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"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 6

正文开头

A cadeira vazia

"O menino que vocês dizem proteger não aparece em nenhum relatório de atendimento", disse Clara. "Mas alguém recebeu por ele todos os meses."

Ninguém respondeu de imediato.

Os membros do conselho do Instituto Caminhos estavam sentados em torno de uma mesa comprida. Vicente ocupava a cabeceira. Havia pastas alinhadas diante dele, um copo d’água cheio e dois advogados que Clara não conhecia.

Clara chegou acompanhada de André. Não trouxera Caio nem Davi. Os dois estavam no hospital, longe daquela sala onde adultos discutiriam documentos produzidos enquanto um menino pedia ajuda sem ser ouvido.

A presidente do conselho, Renata Faria, pediu que Clara começasse pelo motivo da reunião. Ela se levantou e colocou diante dos presentes o relatório de inspeção dos abrigos.

"A obra foi declarada concluída e paga. Cinco dias depois, estas fotografias mostram que ainda não havia começado."

Vicente não olhou para as imagens.

"Os documentos foram entregues à investigação", disse. "O conselho não deve tentar substituí-la."

"Concordo", respondeu Clara. "Por isso pedi que todos os registros sejam preservados. Mas foi este conselho que bloqueou meu acesso enquanto manteve o seu."

Renata endireitou os óculos.

"O afastamento foi preventivo."

"E precisa valer igualmente para quem aprovou os pagamentos sob suspeita."

Vicente cruzou as mãos sobre a mesa.

"Você assinou parte deles."

"Assinei. Já entreguei minhas cópias e expliquei as circunstâncias. Quero que examinem minha responsabilidade também."

A resposta pareceu irritá-lo mais do que uma negação teria irritado. Ele esperara que Clara tentasse se defender a qualquer custo.

André distribuiu uma lista dos documentos solicitados à instituição: pedidos de compra, notas fiscais, comprovantes de entrega, contratos de manutenção e registros de quem aprovara cada despesa. Márcia e Teresa haviam concordado em falar com os investigadores; o engenheiro confirmara que fizera a inspeção.

Um dos conselheiros ergueu a mão.

"Vocês têm prova de que o dinheiro foi desviado?"

"Temos inconsistências que precisam de exame", André respondeu. "Não estamos pedindo que o conselho anuncie uma conclusão. Estamos pedindo que impeça qualquer alteração dos arquivos e suspenda acessos capazes de comprometê-los."

Vicente soltou um riso sem humor.

"Clara trouxe a vida privada da nossa família para dentro do instituto. Agora quer usar o conselho para vencer uma discussão conjugal."

Ela se virou para ele.

"Uma criança ferida estava morando numa propriedade sua. Isso não é uma discussão conjugal."

"A situação de Caio é dolorosa. Estou cooperando para esclarecê-la."

"Você sabia que o pulso dele estava machucado?"

Um dos advogados de Vicente interveio. Disse que questões sobre o estado de saúde de um menor não deveriam ser debatidas ali. Clara concordou. Já havia feito a pergunta que queria que o conselho ouvisse, e não exporia os detalhes médicos de Caio à mesa.

Renata pediu que todos voltassem aos registros financeiros.

Vicente abriu uma pasta. Mostrou contratos com a empresa fornecedora da reforma, ordens de serviço e recibos assinados. As páginas estavam numeradas e separadas por marcadores. Ele explicou que, numa obra dividida em etapas, pagamentos poderiam anteceder uma visita de inspeção; fotografias isoladas não demonstravam ausência de materiais.

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Depois apresentou uma planilha preparada para a reunião.

"Os valores saíram das contas previstas", disse. "Não há saque sem justificativa."

Clara reconheceu o efeito que aquilo produzia. Durante anos, Vicente vencera discussões assim: trazia uma pasta organizada, falava sem elevar a voz e deixava que a outra pessoa parecesse confusa.

Um conselheiro passou a planilha adiante.

"Isso precisa de uma análise independente."

"É o que peço desde o início", Vicente respondeu. "Clara escolheu vir aqui com pessoas que perderam seus empregos por falhas de controle."

Teresa saíra por vontade própria. Márcia também não fora demitida por desvio algum. Vicente conhecia essas diferenças e contava com o fato de ninguém à mesa conhecê-las.

Clara expôs as datas e os registros disponíveis, sem transformar as duas mulheres em assunto principal. Insistiu para que o conselho não julgasse a credibilidade delas por uma frase dita por Vicente, mas examinasse os documentos e permitisse que fossem ouvidas pelos investigadores.

A reunião se estendeu por quase duas horas. Renata propôs uma auditoria independente e a preservação imediata dos arquivos físicos e digitais. Vicente aceitou a auditoria com tanta rapidez que Clara desconfiou. Em seguida, sugeriu que ela permanecesse afastada até o fim da apuração, sem mencionar o próprio acesso.

"Você continua podendo autorizar despesas?", Clara perguntou.

"Há pagamentos que não podem esperar."

"Então outra pessoa pode autorizá-los durante a auditoria."

O rosto de Vicente ficou imóvel.

"Funcionários dependem desses pagamentos."

"E as crianças dependem de contas verificáveis", respondeu Renata, antes que Clara precisasse fazê-lo.

Vicente percebeu que não convenceria a presidente naquele ponto. Mudou de direção.

"Falta explicar por que Clara trouxe a esta sala despesas relativas a Caio", disse. "O sítio é meu. A manutenção dele é pessoal."

"Parte da manutenção pode ser", André respondeu. "É justamente por isso que pedimos os comprovantes de origem."

Vicente puxou outra folha da pasta. Era um resumo dos pagamentos feitos a Osvaldo com recursos próprios, segundo ele. Havia datas, valores e uma rubrica ao lado de cada mês.

"Pagava a um homem de confiança para ajudar o menino", afirmou. "Eu devia ter supervisionado melhor. Estou disposto a assumir essa falha."

Clara olhou para os valores. Caio escondera pão sob o travesseiro no hospital. Tivera o pulso quebrado sem atendimento. Vicente chamava aqueles depósitos de ajuda porque o dinheiro saíra de algum lugar; não se perguntava o que chegara às mãos do filho.

Ela poderia confrontá-lo com isso diante da mesa. Preferiu terminar o caminho que preparara.

"Existe outra despesa", disse.

André lhe passou uma cópia. Clara a colocou diante de Renata e esperou que os conselheiros a localizassem nos próprios papéis.

A linha trazia o código de um menor atendido pelo programa emergencial do instituto. Não havia nome, ficha de admissão, endereço de acolhimento nem registro de acompanhamento. A despesa aparecia todos os meses desde a época em que Caio fora levado ao sítio.

Vicente inclinou a cabeça para ler. Pela primeira vez, sua mão saiu de cima da pasta e ficou parada ao lado do copo.

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"Isso não tem relação com o meu filho", disse.

"Talvez não", respondeu Clara. "Então será simples verificar."

Ela apontou para o código.

"Quem autorizou o cadastro dessa criança?"

Vicente virou a página, como se procurasse uma resposta no verso. Um dos advogados aproximou-se e falou junto ao seu ouvido. Clara esperou.

"São milhares de atendimentos", Vicente disse. "Não guardo cada código na memória."

"Também não espero que guarde. Por isso pedi a ficha correspondente."

Renata consultou o secretário do conselho. Ele verificou a relação de documentos enviados naquela manhã. Não havia ficha.

"Pode estar em outro arquivo", sugeriu um conselheiro.

"Pode", Clara concordou. "Mas há pagamentos para Osvaldo vinculados à mesma rubrica em meses sucessivos. E ele era o homem que mantinha Caio no sítio."

Vicente se levantou.

"Agora você está tentando associar uma conta administrativa à vida de uma criança só porque conhece o caseiro."

"Não. Estou pedindo que você explique a associação que aparece nos registros."

Renata solicitou que ele permanecesse sentado. Vicente obedeceu, mas não tirou os olhos de Clara.

Ela se lembrou do aviso que recebera na noite anterior. Vicente telefonara pouco antes de Davi dormir. Dissera que, se ela levasse o caso ao conselho, o filho ouviria pessoas acusando o pai na escola. Clara respondera que Davi já sabia o bastante para ter medo de contar a verdade em casa.

Agora Vicente parecia apostar na mesma coisa: que ela recuaria para poupar Davi de mais exposição.

Clara recolheu a fotografia de Caio que mantinha dentro da pasta. Não a mostrou. O menino não precisava ter o rosto colocado naquela mesa para que sua existência fosse levada a sério.

"Vicente", disse ela, "o instituto registrou despesas de acolhimento para uma criança que ninguém aqui consegue identificar. Os pagamentos chegaram ao homem encarregado de Caio. Você presidia a instituição e pagava esse mesmo homem para mantê-lo no sítio."

Renata olhou do documento para Vicente.

"Precisamos da ficha e da autorização original", declarou.

Clara assentiu.

"E, antes que esta reunião termine, preciso fazer uma pergunta a ele."

Vicente apoiou as duas mãos na mesa.

"Faça."

Clara manteve a voz firme.

"Se Caio não era a criança desse cadastro, quem era? E, se era, por que um menino que o instituto dizia acolher passou todos aqueles meses trancado no seu sítio?"

Vicente abriu a boca.

Dessa vez, nenhum advogado respondeu por ele.

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