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"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 5

正文开头

Dez minutos para falar

A pessoa que Lívia procurara antes de morrer não era uma advogada. Era Márcia Lemos, antiga coordenadora de compras do Instituto Caminhos.

Clara soube disso dentro do carro de André, a caminho de uma pequena papelaria no bairro Floresta. Teresa enviara o endereço e pedira que não mencionassem seu nome ao entrar. Márcia não tinha certeza de que podia confiar em ninguém ligado à família Azevedo.

"Por que Lívia iria a uma coordenadora de compras?", Clara perguntou.

"Ela talvez precisasse confirmar quem solicitou os materiais", respondeu André. "Ou quem disse que os recebeu."

Márcia atendia no balcão quando chegaram. Devia ter pouco mais de cinquenta anos. Reconheceu Clara imediatamente, mas continuou organizando pacotes de papel até que a última cliente saísse.

"Você assinou as notas", disse, sem cumprimentá-la.

"Assinei."

"E agora quer saber quem fez isso?"

"Quero saber o que minha assinatura ajudou a esconder."

Márcia olhou para André. Ele explicou que as cópias obtidas de Teresa já haviam sido entregues para análise e que eles procuravam informações sobre a origem dos pedidos. Márcia pegou uma chave e fechou a porta da papelaria.

"Lívia veio aqui numa sexta-feira", começou. "Trouxe números de notas que não correspondiam a nenhuma entrega. Queria que eu confirmasse uma coisa."

"O quê?", perguntou Clara.

"Quem tinha acesso ao cadastro dos fornecedores."

Márcia abriu uma gaveta e tirou um caderno de capa dura. Nas páginas havia anotações de estoque, nomes de entregadores e datas. Não era um registro oficial. Era o controle que mantivera para resolver divergências entre pedidos e mercadorias recebidas.

"No ano em que saí, começaram a aparecer compras aprovadas diretamente pela presidência. Eu não recebia a solicitação, mas precisava confirmar a entrega depois."

"Você confirmou?", Clara perguntou.

"Nas duas primeiras, sim. Disseram que o material tinha ido direto para a obra. Quando pedi os comprovantes, recebi fotografias de pilhas de caixas. Não dava para ver o endereço."

Márcia virou algumas páginas. Em março, ao lado dos valores que Lívia anotara na carta, escrevera:

Não vi entrega. Cobrar Vicente.

"Depois disso, me recusaram acesso aos pedidos", continuou. "Lívia percebeu a mesma coisa nas contas. Ela marcou de voltar aqui com mais documentos, mas não voltou."

Clara leu o nome da empresa fornecedora. Já aparecera nas notas que encontrara em casa.

"Você tem algo que prove quem fez o cadastro?"

"Não. Mas lembro quem pediu que eu não mexesse nele: Osvaldo."

Clara ergueu os olhos.

"O caseiro?"

"Ele fazia serviços para Vicente. Naquela época aparecia no instituto como representante da empresa de manutenção."

André anotou a informação. Uma lembrança voltou a Clara: certa vez, Osvaldo estivera em sua sala com as botas sujas de terra e Vicente explicara que viera buscar uma chave do depósito. Ela nem sequer perguntara qual.

Márcia fechou o caderno.

"Não vou entregar o original para você."

"Não estou pedindo isso", disse Clara. "Peço que mostre aos investigadores."

正文1

Márcia observou-a por um longo momento.

"Fiquei esperando você ouvir Lívia. Ela dizia que, se conseguisse falar com você sem Vicente por perto, tudo ia mudar."

Clara aceitou a frase sem tentar se defender.

"Eu não ouvi. Por isso vim ouvir você."

Márcia concordou em prestar depoimento. André registrou seus dados de contato e combinou que ela levaria o caderno quando fosse chamada. Ao saírem, Clara notou um carro preto parado na esquina. O motorista arrancou antes que pudesse ver a placa inteira.

No hospital, Caio estava acordado e sentado diante de uma bandeja com arroz, feijão e frango. Havia comido metade do arroz. O restante do pão do café da manhã estava escondido sob o travesseiro.

Clara fingiu não ver.

Helena pediu para falar com ela no corredor. Os exames indicavam que o pulso de Caio sofrera uma fratura semanas antes e não recebera atendimento adequado. A médica explicara a ele o tratamento possível, sem prometer que uma única consulta resolveria tudo. Além disso, as marcas observadas tinham idades diferentes.

Clara perguntou se os registros poderiam ser preservados para a investigação. Helena confirmou que a documentação médica seria feita pelos procedimentos do hospital e orientou Clara a seguir as solicitações dos profissionais responsáveis pelo caso.

Quando voltou ao quarto, Caio encarava a porta.

"A doutora contou do meu braço?"

"Contou que você precisa de cuidados."

"Meu pai disse que ia chamar um médico."

Clara puxou uma cadeira, mas não se sentou antes de perguntar se ele queria sua companhia. Caio deu de ombros. Ela ficou.

"Quando você pediu?", perguntou.

"Na noite em que não consegui fechar a mão."

Caio falou olhando para a bandeja. Disse que Vicente fora ao sítio no domingo seguinte. Ele mostrara o pulso inchado e tentara explicar que Osvaldo o agarrara quando saíra da casa sem permissão.

"Ele viu?"

"Segurou meu braço para olhar."

"E depois?"

"Disse que falaria com Osvaldo. Eu esperei no quarto. Ouvi o carro indo embora."

Caio empurrou um grão de arroz com o garfo.

"No outro mês, trouxe uma camisa de manga comprida."

Clara sentiu vontade de sair do hospital e confrontar Vicente naquele instante. Em vez disso, perguntou se Caio estaria disposto a contar aquilo aos profissionais que o acompanhavam, quando se sentisse preparado. Ele levou um tempo para responder.

"Se eu contar, ele vai dizer que inventei."

"Pode ser que ele diga. Você ainda pode contar o que aconteceu."

Caio apontou para o próprio braço.

"Isso também fala?"

"Fala sobre o ferimento. E sua voz importa."

Mais tarde, Davi chegou com uma sacola de roupas limpas. Tinha escolhido duas camisetas para Caio e perguntado à enfermeira se podia trazer um jogo de cartas. Não tentou abraçar o irmão; colocou tudo ao alcance dele e esperou.

Clara recebeu uma ligação de André no corredor. Ele examinara, com a equipe que apurava as contas, os registros financeiros a que tinham acesso. Havia pagamentos mensais para uma empresa de manutenção ligada a Osvaldo. Algumas saídas coincidiam com verbas destinadas a serviços nos abrigos. Era uma pista séria, ainda dependente de comprovantes, contratos e identificação de quem controlava a conta.

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"Vicente está dizendo que Osvaldo recebia para cuidar do sítio", André explicou.

"Ele pode ter recebido pelas duas coisas?"

"É o que precisamos descobrir."

Clara abriu no celular a convocação do conselho. A reunião extraordinária aconteceria em dois dias. Vicente controlava a pauta e ela estava afastada dos registros, mas ainda podia comparecer para responder às acusações feitas contra sua conduta.

Pediu a André que reunisse, em ordem, o relatório de inspeção, o caderno de Márcia e as informações sobre os pagamentos. Queria que os membros do conselho soubessem exatamente quais documentos deveriam preservar e entregar à investigação.

"Se formos só para acusá-lo, ele vai chamar tudo de briga de família", André advertiu.

"Então vamos levar perguntas que as contas precisam responder."

Naquela noite, Clara voltou a casa apenas para pegar roupas para Davi. Encontrou sobre a mesa de jantar uma fotografia antiga dos três, tirada num aniversário. Vicente a deixara ali ao lado de um bilhete.

Ainda podemos proteger Davi disso.

Clara dobrou o bilhete e o guardou. No verso da fotografia, alguém escrevera a data. Ela se lembrou de que, naquele mesmo ano, Lívia fora enterrada e Caio desaparecera da vista de todos.

No dia seguinte, Clara entregou a André as cópias que guardara em casa e assinou a autorização necessária para que fossem analisadas. Depois procurou os responsáveis pelos dois abrigos. Não pediu que repetissem a história diante dela. Perguntou apenas quem havia acompanhado as supostas obras e indicou como poderiam falar diretamente com os investigadores.

Ao fim da tarde, André lhe mostrou uma tabela simples: datas das doações, pagamentos declarados pela reforma, transferências de manutenção e visitas registradas de Osvaldo. Ainda havia lacunas. Uma, porém, chamava a atenção.

Nos meses em que Caio dizia ter ficado no sítio, o instituto lançara uma despesa chamada

acolhimento emergencial de menor

.

Não constava nome de criança no documento que André obtivera. Havia apenas um código.

Clara releu a primeira data.

Era o mês seguinte à morte de Lívia.

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