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"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 4

正文开头

A cópia de Lívia

Clara ligou para o número desconhecido. A chamada foi recusada.

Uma segunda mensagem apareceu.

Não telefone. Ele está no corredor.

Clara olhou para a fotografia da caixa de arquivos. No canto da mesa havia um crachá virado para baixo e a borda de uma caneca azul. Tentou reconhecer o lugar, mas a imagem mostrava pouco mais do que as pastas.

Quem é você?

, escreveu.

A resposta demorou.

Trabalhei com Lívia. Se quiser a inspeção, venha sozinha à portaria de serviço do abrigo da Rua dos Tupinambás. Não entre pela frente.

Clara enviou a conversa e a fotografia para André. Em seguida, avisou que iria ao endereço e pediu que ele a encontrasse nas proximidades. Não pretendia levar Vicente até aquela pessoa, mas também não a deixaria enfrentar a situação sem ajuda.

Ao descer a escada, ouviu a porta da garagem. O carro de Vicente ainda não havia voltado. Ela pegou a própria chave e saiu.

O abrigo ficava numa rua estreita do centro de Belo Horizonte. Clara estivera ali muitas vezes, quase sempre para inaugurações e visitas anunciadas. Pela entrada principal, conhecia a sala de brinquedos pintada de amarelo, o mural de desenhos e a placa com o nome do instituto. Pela portaria de serviço, viu o portão enferrujado e uma rampa por onde chegavam sacos de arroz, caixas de leite e produtos de limpeza.

Uma mulher de cabelos grisalhos aguardava perto da lixeira, com uma bolsa de pano presa ao peito.

"Teresa?"

Teresa Campos havia cuidado do arquivo do instituto durante onze anos. Saíra pouco depois da morte de Lívia. Clara se lembrava de ter assinado sua rescisão, sem perguntar por que ela pedira demissão.

"Você veio mesmo", Teresa disse.

"Vicente esteve aqui?"

"Está lá dentro. Pediu todas as caixas de março." Ela examinou o carro estacionado do outro lado da rua. "Achei que você chegaria antes."

"Ele sabe que falou comigo?"

"Se soubesse, eu já não estaria aqui."

Teresa tirou um envelope pardo da bolsa. Dentro havia uma cópia do relatório de inspeção dos dois abrigos e fotografias feitas durante a visita. Clara reconheceu a data: cinco dias depois da suposta entrega dos materiais.

As fotos mostravam goteiras, janelas sem vidro e um banheiro interditado. Nenhum dos revestimentos ou equipamentos cobrados nas notas aparecia ali. No relatório, o responsável técnico registrara que a reforma ainda não havia começado.

"Lívia me pediu para guardar isso", explicou Teresa. "O relatório original sumiu do arquivo na semana em que ela foi acusada."

"Por que não entregou antes?"

Teresa apertou a alça da bolsa.

"Eu tentei falar com o advogado dela. Antes que conseguisse, Lívia morreu. Depois, Vicente disse que quem ajudasse a espalhar a acusação perderia o emprego. Eu tinha uma filha pequena."

Clara não tinha direito de exigir coragem de Teresa. Baixou os olhos para as fotografias.

"Quem mais viu o relatório?"

"O engenheiro que fez a visita. Não sei se ainda trabalha na cidade."

正文1

Um portão bateu no pátio. Teresa se encolheu.

André apareceu na esquina e parou a poucos passos delas. Clara apresentou os dois. Ele fotografou o envelope nas mãos de Teresa e anotou quando e como ela havia recebido as cópias. Teresa concordou em falar com os investigadores, mas pediu que fosse num lugar longe do instituto.

Então a porta de serviço se abriu.

Vicente saiu acompanhado por um funcionário, carregando uma caixa de arquivo. Viu Clara, Teresa e André juntos. Seu passo diminuiu, mas não parou.

"Eu podia ter trazido os documentos para você", disse ele.

Clara manteve o envelope junto ao corpo.

"Teresa já trouxe o que eu procurava."

O olhar de Vicente passou pela ex-funcionária.

"Você sabe que documentos internos não devem circular sem controle."

"E você sabe que a reforma não tinha começado quando o instituto pagou por ela", respondeu Clara.

O funcionário ao lado dele olhou de um para o outro. Vicente percebeu e mudou o tom.

"Podemos conferir tudo numa reunião, com os responsáveis presentes."

"Ótimo. Guarde essa caixa inteira."

André se adiantou.

"Também vou pedir a preservação formal dos arquivos e dos registros eletrônicos."

Vicente não discutiu. Colocou a caixa de volta nas mãos do funcionário e apontou para a portaria. Esperou que o homem entrasse antes de se aproximar.

"Você está ouvindo pessoas que odiavam Lívia", disse a Clara.

"Teresa trouxe fotografias."

"Fotografias de uma obra em andamento."

Clara ergueu uma das páginas.

"Tiradas cinco dias depois de você declarar a obra concluída."

Pela primeira vez desde a festa, Vicente pareceu não encontrar uma resposta imediata. Olhou para o papel, depois para o rosto dela.

"Vamos conversar em casa."

"Não vou discutir isso a sós com você."

Ele recuou um passo. Clara viu a raiva antes que o sorriso voltasse.

"Nesse caso, nos vemos no instituto."

Naquela tarde, Teresa prestou seu primeiro relato aos investigadores. André entregou as cópias para que fossem comparadas com os arquivos oficiais. O engenheiro responsável pela inspeção foi localizado, mas estava viajando e só poderia falar no dia seguinte.

Clara voltou ao hospital ao anoitecer.

Caio dormia. Uma faixa protegia seu pulso esquerdo, e a comida servida no jantar continuava quase intocada. Davi estava sentado ao lado da cama, lendo em voz baixa as regras de um jogo de cartas que levara de casa.

Quando Clara entrou, ele fechou o folheto.

"Encontrou o que precisava?"

"Encontrei uma pessoa que conheceu a mãe do Caio. Ela guardou documentos."

Davi olhou para o irmão adormecido.

"Então agora ele pode ficar aqui?"

"Por enquanto, ele está seguro no hospital. Ainda há decisões que outras pessoas precisam tomar."

Ela poderia prometer mais para aliviar a expressão do filho. Não prometeu.

Na manhã seguinte, o engenheiro confirmou a visita aos abrigos. Reconheceu a assinatura no relatório e disse que ainda possuía fotografias no computador antigo da empresa. Concordou em fornecê-las aos investigadores.

Clara acreditou que, enfim, teria espaço para examinar as contas do instituto. Às onze horas, recebeu uma convocação para uma reunião extraordinária do conselho administrativo.

O comunicado foi curto: até que se apurassem as denúncias públicas surgidas após o evento, Clara deveria se afastar temporariamente de qualquer acesso aos registros financeiros.

O e-mail chegou enquanto ela ainda estava no hospital. Poucos minutos depois, sua senha do sistema deixou de funcionar.

Clara mostrou a tela a André.

"Vicente chegou primeiro."

"Ele conseguiu uma medida interna", André respondeu. "Ainda podemos pedir os registros pelos caminhos formais."

O telefone tocou antes que Clara guardasse o aparelho. Era Teresa.

"Acabei de falar com a pessoa que recebeu os documentos de Lívia antes do acidente", disse, ofegante. "Ela aceitou encontrar você."

"Onde?"

Teresa hesitou.

"Vicente também descobriu o nome dela."

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