"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 7
O nome que faltava
"Foi Caio", Vicente respondeu.
A frase saiu tão baixa que Renata pediu que repetisse.
"O cadastro era de Caio. Eu paguei para que cuidassem dele."
Clara permaneceu de pé. Era a primeira vez que Vicente admitia diante de outras pessoas que ligara o filho ao instituto.
"Quem autorizou usar dinheiro das doações?", perguntou Renata.
"Eu pretendia devolver tudo."
"Há uma autorização assinada?", insistiu ela.
Vicente olhou para a folha diante de si.
"Não sei onde está."
André abriu uma segunda cópia.
"O instituto pagou pelo acolhimento de Caio. Ao mesmo tempo, pagou à empresa ligada a Osvaldo por manutenção. Qual serviço essa empresa prestou?"
"Cuidados com o imóvel."
"Então uma das despesas era para a criança e a outra para o sítio?", perguntou Clara.
"Se você quer simplificar dessa maneira."
"Quero saber quem esteve com Caio, quem verificou suas condições e quem recebeu o dinheiro."
Vicente passou os dedos pela borda do copo.
"Osvaldo cuidava dele. Eu visitava quando podia."
Um conselheiro que ainda não havia falado perguntou onde estavam os relatórios de acompanhamento exigidos para os outros atendimentos. Vicente respondeu que Caio era uma situação excepcional.
Renata fechou a pasta.
"Uma exceção não explica a ausência de qualquer registro sobre o estado dele."
A reunião seguiu por mais vinte minutos. O conselho aprovou a preservação dos arquivos e o afastamento temporário de Vicente das autorizações financeiras, até que uma auditoria independente pudesse examinar as contas. Clara também continuaria sem acesso direto ao sistema. Renata faria a comunicação formal aos responsáveis pela investigação.
Vicente ouviu o resultado sem protestar. Quando os outros começaram a recolher seus papéis, aproximou-se de Clara.
"Conseguiu o que queria?"
"Queria que Caio tivesse saído daquele sítio anos atrás."
"Você acha que ele vai agradecer quando descobrir que destruiu o instituto que paga por centenas de crianças?"
Clara guardou o documento com cuidado.
"Ele não é responsável pelas decisões que você tomou."
Vicente deu um passo para trás. Por um momento, pareceu que diria algo mais. Em vez disso, saiu da sala.
No elevador, André recebeu uma ligação. A equipe encarregada de verificar o sítio obtivera acesso à propriedade. Osvaldo não estava lá. O quarto onde Caio dormira havia sido esvaziado, mas o colchão permanecia encostado numa parede. Havia marcas no piso e uma pequena janela com vestígios de comida do lado de fora.
Clara encostou a cabeça na parede do elevador.
"Vicente mandou Osvaldo ir antes de nós."
"Isso será apurado. Ainda não sabemos o que ele conseguiu retirar."
No hospital, Davi esperava ao lado de Caio com um baralho espalhado sobre a cama. O irmão mais velho segurava cinco cartas com a mão direita. A esquerda descansava sobre um travesseiro.
"Você foi falar com ele?", Davi perguntou.
"Fui."
"E ele admitiu?"
"Admitiu que sabia onde Caio estava e que usou dinheiro do instituto para pagar por aquilo."
Caio levantou os olhos das cartas.
"Ele falou meu nome?"
"Falou."
O menino apertou as cartas até entortá-las.
"Ele nunca falava quando tinha outras pessoas."
Clara sentou-se na cadeira vazia. Não contou os detalhes da discussão. Disse apenas que outras pessoas fariam perguntas e que ele não precisava respondê-las naquele momento.
Davi colocou uma carta sobre a colcha.
"Então eu ganhei."
"Você mudou a regra", Caio reclamou.
Foi a primeira reclamação comum que Clara ouviu sair de sua boca. Davi defendeu sua jogada, e os dois passaram um minuto discutindo o valor de uma carta. Clara deixou que discutissem.
Na manhã seguinte, André telefonou cedo. Os investigadores haviam encontrado no escritório do sítio um painel de madeira recém-parafusado. Atrás dele havia cadernos de despesas, cópias de transferências e um gravador pequeno, guardado dentro de uma caixa de ferramentas. Os materiais seriam examinados antes de se tirar qualquer conclusão sobre o conteúdo.
"Se Osvaldo esteve lá, por que deixou tudo?", Clara perguntou.
"Talvez não soubesse onde estava. Ou não teve tempo de procurar. Ainda não sabemos."
Mais tarde, Teresa confirmou que Lívia costumava manter cópias fora do arquivo do instituto. Ela tinha medo de que os originais desaparecessem. Não sabia, porém, quem colocara os cadernos atrás do painel.
Clara passou o dia respondendo a perguntas sobre as assinaturas que reconhecia e as datas de que se lembrava. Para cada folha, distinguia o que vira pessoalmente do que Vicente lhe dissera. Descobriu como era fácil confundir essas duas coisas depois de tantos anos.
No fim da tarde, André pediu que ela fosse ao escritório.
Uma gravação havia sido copiada para análise. O aparelho fora encontrado junto dos cadernos, mas sua origem ainda precisava ser estabelecida. André deixou claro que Clara ouviria apenas um trecho já compartilhado com a equipe e que ninguém podia assegurar, naquele momento, que a gravação estava completa.
A voz de Lívia surgiu entre ruídos baixos.
"Hoje, dia doze, Vicente pediu para eu parar de procurar os comprovantes. Disse que Caio ficaria longe de mim até eu entender o que estava em jogo."
Clara fechou os olhos. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
Houve um estalo. Lívia continuou:
"Consegui uma cópia dos pagamentos. Amanhã vou encontrar uma pessoa que pode me ajudar. Se eu não chegar—"
O áudio parou.
"É só isso?", Clara perguntou.
"O arquivo continua, mas há um trecho danificado. A equipe está tentando recuperar o restante."
"Ela diz com quem ia se encontrar?"
"Não nesse trecho."
Clara recordou a carta, a visita à papelaria de Márcia e o acidente que, durante anos, lhe parecera uma fatalidade. A gravação não explicava o que acontecera na estrada. Mostrava, porém, que Lívia tentava buscar ajuda enquanto Vicente mantinha seu filho longe dela.
André guardou o aparelho.
"Há outra coisa. Encontraram na caixa uma folha com o horário e o endereço desse encontro."
Clara se inclinou.
O local anotado não era o escritório de um advogado nem a papelaria de Márcia.
Era a casa de Clara.
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