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"O Menino Que Meu Marido Mandou Esconder" Capítulo 1

正文开头

O menino à mesa

"Se toda criança merece um lugar seguro para dormir", perguntou Davi, "onde o Caio vai dormir hoje, pai?"

A voz do menino atravessou o salão antes que o leiloeiro pudesse anunciar o próximo lance.

Clara Azevedo virou a cabeça. Seu filho estava ao lado da mesa principal, ainda com a gravata torta que ela havia ajeitado duas vezes naquela noite. Segurava a mão de um garoto mais alto e muito mais magro. O garoto usava uma camiseta manchada, tinha poeira nas pernas e mantinha o braço esquerdo apertado contra o corpo.

Atrás deles, o painel do Instituto Caminhos exibia a frase:

Toda criança merece proteção.

Vicente desceu os dois degraus do palco com um sorriso que Clara conhecia bem. Era o mesmo que usava quando um convidado fazia uma pergunta inconveniente diante das câmeras.

"Davi, vamos conversar lá fora."

"Ele está com fome", respondeu o filho. "Eu falei que podia comer comigo."

O garoto desconhecido olhava para a travessa de pães sobre a mesa. Quando um garçom se aproximou para recolher um copo, ele deu um passo para trás tão rápido que esbarrou em Davi.

Clara alcançou os dois.

"Qual é o seu nome?"

O garoto abriu a boca, mas examinou o rosto de Vicente antes de responder.

"Caio."

Vicente chegou ao lado deles.

"Clara, os seguranças vão cuidar disso. Ele deve ter entrado pela área de serviço."

Davi apertou a mão de Caio.

"Ele não entrou sozinho. Fui buscar ele."

Algumas pessoas já filmavam. Clara baixou a voz.

"Davi, você conhece esse menino?"

"Conheço faz quase três meses."

Vicente pousou a mão no ombro do filho. Davi se esquivou.

"Você prometeu que não ia falar", disse Vicente.

Foi a primeira coisa que tirou de Clara qualquer vontade de aceitar uma explicação fácil. Seu marido não havia perguntado quem era o garoto. Sabia que Davi o conhecia e sabia de uma promessa.

Caio tentou soltar a mão do irmão mais novo.

"Eu posso ir embora."

"Não", disse Davi.

O leiloeiro convidou os presentes a voltarem aos seus lugares. Ninguém se moveu. Vicente fez um sinal discreto para o chefe da segurança.

Clara se colocou entre Caio e os homens que se aproximavam.

"Traga água e alguma coisa para ele comer", pediu ao garçom. "E avise à doutora Helena que preciso dela na sala reservada."

Helena era pediatra e estava entre os convidados. Clara a vira chegar uma hora antes com o marido.

"Você está transformando isso num espetáculo", murmurou Vicente.

"Então peça a todos que guardem os celulares."

Ele sustentou o olhar dela por um segundo. Depois se afastou para falar com os seguranças.

Clara levou os meninos à sala ao lado do salão. Davi puxou uma cadeira para Caio, mas ele não se sentou até Clara dizer que podia. Recebeu um pão das mãos do garçom e o colocou inteiro na boca, como se alguém fosse tirá-lo antes da segunda mordida.

正文1

"Devagar", Davi falou. "Tem mais."

Caio baixou os olhos para a cesta. Pegou outro pão e o escondeu sob a própria perna.

Clara viu. Também viu quando a manga larga da camiseta subiu e revelou uma faixa roxa perto do pulso.

"Caio, alguém machucou você?"

"Eu caí."

A resposta veio depressa demais.

Helena entrou, apresentou-se ao garoto e perguntou se ele aceitava ser examinado. Caio olhou para Davi. Só depois de receber um aceno deixou que a médica se aproximasse.

Quando Helena levantou a mão para observar o corte em sua bochecha, Caio ergueu o braço direito diante do rosto.

Ninguém falou por alguns segundos.

Helena abaixou a mão imediatamente.

"Eu vou dizer o que pretendo fazer antes de tocar em você, está bem?"

Caio assentiu sem olhar para ela.

Clara puxou Davi para perto da janela enquanto a médica examinava o garoto.

"Preciso que você me conte a verdade. Desde o começo."

Davi olhou para a porta fechada.

"O papai disse que, se eu contasse, mandaria o Caio para um lugar pior."

"Mandaria de onde?"

"Da casa perto da lagoa."

Clara conhecia a propriedade em Lagoa Santa. Vicente dizia que estava vazia havia anos, desde a morte de sua mãe. Ainda pagavam impostos e manutenção porque ele não decidira o que fazer com ela.

"O Caio mora lá?"

Davi esfregou as mãos uma na outra.

"Morava."

Antes que Clara pudesse perguntar mais, Helena chamou seu nome. A médica não deu um diagnóstico diante dos meninos. Disse apenas que Caio precisava de atendimento hospitalar naquela noite, inclusive para avaliar o pulso, e que ela registraria o que havia observado.

Clara pegou o celular. Primeiro chamou seu advogado, explicando em poucas frases que havia uma criança ferida e que precisava preservar o relato dos meninos. Em seguida, telefonou para a polícia. Não queria que Vicente escolhesse sozinho o que aconteceria com Caio.

Do outro lado da sala, Davi encontrou uma garrafa de água e tirou a tampa antes de entregá-la ao irmão.

Clara ainda tentava se acostumar àquela palavra quando Vicente entrou.

"Acabei de falar com um conhecido da família", anunciou. "Podemos resolver a situação sem assustar os meninos."

"Eu já pedi ajuda", respondeu Clara.

O rosto dele endureceu. Durou apenas um instante, mas ela viu.

"Você não sabe no que está se metendo."

"Então explique."

Vicente olhou para Caio. O garoto tinha os dois pães nas mãos e não tocava em nenhum deles.

"Ele não deveria estar aqui."

Davi se levantou da cadeira.

"Mas está."

O celular de Vicente vibrou. Ele leu a mensagem e se virou para sair, sem perceber que Clara acompanhava seus movimentos.

Ela ouviu quando falou ao telefone, já no corredor:

"Vá ao sítio agora. Antes que encontrem o quarto."

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