"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 5
O Nome da Minha Mãe
Helena passou quase duas horas olhando para o sobrenome na tela.
Duarte.
Não Valença.
Não Albuquerque.
Duarte.
A reunião do conselho já havia terminado, os diretores tinham sido dispersados e os advogados do Grupo Valença estavam proibidos de tocar nos computadores usados naquela apresentação.
Mesmo assim, Helena não conseguia sair daquela linha.
Gabriel estava ao lado da janela da sala menor para onde Lívia a levara depois da reunião.
"Pode ser coincidência."
Helena não respondeu.
"Helena."
Ela ampliou o registro bancário outra vez.
"Não é."
Lívia estava sentada diante de outro notebook, comparando números.
"O nome completo ainda está mascarado em parte."
"Eu sei."
"Então não tira conclusão antes da hora."
Helena soltou o ar lentamente.
"Eu passei dezoito meses seguindo essas contas."
"Justamente por isso."
Lívia levantou os olhos.
"Você sabe que coincidência também existe."
Helena virou a tela.
"CPF iniciado pelos mesmos seis números de alguém que nasceu na mesma região da minha mãe."
Gabriel franziu a testa.
"Você sabe o CPF dela de cabeça?"
"Sei."
"Por quê?"
Helena o olhou.
"Sou contadora."
Ele preferiu não insistir.
Lívia terminou de digitar uma solicitação.
"Acabei de pedir o detalhamento do beneficiário."
"Quanto tempo?"
"Se o banco cooperar, minutos."
Helena ficou em silêncio.
A perna latejava dentro da imobilização.
O braço ainda doía por causa do acesso arrancado por Vitória.
Mas nada parecia tão desconfortável quanto aquela espera.
Gabriel aproximou-se.
"Se for alguém da sua família, isso não significa que sua família estava envolvida."
Helena ergueu os olhos.
"Você está falando por experiência própria?"
Ele sentiu o golpe.
"Talvez."
Helena desviou o rosto.
"Desculpa."
"Não precisa."
"Precisa, sim."
Ela passou a mão pela testa.
"Eu só estou cansada."
Gabriel assentiu.
"Eu também estaria."
O celular de Lívia vibrou.
As três pessoas olharam para ela.
A promotora abriu a mensagem.
Seu rosto mudou.
Helena percebeu antes mesmo de ouvir.
"É ela."
Lívia não perguntou quem.
Apenas girou o notebook.
Na tela aparecia o nome completo associado ao cadastro antigo.
Teresa Aparecida Duarte.
Helena ficou imóvel.
Gabriel olhou para ela.
"É sua mãe?"
Helena assentiu.
A garganta pareceu fechar.
"Sim."
O registro mostrava uma conta encerrada havia mais de vinte anos.
Mas o nome permanecera vinculado a uma sociedade antiga que, décadas depois, reaparecera dentro da cadeia de transferências ligada ao Grupo Valença.
Lívia passou para a página seguinte.
"A conta não recebeu os R$ 210 milhões."
Helena respirou.
"Eu sei."
"Ela está aparecendo como beneficiária histórica de uma estrutura jurídica antiga."
"Qual?"
Lívia apontou.
"Fundo Aurora de Participações."
Helena sentiu um choque.
"Esse nome já apareceu."
"Três vezes."
"Como empresa intermediária."
"Exato."
Gabriel se aproximou.
"Então a mãe dela era sócia?"
"Não necessariamente."
Helena analisou a tela.
"Pode ser procuração, conta de custódia, fundo fechado, participação temporária."
Lívia assentiu.
"Ou alguém usou o nome dela."
Helena fechou o notebook.
"Eu vou falar com ela."
Gabriel respondeu imediatamente.
"Eu vou com você."
"Não."
"Helena."
"Gabriel, não."
"Por quê?"
"Porque isso é minha família."
Ele respirou fundo.
"E a minha família quase matou você."
Helena o encarou.
"Justamente."
Silêncio.
Lívia interrompeu.
"Você não vai sozinha."
Helena olhou para ela.
"Eu não estou pedindo autorização."
"Nem eu estou oferecendo."
"Minha mãe não é suspeita."
"Ainda não sabemos o que ela é."
A frase doeu.
Helena endureceu o olhar.
Lívia percebeu.
"Eu não quis dizer desse jeito."
"Mas disse."
"Quis dizer que ainda não sabemos como o nome dela entrou nisso."
Helena respirou lentamente.
"Eu vou falar com ela antes de qualquer interrogatório."
Lívia pensou.
"Dez minutos."
"Quinze."
"Doze."
Helena quase sorriu.
"Fechado."
Teresa Duarte morava no mesmo apartamento havia vinte e seis anos.
Um prédio simples na Vila Matilde, com portão de ferro, vasos de espada-de-são-jorge na entrada e um elevador que fazia barulho em todos os andares.
Helena conhecia cada rachadura daquela parede.
Quando era criança, acreditava que o corredor do terceiro andar era enorme.
Agora parecia pequeno.
Lívia ficou esperando no carro.
Dois agentes permaneceram na rua.
Helena subiu sozinha.
A cadeira de rodas precisou entrar de lado no elevador.
Quando a porta do apartamento se abriu, Teresa ficou branca.
"Meu Deus."
Helena percebeu que a mãe olhava primeiro para a perna.
Depois para os hematomas.
Depois para o curativo.
"Você devia estar no hospital."
"Recebi alta parcial."
"Você não devia estar aqui."
"Eu precisava falar com você."
Teresa segurou o batente.
"Entrou alguma infecção?"
"Não."
"Está com dor?"
"Estou."
"Então senta."
Helena olhou para a cadeira.
Teresa percebeu.
"Desculpa."
Ela colocou a mão sobre a boca.
"Desculpa, filha."
Helena entrou.
O cheiro era o mesmo de sempre.
Café.
Sabão em pó.
Um pouco de canela.
Teresa fechou a porta.
"Eu estava indo te ver."
"Eu sei."
"Separei roupa."
"Depois."
"Você comeu?"
"Mãe."
Teresa parou.
Helena viu o medo.
Ainda não sabia se era medo pela filha.
Ou de alguma coisa que ela mesma escondia.
"Você já trabalhou no Grupo Valença?"
Teresa ficou imóvel.
Não foi uma reação de surpresa.
Foi pior.
Reconhecimento.
Helena sentiu o estômago afundar.
"Então trabalhou."
Teresa desviou os olhos.
"Quem te falou isso?"
"Responde."
"Helena."
"Responde."
Teresa caminhou lentamente até a sala.
Sentou no sofá.
Helena posicionou a cadeira diante dela.
"Você me disse que trabalhou em escritório de contabilidade."
"Eu trabalhei."
"Qual escritório?"
Teresa ficou em silêncio.
"Mãe."
"Era dentro do grupo."
Helena fechou os olhos por um segundo.
"Durante quanto tempo?"
"Quase quatro anos."
"Quando?"
"Antes de você nascer."
Helena sentiu raiva subir.
"Você nunca me contou."
"Não tinha por que contar."
"Não tinha?"
"Foi muito tempo atrás."
"Meu nome apareceu numa investigação de R$ 210 milhões."
Teresa levantou a cabeça de repente.
"O quê?"
"Seu nome."
"Meu?"
"Teresa Aparecida Duarte."
A cor saiu do rosto da mulher.
Helena viu.
Não era surpresa.
Era pavor.
"Você sabia."
"Não."
"Você sabia que seu nome podia aparecer."
"Eu não sabia disso."
"Então por que ficou assim?"
Teresa levantou-se.
"Porque você acabou de dizer que meu nome está ligado a duzentos milhões de reais."
"Não foge."
"Eu não estou fugindo."
"Está desde que eu entrei."
Teresa foi até a cozinha.
Helena a seguiu com a cadeira.
"Mãe."
"Eu preciso de água."
"Você precisa me contar a verdade."
Teresa pegou um copo.
A mão tremia.
Helena percebeu.
"Em que setor você trabalhava?"
Teresa não respondeu.
Helena aproximou a cadeira.
"Em que setor?"
A mãe colocou o copo na pia.
"Previdência."
Helena sentiu um frio atravessar as costas.
"Repete."
"Eu trabalhava na área de previdência do Grupo Valença."
O silêncio tomou a cozinha.
O relógio na parede marcava os segundos.
Helena encarava a mulher que conhecia desde sempre.
Ou pensava conhecer.
"Fazendo o quê?"
"Auditoria interna."
"Você era auditora?"
"Assistente no começo."
Teresa passou a mão pelos cabelos.
"Depois virei analista."
"Você revisava fundos?"
"Sim."
"Movimentações?"
"Sim."
"Contas de custódia?"
"Sim."
Helena quase perdeu a voz.
"E empresas de fachada?"
Teresa fechou os olhos.
Aquilo foi resposta suficiente.
"Meu Deus."
"Helena."
"Você sabia."
"Não do que está acontecendo agora."
"Mas sabia de alguma coisa."
Teresa se apoiou na pia.
Helena continuou.
"Eu estou investigando o Grupo Valença há dezoito meses."
A mãe arregalou os olhos.
"Você está o quê?"
"Você ouviu."
"Por que faria isso?"
"Porque é meu trabalho."
"Seu trabalho?"
Teresa parecia genuinamente confusa.
Helena percebeu que ainda faltava uma verdade entre as duas.
"Eu trabalho com investigação financeira há oito anos."
Teresa ficou em silêncio.
"Você nunca me contou."
Helena riu sem humor.
"Engraçado ouvir isso de você."
Teresa baixou os olhos.
"Eu queria te proteger."
"De quê?"
Silêncio.
"De quê, mãe?"
Teresa respirou fundo.
"Do Grupo Valença."
Helena sentiu o peito apertar.
"Por que eu precisaria ser protegida deles vinte anos depois?"
Teresa caminhou de volta para a sala.
Helena a seguiu.
A mãe sentou.
Dessa vez parecia mais velha.
Muito mais velha.
"Quando eu comecei no grupo, era uma empresa diferente."
"Quanto diferente?"
"Menor."
Teresa passou as mãos pelos joelhos.
"Mas já tinha muito dinheiro."
"Quem comandava?"
"Otávio Valença."
Helena conhecia o nome.
Avô de Gabriel.
Morto havia dezessete anos.
"E Marcelo?"
"Era jovem."
"Já trabalhava lá?"
"Trabalhava."
Helena sentiu a atenção se concentrar.
"Em quê?"
"Finanças."
"O mesmo Marcelo?"
Teresa assentiu.
Helena continuou.
"O que você encontrou?"
A mãe demorou.
"Transferências."
"Que tipo?"
"Fundos de funcionários."
"Previdência?"
"Sim."
Helena fechou os dedos sobre o apoio da cadeira.
"Quanto?"
"Na época?"
"Sim."
"Eu nunca soube o total."
"Me dá uma estimativa."
"Milhões."
"Quantos?"
"Talvez oito."
Helena calculou mentalmente.
Dinheiro de mais de vinte anos atrás.
Atualizado, poderia ser muito mais.
"Como funcionava?"
Teresa olhou para ela.
"Você vai continuar investigando, não vai?"
"Você ainda precisa perguntar?"
A mãe soltou o ar.
"Havia fundos que deveriam ficar separados."
"Reservas previdenciárias."
"Sim."
"Mas saíam."
"Em pequenas quantias."
"Para onde?"
"Consultorias."
Helena sentiu o coração acelerar.
"Depois?"
"Empresas."
"Quais?"
"Eu não lembro todos os nomes."
"Algum?"
Teresa pensou.
"Aurora."
Helena parou.
"Fundo Aurora?"
Teresa assentiu.
"Você conhece?"
Helena quase riu.
"Seu nome aparece ligado a ele."
Teresa levantou-se de repente.
"Não."
"Sim."
"Isso não pode estar certo."
"Está."
"Eu nunca fui dona daquilo."
"Então por que seu nome estava lá?"
Teresa começou a andar.
"Eu não sei."
"Mãe."
"Eu juro."
"Não me jura. Me explica."
Teresa parou.
"Eu assinei documentos."
Helena ficou imóvel.
"Que documentos?"
"Coisas que me mandavam revisar."
"Você assinava sem ler?"
"Claro que não."
"Então?"
"Eles misturaram folhas."
Helena sentiu raiva.
"Isso não acontece assim."
"Acontecia naquela época."
"Não com uma auditora."
Teresa virou-se.
"Eu tinha vinte e quatro anos."
A voz saiu mais alta.
"Eu ganhava pouco, estava grávida, tinha medo de perder o emprego e trabalhava para gente que mandava em metade da cidade."
Helena ficou em silêncio.
Grávida.
A palavra ficou entre elas.
"Você estava grávida de mim."
Teresa fechou os olhos.
"Sim."
Helena respirou.
"E meu pai?"
A mãe ficou rígida.
"Não mistura as coisas."
"Você sempre disse que ele era um homem comum."
"Era."
"Que foi embora antes de eu nascer."
"Foi."
"Trabalhava no grupo?"
"Não."
A resposta veio rápida demais.
Helena percebeu.
"Está mentindo?"
"Não."
"Mãe."
"Não estou."
"Olha para mim."
Teresa olhou.
"Meu pai era um Valença?"
A mãe empalideceu.
"Não."
Helena sentiu o coração bater mais forte.
"Então por que você ficou assim?"
"Porque isso é absurdo."
"É?"
"É."
"Quem era ele?"
Teresa desviou o rosto.
"Isso não importa agora."
"Importa para mim."
"Helena."
"Você escondeu que trabalhou no grupo."
"Sim."
"Escondeu que auditava previdência."
"Sim."
"Escondeu que encontrou fraude."
"Sim."
"E quer que eu acredite quando diz que meu pai não tem relação?"
Teresa respirou fundo.
"Seu pai não é um Valença."
Helena sustentou o olhar.
"Mas conhecia alguém de lá?"
A mãe não respondeu.
Aquilo bastou.
"Quem?"
Teresa se levantou.
"Não vou falar disso."
"Por quê?"
"Porque não tem relação."
"Você não decide isso."
"Sou sua mãe."
"E eu tenho trinta e dois anos."
Teresa virou-se.
Helena sentiu a raiva se transformar.
"Por que você saiu do grupo?"
"Porque estava grávida."
"Essa é a história que você me contou."
"É verdade."
"É toda a verdade?"
Teresa ficou imóvel.
Helena esperou.
Um segundo.
Dois.
Cinco.
Então a mãe sentou novamente.
"Não."
Helena sentiu o peito apertar.
"Por que saiu?"
Teresa levou as mãos ao rosto.
"Porque me mandaram embora."
A resposta caiu pesada.
"Quem?"
"Otávio."
"Gabriel disse que o avô era presidente."
"Era."
"Ele te demitiu?"
"Não diretamente."
"Então quem?"
Teresa levantou os olhos.
"Marcelo."
Helena parou de respirar.
"Marcelo Valença?"
"Sim."
"Ele tinha pouco mais de trinta anos."
"Trinta e três."
Helena guardou o detalhe.
"Por quê?"
"Porque eu encontrei as transferências."
"Ele sabia?"
"Sabia."
"Participava?"
"Eu não consegui provar."
"Mas suspeitava."
Teresa assentiu.
"Eu pedi explicações."
"Para ele?"
"Primeiro para meu gerente."
"E?"
"Ele mandou parar."
"Você parou?"
Teresa soltou uma risada triste.
"Você me conhece."
Helena quase sorriu.
Sim.
Conhecia aquilo.
"Continuei."
"E encontrou mais."
"Mais contas."
"Mais empresas."
"Sim."
"Mais dinheiro."
"Sim."
Teresa respirou fundo.
"Então me chamaram numa sala."
"Quem?"
"Meu gerente."
Pausa.
"E Marcelo."
Helena sentiu a pele arrepiar.
"O que ele disse?"
"Que eu estava interpretando errado."
"Você acreditou?"
"Não."
"Depois?"
"Disse que meu contrato seria encerrado."
"Você ameaçou denunciar?"
Teresa fechou os olhos.
"Sim."
Helena inclinou-se.
"E foi aí?"
"Foi."
"Quando?"
"No dia seguinte."
Teresa ficou em silêncio.
Helena perguntou:
"O que aconteceu?"
"Um homem apareceu aqui."
"Nesse apartamento?"
"Sim."
"Quem?"
"Eu nunca soube o nome."
"O que ele queria?"
"Trouxe uma mala."
Helena ficou imóvel.
"Com dinheiro?"
"Sim."
"Quanto?"
"Na época, cento e cinquenta mil reais."
Helena arregalou os olhos.
Era uma fortuna para uma jovem auditora nos anos anteriores.
"Para ficar calada."
Teresa assentiu.
"Você aceitou?"
"Eu peguei."
Helena recuou.
A dor foi pior que esperava.
"Mãe."
"Escuta."
"Você pegou dinheiro deles?"
"Escuta."
"Depois de descobrir desvio de aposentadoria?"
"Eu estava grávida."
"Isso não muda."
"Eu estava sozinha."
"Não muda."
"Eu tinha recebido ameaça."
Helena ficou em silêncio.
Teresa continuou.
"Disseram que, se eu falasse, você nasceria sem mãe."
A raiva de Helena desapareceu.
"Disseram isso?"
"Com essas palavras."
Teresa começou a chorar.
"Eu tinha vinte e quatro anos, Helena."
Ela limpou o rosto.
"Eu não sabia a quem recorrer."
Helena sentiu os próprios olhos arderem.
"Então você ficou calada."
"Fiquei."
"E gastou o dinheiro?"
Teresa olhou para ela.
"Não."
Helena franziu a testa.
"Como assim?"
"Eu nunca toquei."
"Você guardou?"
"Sim."
"Por vinte e tantos anos?"
"Sim."
"Por quê?"
Teresa se levantou.
Caminhou até o quarto.
Voltou com uma caixa de metal antiga.
Colocou sobre a mesa.
Abriu.
Dentro havia recibos bancários amarelados.
Documentos.
E um extrato de aplicação financeira.
Helena pegou.
O valor original aparecia registrado.
R$ 150.000.
Nunca movimentados.
Os rendimentos tinham sido separados posteriormente.
O principal permanecia intacto.
Helena olhou para a mãe.
"Por quê?"
"Porque não era meu."
"Então por que não devolveu?"
"Para quem?"
Teresa respirou.
"Para eles?"
Helena não respondeu.
"Eu guardava porque era prova."
A palavra fez Helena levantar o rosto.
"Prova?"
Teresa assentiu.
"Eu tinha medo de denunciar."
"Mas guardou."
"Sim."
"Mais alguma coisa?"
A mãe hesitou.
Helena percebeu.
"O quê?"
Teresa caminhou até um armário pequeno.
Tirou uma latinha de costura.
De dentro, pegou uma chave antiga.
Pequena.
Metálica.
Com um número gravado.
Helena olhou para ela.
"Que chave é essa?"
"De um cofre."
"Qual cofre?"
"Banco."
"Em qual banco?"
"Banco Paulista Mercantil."
Helena conhecia.
Uma instituição antiga que havia sido incorporada por outro banco, mas alguns cofres privados continuavam ativos na agência histórica do centro.
"Está no seu nome?"
"Não."
"De quem?"
Teresa respirou fundo.
"Foi aberto por mim usando um contrato antigo."
"O que tem dentro?"
"Documentos."
"Que documentos?"
Teresa sentou novamente.
"Cópias de lançamentos."
Helena sentiu o coração acelerar.
"Do Grupo Valença?"
"Sim."
"De previdência?"
"Sim."
"Quanto?"
"Eu não sei."
"Mãe."
"Eu não consegui copiar tudo."
"Tem nomes?"
"Alguns."
"Empresas?"
"Sim."
"Assinaturas?"
Teresa assentiu.
Helena apertou a chave na mão.
"Isso é um livro-caixa?"
"Uma parte."
"Parte de quê?"
"Do controle interno que ninguém deveria ver."
Helena ficou em silêncio.
Aquilo podia ser o elo que faltava.
O começo do esquema.
A primeira geração.
Talvez até a origem das empresas de fachada que agora movimentavam R$ 210 milhões.
"Por que você nunca foi buscar?"
"Porque eu tinha medo."
"Todos esses anos?"
"Todos."
"E depois que eu comecei a namorar Gabriel?"
Teresa fechou os olhos.
"Eu quase contei."
"Quase?"
"Várias vezes."
"Mas não contou."
"Eu tinha medo de perder você."
Helena olhou para a chave.
"Talvez quase tenha perdido justamente porque você não contou."
Teresa começou a chorar novamente.
Helena percebeu que a frase tinha sido cruel.
Mas verdadeira.
Ela respirou.
"Vamos buscar."
Teresa ergueu os olhos.
"Agora?"
"Agora."
"Você mal consegue andar."
"Eu não preciso andar."
"Helena."
"Se esse cofre tem o que você acha que tem, alguém matou ou tentou matar pessoas por menos."
Teresa ficou pálida.
"Você acha que eles sabem?"
Helena olhou para a chave.
"Eu espero que não."
A agência histórica ficava perto da Praça da República.
Lívia insistiu em acompanhá-las.
Rafael também foi chamado.
O gerente demorou quase quarenta minutos para localizar o registro.
Teresa estava sentada ao lado de Helena.
As mãos entrelaçadas.
"O contrato ainda existe", disse o gerente.
Helena sentiu alívio.
"Ótimo."
"Mas é muito antigo."
"Consegue abrir?"
"Com a chave e a identificação da senhora Teresa."
Teresa mostrou os documentos.
O gerente conferiu.
"Vamos precisar registrar o acesso."
Lívia respondeu:
"Registre."
Eles desceram até o subsolo.
O corredor de cofres era frio.
Silencioso.
As portas metálicas refletiam a luz branca.
Teresa apertava a chave.
"É o número 418."
O funcionário encontrou.
Inseriu uma chave institucional.
Teresa colocou a dela.
Girou.
O clique ecoou.
Helena sentiu o coração disparar.
O gerente puxou a gaveta metálica.
Colocou-a sobre uma mesa.
"Vou deixar vocês sozinhas."
"Não", disse Lívia. "Fique."
O homem assentiu.
Teresa colocou as duas mãos sobre a tampa.
Olhou para Helena.
"Eu nunca abri desde aquele dia."
"Abre."
Teresa levantou.
Helena esperava pastas.
Papéis amarelados.
Extratos.
Assinaturas.
Talvez o começo de tudo.
Mas não havia nada.
O cofre estava vazio.
Teresa soltou um som baixo.
"Não."
Helena se inclinou.
"Tem alguma coisa no fundo."
Era uma folha branca.
Nova.
Dobada ao meio.
Nada parecida com um documento de vinte anos atrás.
Lívia imediatamente colocou luvas.
"Não toca."
Helena ficou imóvel.
A promotora pegou a folha pelas bordas.
Abriu.
Havia apenas uma frase impressa no centro.
Teresa levou a mão à boca.
Helena sentiu o sangue esfriar.
A mensagem dizia:
"Pare de investigar, Helena."
Ninguém falou.
Teresa começou a tremer.
Rafael olhou para o gerente.
"Quem acessou esse cofre antes de nós?"
"Eu... eu não sei."
"Descobre."
"Agora."
O gerente saiu apressado.
Helena não conseguia tirar os olhos da folha.
Aquilo não era uma ameaça antiga.
Não era para Teresa.
Era para ela.
Alguém sabia que a chave ainda existia.
Alguém sabia que Teresa a entregaria.
E, pior, alguém chegara ao cofre antes delas.
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