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"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 2

正文开头

Ela Confessou Tudo

O símbolo vermelho continuava aceso no pulso de Helena.

Vitória Valença não percebeu.

Ainda estava perto demais, satisfeita demais, convencida demais de que a mulher numa cadeira de rodas não representava ameaça alguma.

Helena baixou os olhos para o documento manchado de sangue.

Precisava continuar parecendo derrotada.

Precisava fazê-la falar.

O nome de Rogério já era importante.

Mas não bastava.

Um motorista podia ser contratado por qualquer pessoa.

Uma ameaça podia ser negada.

Um advogado caro podia transformar uma frase em interpretação.

Helena precisava de intenção.

Dinheiro.

Ordem.

Motivo.

E, se tivesse sorte, um segundo nome.

Vitória voltou a colocar a caneta sobre o colo dela.

"Assine."

Helena deixou os dedos tremerem levemente.

"Eu não quero morrer."

Vitória arqueou uma sobrancelha.

A reação foi imediata.

Era aquilo que ela queria ouvir.

Medo.

Submissão.

Desespero.

"Então pare de dificultar as coisas."

Helena respirou com cuidado.

"Você disse que o carro era só para me assustar."

Vitória não respondeu.

"Mas depois disse que, se Rogério tivesse feito o trabalho direito, eu estaria morta."

"Você está confundindo as coisas."

"Estou?"

"Está."

Helena abaixou a cabeça.

"Talvez seja a medicação."

Vitória relaxou os ombros.

"Provavelmente."

Helena levou a mão à testa, fingindo tontura.

"Eu só quero entender o que preciso fazer para isso acabar."

A arrogância voltou aos olhos de Vitória.

"Finalmente."

"Se eu assinar, vocês me deixam em paz?"

"Sim."

"Você promete?"

Vitória soltou uma risada curta.

"Não seja infantil."

Helena engoliu em seco.

"Eu não tenho ninguém como vocês."

Vitória inclinou a cabeça.

"Como nós?"

"Dinheiro."

Helena olhou para os diamantes.

"Advogados. Empresas. Gente importante. Eu moro num apartamento pequeno na Zona Leste."

Vitória sorriu.

Helena continuou.

"Minha mãe mal consegue pagar o seguro do carro."

"Exatamente."

"Eu não conseguiria enfrentar uma família como a sua."

"Não conseguiria."

Cada resposta fazia Vitória se sentir maior.

Era isso.

Helena conhecia aquele tipo de pessoa.

Não precisava confrontá-la.

Precisava apenas oferecer um espelho.

Quanto mais Vitória admirasse o próprio poder, mais falaria.

Helena tocou a borda do documento.

"Então por que vocês tiveram tanto trabalho comigo?"

O sorriso desapareceu por um instante.

"Porque você não sabia quando ir embora."

"Eu podia ter ido."

"Podia."

"Quando?"

Vitória bufou.

"Você está mesmo fazendo essa pergunta?"

Helena ergueu os olhos devagar.

"Eu quero saber em que momento estraguei tudo."

Vitória cruzou os braços.

"Um mês atrás."

Helena sentiu o coração acelerar.

"Quando apareceu aquele envelope na minha porta?"

Vitória não percebeu a mudança em sua respiração.

"Sim."

Helena fingiu confusão.

"Eu achei que fosse de Gabriel."

"Gabriel nem sabia."

"Então foi você?"

Vitória sorriu.

"Claro que fui eu."

A frase entrou limpa na transmissão.

Helena quase sentiu o peso dela.

Na portaria do prédio onde morava, a câmera havia registrado apenas uma pessoa deixando o envelope.

Boné.

Máscara.

Óculos.

Nenhuma identificação.

Mas o pacote fora manuseado sem luvas antes de ser colocado numa sacola plástica.

正文1

As digitais encontradas na aba interna haviam sido parcialmente preservadas.

A investigação ainda não tinha uma comparação oficial.

Agora talvez tivesse.

Helena manteve a expressão frágil.

"R$ 50 mil."

Vitória deu de ombros.

"Era mais do que suficiente."

"Para quê?"

"Para você desaparecer."

"Da vida de Gabriel?"

"Da nossa vida."

Helena ficou em silêncio.

Vitória se aproximou.

"Você deveria ter comprado outro apartamento. Mudado de bairro. Viajado. Feito qualquer coisa que pessoas como você fazem quando recebem dinheiro de verdade."

Helena levantou os olhos.

"R$ 50 mil é dinheiro de verdade para você?"

Vitória soltou uma gargalhada.

"Para mim, não."

"Para mim deveria ser."

"Exatamente."

"Mas eu devolvi."

"Esse foi seu segundo erro."

Helena lembrou-se do envelope intacto sendo entregue à promotora Lívia Sampaio.

Lembrou-se das fotografias.

Das luvas.

Do laudo preliminar.

Vitória não fazia ideia.

"Você ficou com raiva?"

"Fiquei irritada."

"Por isso mandou Rogério atrás de mim?"

Vitória apertou os lábios.

Helena percebeu que havia avançado rápido demais.

Baixou os olhos novamente.

"Desculpa."

Vitória franziu o cenho.

"Por quê?"

"Eu estou tentando entender."

"Então entenda uma coisa simples."

Vitória se aproximou até ficar diante dela.

"Quando alguém oferece uma saída, você aceita."

Helena assentiu devagar.

"Eu achei que Gabriel me amava."

Vitória revirou os olhos.

"Isso de novo."

"Ele dizia."

"Homens dizem muitas coisas."

"Ele falou em casamento."

A expressão de Vitória endureceu.

Helena percebeu.

"Ele falou?"

"Falou."

"Quando?"

"Isso importa?"

"Não."

Vitória respirou fundo.

"Não importa mais."

Helena deixou uma lágrima se formar nos olhos.

Não precisou forçar muito.

A dor no braço ajudava.

"Ele vai se casar com Lavínia hoje?"

Vitória olhou para o relógio.

"O anúncio deve começar em menos de duas horas."

"Ele concordou?"

"É o que a família precisa."

"Então ele não escolheu."

Vitória se inclinou.

"Você ainda está tentando encontrar romance onde existe patrimônio."

Helena permaneceu calada.

"Gabriel pode brincar de independência o quanto quiser", Vitória continuou. "Mas no fim ele é um Valença."

"Vocês decidiram por ele?"

"Alguém precisa tomar decisões adultas."

"Você?"

"Entre outras pessoas."

Helena sentiu a frase.

Entre outras pessoas.

Ainda havia mais.

"Quem?"

Vitória riu.

"Você acha que vai entender como funciona o Grupo Valença porque viu meia dúzia de planilhas?"

Helena levantou o rosto.

"Eu nunca vi planilha nenhuma do grupo."

A resposta saiu rápida.

Natural.

Perfeita.

Vitória relaxou.

"Melhor assim."

Helena apoiou a cabeça no encosto.

"Então por que o acordo fala tanto sobre empresas e fundos?"

"Porque nossos advogados não são idiotas."

"Eu só era namorada dele."

"Você fazia perguntas demais."

Helena sentiu o estômago se fechar.

Vitória continuou.

"Sobre investimentos. Sobre subsidiárias. Sobre fundos de previdência."

"Gabriel falava comigo."

"E você escutava."

"Era proibido?"

"Para alguém como você, sim."

Helena respirou lentamente.

A transmissão continuava.

Na recepção do hospital, a essa altura, Rafael Nogueira e Lívia Sampaio deveriam estar ouvindo cada palavra.

Mas Helena precisava manter Vitória dentro do quarto.

A polícia só entraria quando tivesse material suficiente.

正文2

Esse era o acordo.

Ou quando Helena apertasse o botão de emergência.

Ainda não.

"Eu não sabia que isso incomodava tanto."

"Incomodava."

"Quem?"

Vitória não respondeu.

Helena insistiu.

"Você?"

"Todo mundo."

"Gabriel não parecia incomodado."

"Gabriel nunca enxergou o perigo."

"Que perigo?"

Vitória deu um sorriso frio.

"Você."

Helena fingiu surpresa.

"Eu?"

"Você tinha acesso demais."

"A quê?"

"A ele."

"Isso não é crime."

"Não fale de crime comigo."

Helena quase sorriu.

Mas segurou.

"Está bem."

Vitória caminhou até a janela.

Lá fora, relâmpagos cortavam o céu de São Paulo.

As luzes da Avenida Paulista, ao longe, pareciam distantes demais daquele quarto.

Helena falou baixo.

"Vitória."

"O quê?"

"Se eu assinar, Lavínia também vai me deixar em paz?"

Vitória se virou.

Helena manteve os olhos baixos.

"Lavínia sabe?"

Vitória sorriu.

Dessa vez não houve hesitação.

"Foi ela quem pagou."

Helena sentiu um frio atravessar o corpo.

Apesar de esperar uma segunda pessoa, ouvir o nome foi diferente.

"Pagou o quê?"

Vitória cruzou os braços.

"Você sabe."

"Rogério?"

Vitória não respondeu imediatamente.

Helena deixou a voz falhar.

"Ela pagou para me atropelar?"

Vitória aproximou-se.

"Você realmente quer que eu detalhe tudo?"

"Eu quero saber por que ela me odeia."

"Ela não odeia você."

"Então por quê?"

Vitória sorriu.

"Você atrapalhou um negócio de centenas de milhões de reais."

Helena ficou imóvel.

A frase pesou mais que todas as outras.

"Eu não entendo."

"Claro que não entende."

"Explique."

Vitória a encarou.

Por um segundo, pareceu desconfiada.

Helena percebeu.

Então começou a chorar.

Dessa vez deixou as lágrimas caírem.

"Eu perdi o movimento da perna por causa de vocês."

Vitória observou.

"Eu posso ficar meses sem andar direito."

Nenhuma reação.

"E você está me dizendo que tudo isso aconteceu por causa de um negócio que eu nem conheço?"

Vitória relaxou.

"Você conhecia mais do que devia."

"Eu não conheço nada."

"Mas Gabriel conhece."

Helena ficou em silêncio.

Vitória pegou o celular.

"Quer saber?"

Ela desbloqueou a tela.

"Talvez Lavínia consiga fazer você entender."

O sangue de Helena esfriou.

Aquilo era melhor do que ela esperava.

Vitória procurou um contato.

Helena conseguiu ver apenas o nome.

Lavínia.

Vitória tocou no botão de chamada.

O telefone ficou no viva-voz.

Chamou uma vez.

Duas.

Na terceira, alguém atendeu.

"O que foi?"

A voz de Lavínia Albuquerque era firme.

Impaciente.

Vitória olhou para Helena.

"Ela está se recusando a assinar."

Houve silêncio.

"Você está no hospital?"

"Estou."

"Eu disse para não prolongar isso."

"Ela quer garantias."

Lavínia soltou uma risada sem humor.

"Garantias?"

Vitória sorriu.

"Ela está com medo."

"Ótimo."

Helena respirou fundo.

A voz de Lavínia era perfeitamente audível.

Cada palavra estava sendo transmitida.

Vitória colocou o telefone sobre a mesa.

"Ela quer saber se vai ser deixada em paz depois de assinar."

Lavínia respondeu sem hesitar.

"Se ela assinar, receber o dinheiro e desaparecer, ninguém precisa fazer mais nada."

Helena sentiu a frase.

Ninguém precisa fazer mais nada.

正文3

Uma ameaça.

Indireta, mas clara.

Helena falou baixo.

"Eu quero ouvir dela."

Vitória levantou o celular.

"Ela está ouvindo."

Helena olhou para o aparelho.

"Lavínia?"

"Estou."

"Por que você fez isso comigo?"

"Você não deveria estar fazendo perguntas."

"Eu só quero saber."

"Então saiba que você se colocou no lugar errado."

"Porque eu fiquei com Gabriel?"

Lavínia riu.

"Você ainda acha que isso é sobre romance?"

Helena não respondeu.

"Gabriel é uma peça num acordo muito maior."

Vitória lançou um olhar rápido para o telefone.

"Lavínia."

"O quê?"

"Não precisa entrar nisso."

"Ela vai assinar."

Helena percebeu uma diferença.

Vitória estava mais cautelosa que Lavínia.

Interessante.

Lavínia continuou.

"O Grupo Valença precisa da incorporação."

Helena sentiu o coração disparar.

"Que incorporação?"

"Isso não é da sua conta."

"Então por que eu preciso assinar um documento falando sobre empresas?"

Silêncio.

Helena continuou.

"Vitória disse que eu atrapalhei um negócio de centenas de milhões."

Vitória encarou Helena.

Furiosa.

Lavínia demorou alguns segundos.

"Ela fala demais."

"Eu estou aqui", Vitória disse.

"Então resolva."

"Estou tentando."

Helena tocou o documento.

"E Gabriel?"

Lavínia respondeu.

"O que tem ele?"

"Ele concordou com tudo isso?"

"Gabriel vai concordar com o que for necessário."

"E se não concordar?"

Lavínia riu.

"Ele não terá muita escolha."

Vitória ficou imóvel.

Helena percebeu.

Era aquilo.

"Por quê?"

"Porque temos documentos suficientes."

Vitória pegou o telefone.

"Chega."

Helena falou antes que ela desligasse.

"Documentos de quê?"

Lavínia respondeu.

"Transferências."

Vitória tentou interromper.

"Lavínia."

Mas a voz continuou.

"Assinaturas. Autorizações. Movimentações financeiras."

Helena sentiu a boca secar.

"De Gabriel?"

"Com o nome dele."

"Você falsificou?"

Vitória desligou o viva-voz por um segundo.

"Pare."

Helena ergueu a voz.

"Você falsificou documentos dele?"

Vitória voltou a ativar o som.

Lavínia riu.

"Ela é mais insistente do que parece."

"Foi por isso que mandei você resolver."

Helena fechou os dedos sobre o braço da cadeira.

"Quanto dinheiro?"

Vitória abriu a boca.

Lavínia respondeu primeiro.

"Dinheiro suficiente para destruir um herdeiro."

"Quanto?"

"Mais de duzentos milhões."

Helena quase esqueceu de respirar.

Vitória encarou o celular.

"Cala a boca."

Mas Lavínia parecia irritada demais para obedecer.

"R$ 210 milhões, se você quer tanto saber."

O quarto desapareceu ao redor de Helena por um instante.

R$ 210 milhões.

Era o valor aproximado que ela vinha tentando fechar havia meses.

Fundos de previdência.

Aportes pulverizados.

Empresas de fachada.

Transferências circulares.

Contas em nomes diferentes.

Tudo voltava àquele número.

Helena falou devagar.

"Dinheiro de previdência?"

Vitória avançou.

"Chega."

Lavínia não parou.

"Você sabe mais do que deveria."

Helena olhou para Vitória.

"Então era isso."

Vitória arrancou o telefone da mesa.

"O quê?"

"Vocês não queriam me afastar de Gabriel."

Silêncio.

Helena sentiu todas as peças se encaixarem.

"O noivado."

Ela olhou para o colar.

"A incorporação."

Depois para o documento.

"Os fundos."

Vitória empalideceu levemente.

Helena continuou.

"Vocês queriam usar Gabriel."

Lavínia respondeu pelo telefone.

"Não seja dramática."

"Vocês falsificaram as transferências para colocar tudo no nome dele."

Vitória desligou a ligação.

O silêncio caiu.

Helena sentiu o coração martelar.

Vitória a encarava.

Agora não havia mais arrogância.

Havia medo.

"Quem é você?"

A pergunta saiu baixa.

Helena ficou imóvel.

"Você sabe quem eu sou."

"Não."

Vitória deu um passo para trás.

"Você não é só uma contadora."

Helena abaixou os olhos.

"Eu estou numa cadeira de rodas."

"Pare com isso."

Vitória apontou para ela.

"Você fez perguntas específicas demais."

Helena não respondeu.

Vitória começou a respirar mais rápido.

"Você sabia dos fundos."

"Você acabou de falar deles."

"Você sabia antes."

Helena olhou para a porta.

Ainda fechada.

Vitória acompanhou o movimento.

Então ouviu-se um ruído no corredor.

Passos.

Rápidos.

Muitos.

Vitória ficou imóvel.

Helena também.

Uma pancada violenta atingiu a porta.

Vitória deu um salto.

Outra pancada.

Mais forte.

"POLÍCIA! ABRA A PORTA!"

O rosto de Vitória perdeu toda a cor.

Ela olhou para a maçaneta.

Depois para Helena.

Mais uma pancada fez a madeira vibrar.

"POLÍCIA! ABRA AGORA!"

Vitória recuou.

"Não."

Helena não disse nada.

Vitória começou a procurar alguma coisa.

O celular.

A pasta.

A caneta.

Seus olhos corriam pelo quarto.

Então pararam no pulso de Helena.

No relógio.

No pequeno símbolo vermelho ainda aceso.

Vitória ficou completamente imóvel.

"Que porra é essa?"

Helena ergueu lentamente o braço.

O símbolo continuava piscando.

Vermelho.

Vitória olhou para ela.

O medo se transformou em horror.

"O que você fez?"

A porta recebeu outra pancada.

Helena finalmente sorriu.

"Eu só deixei você falar."

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