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"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 2

正文开头

A porta de baixo

Clara abriu a porta antes que Vicente chegasse ao elevador.

"Quem está indo ao sítio?"

Ele afastou o celular da orelha.

"Osvaldo. Para ver se está tudo em ordem."

"Em que ordem? Você acabou de dizer que a casa estava vazia."

Vicente guardou o aparelho no bolso. Dois convidados passaram pelo corredor, e ele esperou que entrassem no salão.

"Clara, não faça isso na frente das pessoas."

"Responda."

"Caio ficou lá por um tempo. A mãe dele morreu e eu ajudei como pude."

Ela sentiu o peso das palavras, mas não permitiu que ele encerrasse a conversa com elas.

"Você é o pai dele?"

Vicente não respondeu.

Atrás de Clara, Davi apareceu à porta da sala.

"Ele sabe que é."

Vicente olhou para o filho com uma irritação que já não fazia esforço para disfarçar.

"Volte para dentro."

"Não fale com ele assim", disse Clara.

O marido abriu a boca, desistiu e caminhou na direção do elevador. Clara não foi atrás. Se o seguisse, deixaria os meninos sozinhos e daria a Vicente tempo para dirigir a história. Voltou à sala e ligou outra vez para o advogado.

"Vicente mandou o caseiro ao sítio", informou. "Preciso que você repasse o endereço à polícia. É possível que existam provas lá."

Caio ouviu a palavra

caseiro

e deixou um pão cair.

"Osvaldo vai procurar minha mãe."

"Sua mãe morreu", disse Davi, baixinho.

"Eu sei." Caio olhou para Clara. "Ele procura as coisas dela quando fica bravo."

Clara se ajoelhou a uma distância que não o obrigasse a recuar.

"Quais coisas?"

Caio passou a mão pelo bolso da calça e não respondeu.

Davi pediu para contar primeiro. Clara assentiu.

Três meses antes, Vicente levara o filho ao sítio para buscar uma pasta no escritório. Davi saíra do carro para procurar o banheiro e ouvira batidas vindas da parte inferior da casa. Encontrara uma porta com um cadeado velho. Quando perguntou se havia alguém ali, uma voz mandou que fosse embora antes que Osvaldo voltasse.

Na segunda visita, Davi levou um sanduíche. Não conseguira abrir a porta, então empurrou a comida por uma janela estreita, próxima ao chão. Foi assim que soube o nome de Caio.

"Por que não me contou naquela época?", perguntou Clara.

Davi ficou vermelho.

"Eu ia contar. O papai me pegou voltando da janela."

Vicente explicara que Caio era seu filho, nascido antes do casamento com Clara. Disse que Osvaldo cuidava dele porque a situação era complicada e prometeu tirá-lo dali. Depois avisou a Davi que, se falasse com alguém, Caio perderia até aquele lugar.

"Eu pensei que podia levar comida enquanto o papai arrumava tudo", Davi confessou. "Mas o Caio continuou lá."

Nas semanas seguintes, inventou treinos de futebol perto de Lagoa Santa para conseguir caronas. Pedia ao motorista que o deixasse no portão do clube e dizia que entraria sozinho. Caminhava até o sítio por uma estrada de terra e deixava comida na janela.

正文1

Clara lembrava dos potes vazios na mochila. Uma vez brigara com Davi porque ele levara frutas demais da cozinha e não comera nenhuma.

Naquela manhã, ele chegara ao sítio e encontrara a porta do andar inferior aberta. Caio tinha fugido. Havia um sapato no chão e manchas escuras perto do colchão. Davi ligou para o número que o irmão lhe fizera decorar. Caio atendera de um telefone antigo, já na cidade, e dissera que tentaria chegar ao evento.

"Ele sabia que o papai estaria aqui por causa dos cartazes", Davi explicou. "Eu fui procurar ele na entrada. Os seguranças tinham mandado ele embora."

Caio puxou a manga sobre o pulso quando Helena voltou a examiná-lo. A médica ouviu com cuidado, fez poucas perguntas e disse a Clara que chamaria uma ambulância. O garoto estava fraco demais para atravessar a cidade sem acompanhamento.

"Eu não volto para lá", Caio falou.

"Você não vai voltar esta noite", Clara respondeu.

Ele a encarou como se tentasse decidir quanto valia aquela promessa.

O advogado chegou antes da ambulância. Chamava-se André e conhecia Clara havia muitos anos, mas manteve a voz calma e formal diante dos meninos. Explicou que os profissionais responsáveis precisariam ouvir Caio e documentar seus ferimentos; ninguém deveria pressioná-lo a repetir tudo para cada adulto que entrasse na sala.

Clara concordou. Também pediu que o hotel guardasse as imagens das entradas e dos corredores. Quando os policiais chegaram, informou o nome de Osvaldo, o endereço do sítio e a ligação que ouvira Vicente fazer. Não afirmou ter visto o que havia dentro da casa. Disse exatamente o que sabia.

Vicente reapareceu quando os paramédicos preparavam Caio para sair.

"Estou tentando proteger minha família", disse a Clara.

"Qual parte dela?"

Ele lançou um olhar rápido para os dois meninos. Davi se aproximou da maca.

"Eu vou junto com o Caio."

Clara pediu a Helena que os acompanhasse enquanto ela terminava de prestar as informações. Caio segurava o bolso da calça com tanta força que os nós dos dedos tinham perdido a cor.

No hospital, já longe de Vicente, ele finalmente retirou de lá um pequeno envelope plástico. Dentro havia uma carta dobrada e a fotografia de uma mulher sorrindo ao lado de um menino bem menor.

"Minha mãe disse para entregar isso à Clara Azevedo", falou.

Clara reconheceu a mulher antes de tocar na fotografia.

"Lívia?"

Caio confirmou com a cabeça.

"Ela disse que você ia entender."

Clara não entendia. Havia anos que não via Lívia Nogueira. A última notícia que recebera dela fora uma acusação de roubo feita por Vicente.

No verso da foto, escrito com a letra que Clara ainda conhecia, havia apenas uma frase:

Se ele disser que fui eu, olhe os pagamentos de março.

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