"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 3
Os pagamentos de março
Clara passou a noite sentada numa cadeira de hospital com a fotografia entre as mãos.
Do outro lado do corredor, Davi dormia encolhido em duas poltronas. Caio ocupava um quarto próximo ao posto de enfermagem. Antes de aceitar fechar os olhos, perguntara três vezes se Osvaldo sabia onde ele estava.
Clara lhe dera a única resposta que podia garantir: Osvaldo não entraria ali sem que a equipe soubesse.
A carta de Lívia estava sobre a mesa. Clara esperara André chegar para abri-la, com a concordância de Caio. O menino dissera que a mãe havia lhe pedido para guardá-la e entregá-la à pessoa cujo nome estava escrito na frente. Não sabia o que havia dentro.
A carta tinha quatro páginas. Lívia não pedira que Clara acreditasse em tudo sem verificar. Anotara datas, nomes de prestadores de serviço e números de pagamentos do Instituto Caminhos. Em março, dinheiro reservado à reforma de dois abrigos fora transferido para uma empresa que fornecia material de construção. Parte das notas tinha sido aprovada por Vicente; outra parte trazia a assinatura de Clara.
Ela se lembrava do mês. Havia saído da administração diária do instituto porque Davi adoecera e precisava de cuidados. Vicente levara algumas pastas à sua casa, pedindo assinaturas para não atrasar as obras. Clara conferira os totais e confiara nele quanto aos anexos.
Lívia escrevera que os materiais não haviam chegado aos abrigos. Ao questionar as notas, fora acusada de alterar os registros.
No fim da terceira página, havia uma frase para Clara:
Eu tentei falar com você naquela terça-feira. Vicente disse que tinha mostrado os documentos e que você concordava com ele. Não sei se isso é verdade. Espero que não seja.
Clara se levantou tão depressa que a cadeira bateu na parede.
Naquela terça-feira, Lívia realmente telefonara. Clara recordava a ligação porque a amiga estava chorando e pedira dez minutos para explicar as contas. Vicente dissera que ela tentava esconder um desvio. Clara respondera que o assunto deveria ser tratado pelo advogado do instituto.
Nunca lhe concedera os dez minutos.
André leu as páginas e colocou a carta de volta no envelope.
"Isso indica onde procurar. Ainda precisamos dos documentos e de pessoas que possam confirmar as entregas."
"Eu sei."
"Você guardou alguma cópia daquele período?"
Clara pensou no armário de casa onde deixara antigas pastas fiscais. Vicente costumava dizer que ela acumulava papel inútil. Talvez tivesse razão em muitos casos. Naquele, ela torcia para que não.
Esperou o dia clarear antes de sair do hospital. Helena já havia registrado as lesões observadas, e Caio continuaria sob cuidados médicos. André providenciou para que Clara recebesse as orientações necessárias antes de voltar a vê-lo.
Davi acordou quando ela pegava a bolsa.
"Você vai falar com o papai?"
"Vou buscar documentos primeiro."
"Ele disse que a mãe do Caio roubou."
Clara se sentou diante do filho.
"Eu também acreditei nisso. Agora vou conferir o que realmente aconteceu."
Davi olhou para a porta do quarto de Caio.
"Se ela não roubou, por que você não ajudou?"
Clara poderia dizer que Vicente havia mentido muito bem. Poderia lembrar que Davi era pequeno e não conhecia a época. Nenhuma das respostas mudaria o fato de que Lívia pedira para ser ouvida.
"Porque eu não escutei quando ela tentou me contar", respondeu.
Davi ficou em silêncio. Clara não pediu que a perdoasse.
Na casa da família, encontrou Vicente na cozinha, de camisa social e mangas dobradas, diante de uma xícara de café intocada.
"Falei com André", ele disse. "Parece que a história vai ficar maior do que você imagina."
"Imagino o suficiente para procurar as contas."
Vicente apoiou a xícara no balcão.
"Lívia sempre soube montar uma boa acusação."
"Ela anotou números de pagamentos."
"Os mesmos números que usou para desviar dinheiro."
Clara passou por ele em direção ao escritório. Vicente segurou a porta antes que ela entrasse.
"Caio é meu filho. Eu devia ter contado. Errei com você e com ele. Mas isso não torna Lívia inocente."
"Então me mostre os comprovantes da reforma."
"Estão no arquivo do instituto."
"Quero os meus."
Ele afastou a mão da porta. Clara entrou e trancou-a por dentro.
Levou quase uma hora para localizar a pasta de março. Havia cópias de notas, extratos e um relatório assinado por ela. À primeira vista, os valores batiam. Quando comparou as datas com as anotações de Lívia, encontrou algo que a fizera parar: a empresa cobrara pela entrega dos materiais duas semanas antes de receber o pedido.
Talvez fosse um erro administrativo. Clara colocou a página ao lado das outras e continuou.
Em outro documento, a assinatura de Lívia aparecia abaixo da confirmação de recebimento. Clara se lembrava de como ela assinava o sobrenome, com uma curva longa no final. Ali, o traço era curto e duro.
Fotografou cada folha na ordem em que estava e ligou para André. Ele pediu que preservasse a pasta inteira, sem escrever nela nem retirar páginas. Também sugeriu que identificassem quem trabalhara nos abrigos naquele mês.
"Há uma cópia do relatório de inspeção?", perguntou.
Clara procurou no índice. A folha constava da lista, mas não estava na pasta.
"Não."
Encontrou apenas os dois grampos vazios que a haviam prendido.
Quando saiu do escritório, Vicente já não estava na cozinha. Seu carro também desaparecera da garagem.
O telefone de Clara recebeu uma mensagem de um número desconhecido. Havia uma fotografia: uma caixa de arquivo aberta sobre uma mesa. Dentro dela, várias pastas traziam a marca do Instituto Caminhos.
A mensagem dizia:
Lívia me deixou a cópia da inspeção. Vicente acabou de perguntar por ela.
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