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"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 8

正文开头

A visita que nunca aconteceu

Clara conhecia o endereço escrito por Lívia. Reconhecia até a forma abreviada como a amiga anotara o nome da rua.

Mas Lívia nunca chegara à sua casa naquele dia.

"Poderia ter mudado de ideia", André disse. "Ou marcado outro encontro depois."

"Ela escreveu que iria amanhã. E anotou meu endereço."

"Precisamos conferir a data da anotação com os outros registros."

Clara pegou o celular e procurou fotografias daquele período. Na manhã indicada, Davi, então pequeno, aparecia com um bolo de chocolate sobre a mesa da cozinha. Não era seu aniversário. Ela demorou a lembrar o motivo: uma professora avisara que ele voltaria às aulas depois de uma semana doente, e Clara preparara o bolo para comemorar.

Passara o dia em casa.

"Lívia telefonou naquela semana", disse. "Eu recusei ouvi-la. Talvez tenha decidido vir mesmo assim."

André não respondeu. Ambos sabiam que uma intenção escrita não provava que ela havia saído de casa, percorrido o caminho ou chegado perto do portão.

Clara voltou à casa dos Azevedo pela primeira vez sem acreditar que ainda morava ali. Cada cômodo lhe devolvia uma versão de sua vida que já não conseguia aceitar inteira. Na cozinha, encontrou o armário onde guardara os álbuns de Davi. Procurou a fotografia do bolo e, atrás dela, um calendário de papel no qual costumava marcar consultas e compromissos.

Na data da anotação de Lívia, havia escrito:

esperar técnico da internet, 14h

.

Lembrava-se da visita. O homem chegara atrasado, trocara o roteador e pedira que Vicente assinasse a ordem de serviço quando voltou para almoçar. Clara conferiu no e-mail antigo e encontrou a confirmação do atendimento.

Isso não lhe dizia se Lívia passara por ali. Dava-lhe, porém, duas pessoas que poderiam ter visto alguém chegar: o técnico e a porteira que trabalhava no prédio naquela época.

O técnico não se lembrava. A antiga porteira havia se aposentado, e o condomínio não tinha seu contato atualizado. Clara deixou seu número com a administração e pediu que verificassem se existiam livros de entrada guardados daquele ano.

Enquanto esperava, recebeu uma mensagem de Davi.

O Caio não quer falar com mais ninguém hoje. Eu disse que podia.

Clara respondeu que ele fizera bem em respeitar a decisão do irmão. Depois voltou ao hospital.

Caio estava sentado na cama com os joelhos junto ao peito. Helena conversara com ele sobre o tratamento do pulso, e um profissional responsável por ouvi-lo havia explicado que precisariam registrar seu relato. Nada disso o obrigava a contar a mesma história à família inteira.

"Todo mundo pergunta da minha mãe", Caio disse quando Clara entrou.

"Você quer que eu não pergunte?"

"Quero que me digam quando descobrirem alguma coisa. Mesmo se for ruim."

Clara se aproximou apenas depois que ele indicou a cadeira.

"Encontraram uma gravação feita por ela. Ainda estão verificando o que aconteceu e quando. Eu não vou esconder de você o que puder contar, mas não quero transformar uma suspeita em certeza."

正文1

Caio estudou seu rosto.

"Meu pai disse que ela morreu porque dirigia sem cuidado."

"Foi o que ele me disse também."

"Você acredita nele?"

"Hoje, não aceito a palavra dele como resposta. Quero que descubram."

Caio pareceu considerar aquilo. Tirou do travesseiro um pedaço de pão embrulhado num guardanapo e o colocou sobre a mesa, à vista de todos.

"Se ela tivesse conseguido falar com você", perguntou, "eu teria saído do sítio?"

A pergunta atingiu Clara antes que pudesse escolher uma frase confortável.

"Não sei o que eu teria feito naquele dia. Sei que devia tê-la ouvido."

"Você não gostava dela?"

"Eu gostava muito."

"Então por quê?"

Clara olhou para as mãos.

"Porque confiei em Vicente quando ele a acusou. E porque aceitar a versão dele foi mais fácil do que descobrir que havia algo errado dentro da minha casa."

Caio não disse que a perdoava. Clara não esperou por isso.

Davi entrou carregando uma garrafa de água e percebeu que os dois estavam calados. Colocou-a sobre a mesa, ao lado do pão.

"Consegui uma vitória justa hoje", anunciou a Caio. "Pergunte à enfermeira. Ela viu a partida inteira."

Caio ergueu um canto da boca.

"Ela não sabe jogar."

Clara saiu do quarto enquanto discutiam. Precisava lhes dar um tempo sem adultos tentando organizar cada palavra.

No corredor, encontrou uma chamada perdida do condomínio. A administração localizara a antiga porteira: Joana Batista. Ela aceitou conversar por telefone, mas disse que não se lembrava de uma visitante chamada Lívia.

"Naquele dia houve alguma confusão na entrada?", Clara perguntou.

Joana demorou a responder.

"Lembro de um carro parado do outro lado da rua. A mulher que saiu dele parecia nervosa. Mas não sei se era a pessoa que você procura."

"Ela entrou?"

"Não. Um homem chegou antes que atravessasse."

Clara segurou o telefone com mais força.

"Você conhece esse homem?"

"Eu o via de vez em quando. Fazia serviços para seu marido."

Osvaldo.

Joana disse que os dois conversaram junto ao carro e saíram em veículos diferentes. Ela não prestara mais atenção porque, naquele momento, o técnico da internet pedia que abrisse o portão da garagem. Nem sabia se a mulher pretendia visitar Clara.

Era uma lembrança antiga, que precisaria ser conferida. Clara anotou cada detalhe sem acrescentar o que gostaria que Joana tivesse visto.

André encaminhou o contato aos investigadores. Em seguida, avisou que Vicente pedira formalmente acesso aos filhos para uma conversa. A solicitação seria tratada pelos responsáveis pelo caso; ninguém iria buscá-los no hospital por decisão dele.

"Ele sabe da gravação?", Clara perguntou.

"Sabe que encontraram materiais no sítio. Não sei o que conhece do conteúdo."

Naquela noite, Clara recebeu de Renata uma cópia da comunicação enviada aos doadores do instituto. O texto anunciava a auditoria, mas descrevia as inconsistências como resultado de "conflitos entre antigos administradores". O nome de Clara aparecia ao lado do de Vicente. Lívia nem sequer era mencionada.

Clara telefonou para Renata.

"Esse texto faz parecer que as duas partes cometeram a mesma coisa."

"A auditoria ainda não terminou."

"Eu não pedi que declare Vicente culpado. Peço que diga quais contas serão examinadas e que a acusação contra Lívia também está sendo revista."

"Se você quiser publicar algo em seu nome, não posso impedi-la."

Clara desligou. Uma declaração pública poderia atingir Davi e Caio, que já haviam sido filmados na festa. Também poderia pressionar Teresa e Márcia. Ela não faria isso antes de conversar com André e de retirar qualquer detalhe que identificasse o tratamento de Caio.

Abriu no computador o antigo comunicado em que, anos antes, o instituto anunciara a saída de Lívia por "irregularidades graves". Sua assinatura estava no rodapé.

Clara ficou olhando para o próprio nome.

No dia seguinte, o advogado lhe mostrou um e-mail recém-enviado por Vicente a alguns conselheiros. Nele, ele sugeria que Clara tentava transferir para ele decisões financeiras que ela mesma havia aprovado.

Clara leu as páginas com calma. Então pediu a André que preparasse uma cópia do comunicado antigo, de sua assinatura e dos documentos que demonstravam o que já fora entregue à investigação.

"Vou contar a parte que é minha", disse.

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