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"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 11

正文开头

Um Lugar à Mesa

Ao amanhecer, todos os que haviam deixado a aldeia durante a noite estavam de volta.

Joana entrou pela rua principal com Ester e os dois filhos dela. Os moradores abriram caminho sem fazer perguntas. Algumas pessoas reconheceram os olhos da menina desaparecida; outras só reconheceram Joana chorando enquanto segurava a mão da irmã.

Lídia caminhava alguns passos atrás.

Daniel trazia um corte no braço, coberto por um pano limpo. Varek seguia amarrado entre Bento e Tomás. Dois de seus homens também haviam sido capturados; os demais fugiram para as montanhas depois que o depósito foi cercado.

Lídia não os chamou de vencidos. Enquanto ainda estivessem soltos, as trilhas precisariam de guardas.

Na casa comunal, Rosa contou novamente as crianças.

Vinte e três.

Mateus mostrou a Lídia as marcas deixadas pela corda nos pulsos. Ela lhe entregou uma tigela de caldo e ficou ao seu lado até ele começar a comer. Só então percebeu como tremiam suas próprias mãos.

Bento espalhou as duas metades do pergaminho sobre a mesa. Ester pediu para vê-las.

Reconheceu as marcas junto aos nomes.

“Varek me fez copiar listas assim quando eu era mais velha”, contou. “Mandava contar quantos adultos protegiam cada criança. Eu escondia os nomes que conseguia, mas ele sempre encontrava outro jeito.”

Joana pousou a mão sobre a dela.

Ester apontou para a escrita acrescentada abaixo do selo do antigo conselho. A tinta era mais escura, e as letras, mais apertadas do que as da ordem de entrega de farinha.

“Ele escreveu isso depois”, disse. “Eu vi a folha no baú dele anos atrás. Guardava-a para ameaçar qualquer pessoa que perguntasse por que os homens do conselho abriram a passagem.”

Bento sentou-se diante da mesa.

“Meu pai acreditava que libertaria dois viajantes.”

“E abriu o caminho para Varek”, respondeu Ester.

As duas coisas eram verdadeiras. Bento não tentou escolher apenas a que o consolava.

Nuno foi trazido ao salão antes do meio-dia. Tinha sido encontrado escondido no moinho, com comida suficiente para uma viagem curta. Admitiu ter roubado a chave do celeiro, mostrado a Varek o muro aberto atrás da casa comunal e sinalizado da encosta.

Disse que Varek prometera deixá-lo partir com uma parte da farinha.

Bento ouviu tudo sem interromper. Quando Nuno tentou culpar o tio por ter guardado o selo antigo, Bento respondeu apenas:

“Eu guardei a memória do meu pai. Você abriu as portas esta noite.”

Os moradores decidiram manter Nuno e os invasores capturados sob vigilância até a tempestade permitir a viagem ao posto de guarda do vale. Levariam o pergaminho, o depoimento de Ester e os objetos marcados com os três riscos. Bento se ofereceu para acompanhar o grupo.

Lídia pediu que também fossem registrados os nomes dos desaparecidos que Ester conhecia e os lugares onde poderiam estar. Alguns haviam morrido. Outros talvez vivessem em povoados distantes sob nomes impostos por Varek.

Joana não queria ouvir nenhuma dessas possibilidades naquele dia.

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Ester compreendeu.

“Contarei uma história de cada vez”, prometeu à irmã.

À tarde, os moradores começaram a reparar a casa de Lídia.

Tomás substituiu a porta dos fundos. Bento trouxe madeira do celeiro para reforçar a viga rachada. Lina subiu a escada com um rolo de corda no ombro, apesar das reclamações de Rosa. Mateus ficou no chão, encarregado de entregar pregos a quem pedisse.

Lídia os observou da rua.

Durante três dias, trabalhara sozinha naquele telhado enquanto os vizinhos riam das estacas. Agora havia tanta gente ao redor da casa que ela precisava pedir espaço para passar.

Daniel apareceu ao seu lado com a régua de madeira do pai.

“Bento perguntou se deve retirar todas as pontas”, disse.

“Algumas estão quebradas.”

“Não foi o que perguntei.”

Lídia olhou para cima. A neve havia arrancado parte da estrutura. O telhado nunca voltaria a ter exatamente a aparência da noite anterior.

“Retiraremos as que não servem mais”, respondeu. “As outras ficam até encontrarmos uma defesa melhor.”

Daniel assentiu e passou os dedos pelas iniciais gravadas na régua.

“Eu me lembrava dela menor.”

“Você era menor.”

Ele sorriu, mas logo ficou sério.

“Não sei viver nesta casa como se tivesse saído ontem e voltado hoje.”

“Eu também não sei receber um homem de quarenta e dois anos como se ainda precisasse que eu lhe amarrasse as botas.”

Daniel olhou para ela.

“Eu precisava quando fugi de Varek. Ester me ajudou. Depois tive de aprender sozinho.”

Lídia tocou a cicatriz na mão dele, a mesma que procurara quando o vira pela primeira vez à porta.

“Há coisas que você vai querer contar. Outras, talvez não. Temos tempo para descobrir quais são.”

Ele respirou fundo.

“Posso começar consertando a viga?”

“Seu pai teria exigido que medisse duas vezes antes de cortar.”

“Então vou medir três.”

Subiram juntos.

Na parte mais alta do telhado, Daniel encontrou a pequena plataforma onde Lídia se apoiara para pregar as últimas estacas. Dali se via o caminho do norte, a mata e as casas reunidas no fundo do vale.

“Você subia aqui todo inverno?”, perguntou.

“Nem sempre tão alto.”

“Para olhar a estrada?”

“Para ver se alguém vinha. E para verificar as telhas.”

Ele não respondeu de imediato. Pegou uma tábua nova e a segurou enquanto Lídia marcava o ponto do corte.

Ao cair da tarde, Rosa chamou todos para comer na casa comunal. Havia pouco espaço nas mesas, mas ninguém pediu a Ester que se sentasse longe de Joana. Lina ficou com as crianças. Mateus adormeceu antes de terminar o caldo.

Lídia entrou por último.

Tomás havia deixado dois lugares vazios lado a lado.

Daniel puxou uma das cadeiras para ela. Lídia se sentou e esperou que ele ocupasse a outra.

Do lado de fora, o vento voltou a soprar sobre o telhado marcado pelas estacas. Dentro, alguém começou a cantar uma melodia antiga.

Daniel ergueu a cabeça. Conhecia as primeiras notas.

Lídia cantou o final como fazia quando ele era menino.

Desta vez, ele a acompanhou.

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