de publicar."
"Ela perguntou se o papai roubou dinheiro."
"O que você respondeu?"
"Que estão investigando."
Clara assentiu.
"Foi uma resposta honesta."
Davi olhou para os próprios sapatos.
"Tem gente dizendo que você ajudou."
"Eu assinei documentos sem conferir tudo que devia. Não sei ainda o alcance do que foi feito com eles, mas minha assinatura está lá. Não vou fingir que não está."
"Vão prender você?"
"Não tenho como prometer o resultado de uma investigação. Vou entregar o que sei e responder pelo que fiz."
Davi pareceu menor do que na noite em que atravessara o salão com Caio pela mão. Clara quis protegê-lo daquela conversa. Entendeu, porém, que deixá-lo no escuro seria repetir um erro que a família inteira já conhecia bem.
Caio ouviu parte do diálogo da cama. Quando Davi saiu para buscar água, falou sem olhar para Clara:
"Minha mãe dizia que você gostava de resolver as coisas."
"Ela dizia?"
"Uma vez. Quando eu era pequeno. Falou que, se precisasse de ajuda, tentaria conversar com você."
Clara apoiou as mãos nos joelhos.
"Sinto muito por não ter atendido."
Caio ajeitou a faixa do pulso.
"Eu queria que ela ainda estivesse aqui para você dizer isso a ela."
"Eu também."
Ele virou o rosto para a janela. Clara não procurou uma resposta melhor.
À tarde, André trouxe notícias de Márcia. Os investigadores haviam registrado o caderno de compras e recebido dos antigos funcionários mensagens sobre o cadastro da empresa ligada a Osvaldo. Os registros apontavam que ele solicitara alterações, mas ainda era necessário identificar quem as aprovara no sistema.
Teresa entregara mais duas caixas. Numa delas havia correspondências devolvidas a Lívia depois de sua saída. Clara encontrou uma cópia do pedido formal de reunião que a amiga enviara ao instituto.
O documento não fora dirigido a Vicente.
Fora dirigido a ela.
Na margem superior, alguém escrevera:
Não encaminhar. Presidência informada.
A caligrafia não era de Clara. André fotografou a folha e a separou para exame. Ela passou alguns segundos olhando para a data. O pedido chegara antes da ligação em que Lívia chorara. Alguém impedira a carta de alcançar sua mesa, mas a ligação alcançara seu ouvido. Clara recusara ouvi-la por decisão própria. Nenhuma manipulação apagava isso.
No começo da noite, Joana prestou seu relato sobre a mulher que vira perto do condomínio. Reconheceu Osvaldo numa fotografia, mas não pôde afirmar com certeza que a mulher era Lívia. O intervalo de anos e a distância da portaria tornavam a lembrança limitada. Os investigadores continuariam verificando registros de entrada e deslocamentos daquela data.
Clara agradeceu por Joana ter falado. Não pediu que tivesse mais certeza do que possuía.
Ao sair do escritório de André, encontrou Vicente junto à calçada. Havia dois fotógrafos do outro lado da rua. Ele não se aproximou até que ela o visse.
"Você colocou sua própria assinatura na internet", disse.
"Ela já estava no comunicado."
"Estava esquecida."
"Para você."
Vicente olhou em direção aos fotógrafos.
"Quando isso acabar, Davi vai lembrar que você escolheu contar tudo."
"Ele já se lembra de ter sido ameaçado para ficar calado."
O rosto de Vicente perdeu a cor por um instante.
"Eu nunca ameacei meu filho."
"Ele contou exatamente o que você disse que aconteceria com Caio se falasse."
"Eu queria evitar que os dois sofressem."
Clara não respondeu. Abriu a porta do carro. Vicente colocou a mão na parte superior da porta, impedindo-a de fechá-la.
"Você ainda não sabe tudo o que Lívia fez", falou.
"Então conte aos investigadores."
Ele retirou a mão, e Clara entrou no carro.
Na manhã seguinte, Renata convocou outra reunião. A auditoria havia encontrado um acesso administrativo usado para alterar registros de fornecedores e lançar despesas em nome do atendimento emergencial. O usuário estava vinculado ao gabinete da presidência. Isso não identificava sozinho quem digitara cada lançamento, mas Vicente já não poderia alegar que a rubrica surgira sem passar por sua estrutura.
Renata informou que o conselho o afastaria de todas as funções executivas enquanto a apuração continuasse. Os pagamentos essenciais seriam feitos sob revisão independente. Comunicaria a decisão aos órgãos envolvidos e aos doadores sem expor o nome de Caio.
Vicente não compareceu para ouvir a decisão.
André recebeu uma ligação pouco depois. Os investigadores haviam localizado Osvaldo. Ele aceitara falar, desde que lhe mostrassem as mensagens enviadas por Vicente nos meses em que Caio estivera ferido.
Clara estava no corredor do instituto quando André terminou a chamada.
"O que ele quer dizer com isso?"
"Não sei ainda. Mas as mensagens foram preservadas."
Dentro da sala, Renata pedia ao secretário que registrasse o afastamento de Vicente em ata. Clara olhou pela janela para o pátio onde as crianças atendidas pelo instituto chegavam todos os dias.
Pensou na camisa de mangas compridas que Vicente levara ao sítio.
A próxima pergunta já não era quanto ele pagara para esconder Caio.
Era o que sabia enquanto o filho pedia socorro.
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