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"O NDA Manchado de Sangue" Capítulo 1

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O NDA Manchado de Sangue

A chuva batia com violência contra as janelas do Hospital Santa Cecília, transformando as luzes de São Paulo em manchas borradas do outro lado do vidro.

Helena Duarte estava sentada numa cadeira de rodas ao lado da cama, com a perna esquerda imobilizada até acima do joelho e uma faixa apertando suas costelas.

Cada respiração profunda ainda doía.

Os hematomas nos braços já tinham passado do vermelho para um roxo escuro, e uma pequena cicatriz acima da sobrancelha esquerda lembrava o instante em que seu rosto batera no asfalto.

Fazia três noites.

Três noites desde que ela saíra do apartamento de Gabriel Valença, nos Jardins, pouco depois das onze.

Três noites desde que um SUV preto avançara sobre ela quando atravessava a saída lateral da garagem.

Helena ainda se lembrava dos faróis crescendo diante dos olhos.

Do som do motor acelerando.

Do impacto.

Depois, nada.

Quando despertara, havia tubos, monitores e uma médica dizendo que ela tivera sorte de continuar viva.

Sorte.

Helena não acreditava em sorte havia muitos anos.

Muito menos quando havia dinheiro demais envolvido.

Naquela noite, Gabriel não atendera nenhuma de suas ligações.

Nenhuma mensagem.

Nenhuma visita.

Nada.

Isso, mais do que a dor na perna, era o que deveria estar destruindo Helena.

Pelo menos era nisso que alguém parecia estar apostando.

A porta do quarto se abriu.

Helena ergueu os olhos.

Vitória Valença entrou sem pedir licença.

Vestia um tailleur bege perfeitamente ajustado, sapatos de salto fino e carregava uma bolsa cuja marca custava mais do que o carro usado da mãe de Helena.

Mas nada disso chamou sua atenção.

Foi o colar.

Diamantes antigos cercavam o pescoço de Vitória, formando três fileiras que brilhavam sob a iluminação branca do hospital.

Helena conhecia aquela joia.

Gabriel lhe mostrara uma fotografia da família meses antes.

O colar Valença.

Uma peça que, segundo ele, só saía do cofre em casamentos, noivados e anúncios oficiais da família.

Vitória fechou a porta.

Então girou a chave.

O clique pareceu alto demais.

Helena permaneceu imóvel.

"Você não deveria estar aqui."

Vitória colocou a bolsa sobre a poltrona.

"Também fiquei feliz em ver você."

Ela se aproximou lentamente, avaliando a cadeira de rodas, o gesso, o acesso intravenoso preso ao braço de Helena.

Havia satisfação demais naquele olhar.

Helena percebeu.

E guardou.

Vitória tirou uma pasta azul-escura da bolsa.

"Vamos poupar nosso tempo."

Ela jogou a pasta no colo de Helena.

"Assine, Helena."

Helena abriu a primeira página.

O documento estava recheado de termos jurídicos.

Confidencialidade.

Renúncia.

Proibição de contato.

Penalidades financeiras.

No fim, uma cifra aparecia em destaque.

R$ 250.000.

Helena levantou os olhos.

"Você está me oferecendo duzentos e cinquenta mil reais para desaparecer?"

"Estou oferecendo uma saída muito mais elegante do que você merece."

Helena virou outra página.

O nome de Gabriel aparecia diversas vezes.

Ela não poderia procurá-lo, mencionar publicamente o relacionamento nem falar sobre assuntos ligados ao Grupo Valença.

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Nem mesmo com a imprensa.

"Gabriel sabe disso?"

Vitória sorriu.

Foi um sorriso curto e frio.

"Gabriel não quer mais saber de você."

Helena não respondeu.

Vitória pareceu interpretar o silêncio como fraqueza.

"Ele voltou para Lavínia."

A primeira fisgada de dor que Helena sentiu não veio das costelas.

Ela apertou os dedos sobre o papel.

Vitória viu.

E gostou.

"Lavínia Albuquerque", continuou. "Você lembra dela, não lembra?"

"Eu sei quem ela é."

"Claro que sabe. Todo mundo sabe."

Vitória caminhou até a janela.

"A família Albuquerque controla bancos, fundos imobiliários, seguradoras. Eles não precisam entrar numa sala pedindo espaço. As pessoas abrem espaço para eles."

Ela tocou os diamantes no próprio pescoço.

"Hoje à noite haverá um anúncio."

Helena olhou para o colar novamente.

Vitória percebeu.

"Finalmente entendeu?"

"Um noivado?"

"Uma correção."

Helena deixou a pasta sobre as pernas.

Vitória se virou.

"Gabriel passou um ano brincando de ser uma pessoa comum. Foi divertido para ele. Restaurantes baratos, apartamentos pequenos, mulher de vestido comprado em brechó."

Helena sentiu o maxilar endurecer.

"Você passou bastante tempo investigando minhas roupas."

"Não precisei investigar."

Vitória fez uma careta.

"Elas anunciam a própria origem."

Helena soltou uma pequena risada.

Aquilo irritou Vitória.

"O que foi?"

"Nada."

"Então assine."

Helena fechou a pasta.

"Não."

O sorriso de Vitória desapareceu.

"Talvez você não tenha entendido."

"Eu entendi perfeitamente."

Helena empurrou a pasta alguns centímetros.

"Você quer comprar meu silêncio."

"Quero evitar um escândalo."

"Por duzentos e cinquenta mil?"

"Para alguém que cresceu na Zona Leste, é bastante dinheiro."

Dessa vez Helena não sorriu.

Vitória continuou.

"Você mora num apartamento que deve ter o tamanho do closet de Gabriel. Sua mãe ainda dirige aquele carro de quinze anos. E você?"

Ela apontou para Helena.

"Uma contadora de projeto habitacional que achou que dormir com um Valença faria dela parte da família."

Helena respirou devagar.

As costelas protestaram.

Ela ignorou.

Durante meses, aquela tinha sido exatamente a imagem construída ao redor dela.

Helena Duarte.

A contadora discreta.

Salário comum.

Apartamento comum.

Roupas simples.

Sem sobrenome importante.

Sem motorista.

Sem fotografias em colunas sociais.

Vitória acreditava naquela versão.

Esse era o problema dos ricos que passavam a vida cercados por gente que os obedecia.

Eles confundiam aparência com verdade.

"E Gabriel disse isso?", Helena perguntou.

"Disse o quê?"

"Que eu era uma diversão."

Vitória hesitou por menos de um segundo.

"Ele não precisava dizer."

"Então ele não disse."

"Pare de se humilhar."

"Eu só fiz uma pergunta."

Vitória se aproximou.

"Ele não veio ao hospital."

Aquilo atingiu Helena onde deveria atingir.

Vitória sabia disso.

"Três dias", continuou. "Nem uma ligação. Nem uma flor. Nem sequer um advogado. Isso não responde à sua pergunta?"

Helena baixou os olhos.

Precisava parecer ferida.

Precisava parecer confusa.

Precisava, acima de tudo, deixar Vitória confortável.

"Talvez."

A tensão no rosto de Vitória diminuiu.

Helena tornou a abrir o documento.

"Se eu assinar, você vai embora?"

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"Imediatamente."

"E nunca mais preciso ver você?"

"Esse é o objetivo."

Helena passou os olhos pelas cláusulas.

Havia algo estranho.

A elaboração estava boa demais para uma simples tentativa de afastar uma namorada inconveniente.

O texto proibia Helena de falar não apenas sobre Gabriel, mas sobre "transações, estruturas societárias, fundos, subsidiárias, operações de investimento ou qualquer informação direta ou indiretamente relacionada ao Grupo Valença".

Aquilo não era um acordo sentimental.

Era contenção de dano.

Helena sentiu o pulso acelerar.

"Por que isso fala sobre operações financeiras?"

Vitória não piscou.

"Modelo padrão."

"Um modelo padrão que proíbe uma ex-namorada de falar sobre fundos de investimento?"

"Helena."

"Estou lendo."

"Não tente parecer mais inteligente do que é."

Helena virou mais uma página.

"Eu sou contadora. Ler números faz parte do serviço."

Vitória soltou uma risada debochada.

"Contadora de moradia popular."

"Dinheiro continua sendo dinheiro."

"Não no nosso mundo."

Helena ergueu os olhos.

Ali estava novamente.

Nosso mundo.

Vitória acreditava sinceramente que dinheiro tinha regras diferentes dependendo do sobrenome de quem o controlava.

Talvez fosse exatamente por isso que ela vinha sendo tão descuidada.

Helena apontou para a linha da assinatura.

"Cadê o advogado?"

"Você não precisa de advogado."

"Num acordo desses?"

"Você precisa de uma caneta."

Vitória tirou uma da bolsa.

Era preta, pesada, provavelmente cara demais para ter qualquer função diferente de uma caneta comum.

Ela a estendeu.

Helena não pegou.

Vitória ficou parada.

"Assine."

"Quero falar com Gabriel."

"Não."

"Então não assino."

A mandíbula de Vitória se contraiu.

"Ele não quer falar com você."

"Quero ouvir isso dele."

"Você ainda não entendeu a posição em que está."

Vitória deu mais um passo.

"Você saiu do apartamento dele pela garagem lateral às onze e vinte e sete da noite. Três minutos depois, estava estendida no asfalto."

Helena congelou.

Não pela lembrança.

Pelas palavras.

Garagem lateral.

Onze e vinte e sete.

A polícia nunca divulgara por onde ela havia saído.

Nem o horário exato.

Nem para os jornalistas.

Nem para os funcionários do hospital.

Gabriel sabia.

A polícia sabia.

Helena sabia.

E agora Vitória também.

Helena não mudou de expressão.

Apenas inclinou levemente a cabeça.

"Como você sabe qual saída eu usei?"

Vitória parou.

Por um instante, o quarto inteiro pareceu silencioso.

Nem mesmo a chuva conseguiu preencher aquele vazio.

Então Vitória riu.

"Gabriel me contou."

Mentira.

Helena soube imediatamente.

Gabriel nunca teria motivo para contar à irmã qual portão Helena usara segundos antes de ser atropelada.

Muito menos o horário exato.

Mas Helena precisava de mais.

Muito mais.

Uma suspeita não levaria ninguém a julgamento.

Ela pegou a caneta.

Vitória relaxou.

"Finalmente."

Helena apoiou o documento sobre as pernas.

Levou a ponta da caneta até a linha.

Vitória observava.

Helena deixou a caneta cair.

Ela bateu no piso.

Vitória fechou os olhos por um segundo.

"Pegue."

"Minha perna está imobilizada."

"Você ainda tem braços."

Helena apontou para os hematomas.

"Também não estão exatamente ótimos."

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Vitória respirou fundo, abaixou-se e apanhou a caneta.

Quando tornou a entregá-la, Helena afastou a mão.

"Não vou assinar."

Vitória ficou imóvel.

"O quê?"

"Eu disse não."

"Você está brincando comigo?"

"Não."

"Eu vim até este hospital para resolver isso discretamente."

"Então desperdiçou a viagem."

Vitória agarrou o braço esquerdo de Helena.

A dor atravessou os músculos machucados.

Helena reprimiu um gemido.

"Solte."

"Você não sabe com quem está mexendo."

"Estou começando a descobrir."

Os olhos de Vitória se estreitaram.

Então sua mão foi até o acesso intravenoso.

Helena percebeu tarde demais.

Vitória puxou.

A agulha saiu da pele de uma vez.

Uma dor aguda percorreu o braço.

Sangue começou a escorrer.

Helena inspirou bruscamente.

Vitória jogou o tubo para o lado.

Algumas gotas caíram sobre o documento aberto.

O vermelho se espalhou lentamente sobre a cláusula de confidencialidade.

"Agora você vai assinar."

Helena olhou para o próprio sangue.

Depois para Vitória.

"Você acabou de arrancar meu acesso."

"Considere um aviso."

Helena sentiu o coração bater mais forte.

Não de medo.

Era a adrenalina.

Com a mão direita, ela cobriu o ponto onde o sangue escorria.

O polegar da mão esquerda deslizou discretamente pela lateral do relógio inteligente preso ao pulso.

Uma vez.

Duas.

Vitória achou que ela estava tremendo.

"Está vendo como é simples?", disse.

Helena manteve os olhos baixos.

"Você queria tanto me tirar do caminho?"

"Eu queria que você entendesse seu lugar."

"Por causa de Gabriel?"

"Por causa de tudo."

"Então foi você que mandou aquelas mensagens?"

Vitória não respondeu.

Helena continuou.

"E o dinheiro deixado na porta do meu apartamento?"

Vitória sorriu.

"Você deveria ter aceitado."

"Você deixou aquele envelope?"

"Dez vezes mais do que você merecia."

Helena sentiu a confirmação encaixar mais uma peça.

Mas ainda não era suficiente.

"Eu achei que o atropelamento fosse fazer você mudar de estratégia."

A expressão de Vitória mudou.

Muito pouco.

Helena fingiu não notar.

"Talvez tenha sido um sinal", acrescentou.

"Foi."

A palavra saiu rápido demais.

Helena ergueu os olhos.

Vitória já não parecia irritada.

Parecia satisfeita.

Helena deixou sua voz enfraquecer.

"Você acredita nisso?"

"Em sinais?"

"Que aquele carro apareceu justamente quando eu saí do apartamento de Gabriel?"

Vitória aproximou-se.

"Você realmente acha que coincidências acontecem com tanta precisão?"

Helena permaneceu em silêncio.

Vitória olhou para a cadeira de rodas.

Depois para o gesso.

Depois para os hematomas.

"Aquele carro só deveria assustar você."

Helena sentiu tudo dentro dela parar.

Ali estava.

A primeira rachadura.

Ela ergueu lentamente o rosto.

"Aquele carro?"

Vitória percebeu o erro.

Por dois segundos, nenhuma das duas falou.

O som da chuva se tornou ensurdecedor.

Então Vitória puxou a pasta do colo de Helena.

"Pare de fazer perguntas."

"Você acabou de dizer que o carro deveria me assustar."

"Eu não disse isso."

"Disse."

"Você está medicada."

"Não o suficiente para esquecer."

Vitória se inclinou sobre ela.

"Escute com atenção."

Helena encarou seus olhos.

"Estou escutando."

"Você não sabe o que está acontecendo."

"Então me explique."

"Assine o documento."

"Não."

Vitória segurou o queixo de Helena.

Desta vez com força.

"Você acha que Gabriel vai salvar você?"

Helena não respondeu.

"Ele nem veio."

Os dedos apertaram mais.

"Você não pertence àquela família. Nunca pertenceu."

Helena sentiu o sangue continuar descendo pelo braço.

"Então por que você está tão desesperada para que eu fique em silêncio?"

Vitória congelou.

Helena percebeu que havia ido longe demais.

Por um instante, viu cautela surgir nos olhos da outra mulher.

Precisava devolver a sensação de controle.

Helena baixou a voz.

"Eu estou com medo, Vitória."

A cautela desapareceu.

Vitória sorriu novamente.

"Agora você está começando a entender."

Ela soltou o rosto de Helena.

"Isso tudo poderia ter sido evitado."

"Como?"

"Você poderia ter aceitado o dinheiro."

"E ido embora?"

"Sim."

"Mas eu fiquei."

"Você insistiu."

"Porque eu amo Gabriel."

Vitória soltou uma gargalhada.

"Amor."

Ela balançou a cabeça.

"Mulheres como você sempre acham que amor é um elevador social."

Helena baixou os olhos.

Por baixo da manga, a tela do relógio havia mudado.

Um pequeno círculo piscava.

Ainda não vermelho.

Esperando.

Vitória se aproximou outra vez.

"Você quer saber qual foi seu maior erro?"

Helena não respondeu.

"Acreditar que sobreviver ao atropelamento significava que você venceu."

O estômago de Helena se contraiu.

Vitória se inclinou até seus lábios quase tocarem o ouvido dela.

Sua voz saiu baixa.

Calma.

Quase carinhosa.

"Se Rogério tivesse feito o trabalho direito, você já estaria morta."

Helena não respirou.

Rogério.

Um nome.

Finalmente um nome.

Vitória se afastou com um sorriso.

Helena moveu discretamente o pulso.

Na tela rachada de reflexos, um pequeno símbolo mudou de cor.

Vermelho.

A transmissão estava ativa.

E Vitória ainda estava falando.

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