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"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 10

正文开头

O Selo do Conselho

Bento reconheceu o selo antes de tocar no pergaminho.

“Era do meu pai.”

A oficina ficou em silêncio. Do lado de fora, os moradores reforçavam as portas enquanto a neve cobria as marcas deixadas pela luta. Dentro, Joana segurava a metade inferior da lista, aquela que trazia os nomes das crianças desaparecidas.

Lídia juntou as duas partes sobre a bancada.

O corte se encaixava.

A data no alto fora escrita três dias antes da invasão. Abaixo, havia uma ordem para entregar farinha aos homens que atravessariam o caminho do norte. O nome de Varek não aparecia. Alguém cobrira a assinatura com cera aquecida e pressionara sobre ela o selo do conselho.

“Seu pai sabia que levariam as crianças?”, perguntou Joana.

Bento não respondeu. Continuava olhando para o emblema.

“Ele morreu tentando impedir a entrada deles”, disse por fim.

“Erik também morreu”, respondeu Lídia. “Precisamos saber o que aconteceu antes disso.”

Ela levou o pergaminho para perto do fogo, mantendo distância suficiente para não queimá-lo. A cera amoleceu nas bordas. Com a ponta de uma agulha, conseguiu levantar um fragmento.

Parte da escrita apareceu.

Não era uma assinatura. Eram as palavras finais de uma ordem mais longa:

em troca dos reféns

.

Bento aproximou a lamparina. Lídia retirou outra lasca de cera.

“Meu pai já sabia que havia reféns”, murmurou ele.

Joana apertou a faixa bordada por Ester.

“Quem?”

“Não diz aqui.”

Daniel entrou na oficina trazendo o homem capturado junto à ponte. Deixara-o amarrado sob a guarda de Tomás. O prisioneiro afirmava que Varek reunira os homens restantes no antigo depósito de sal, acima do desfiladeiro.

“Há crianças lá?”, perguntou Lídia.

“Ele não sabe. Disse que Ester cuida das provisões no acampamento mais alto.”

Lina confirmou. O depósito e o acampamento eram separados por uma subida estreita. Varek podia alcançar os dois antes do amanhecer se conhecesse a trilha menor.

Bento ergueu os olhos do pergaminho.

“Vou com vocês.”

“Ficará aqui”, disse Lídia. “Alguém precisa manter as crianças e o celeiro protegidos.”

“Acabou de encontrar o selo do meu pai numa ordem entregue a Varek.”

“E ainda não sabemos por quê. Encontre Nuno e descubra o que ele pretendia tirar da caixa.”

Bento pareceu querer discutir, mas guardou a espada. Pela primeira vez naquela noite, aceitou uma ordem de Lídia sem pedir que ela se explicasse diante de toda a aldeia.

Ela partiu com Daniel, Joana e Lina. Rosa ficou com os feridos. Tomás levou dois moradores para vigiar a trilha de retorno.

Subiram sem tochas até a mata cobrir a luz das casas. Lina avançava à frente, procurando as pedras que marcavam a passagem dos pastores. Quando chegaram ao desfiladeiro, ouviram o toque seco de uma marreta.

Varek preparava a ponte.

Do esconderijo entre os pinheiros, Lídia viu dois homens prendendo uma corrente ao suporte de madeira. Se soltassem a estrutura, ninguém da aldeia chegaria ao depósito pelo caminho principal.

正文1

Daniel começou a se mover, mas Lídia tocou seu braço.

“Deixe que terminem de prender a corrente.”

“Vão derrubar a ponte.”

“Vão mostrar onde a seguram.”

Os homens passaram a corrente por uma argola na pedra e entraram no depósito. Lídia mandou Lina conduzir Joana pela trilha superior até o acampamento. Joana queria ver Ester; também era a pessoa que ela ouviria sem desconfiar de uma armadilha.

“Se encontrarem as crianças, não desçam pela ponte”, disse Lídia. “Voltem pela trilha dos pastores.”

Joana assentiu. Guardou a faixa da irmã por dentro da roupa e seguiu Lina.

Lídia e Daniel desceram até a argola. Ela enfiou uma cunha de ferro entre a corrente e a pedra. Se Varek tentasse soltá-la, a ponte continuaria presa por tempo suficiente para alguém atravessar.

A porta do depósito se abriu atrás deles.

“Sabia que viria pelo menino”, disse Varek.

Ele segurava uma tocha numa mão e a espada na outra. Dois homens saíram às suas costas.

“Mateus está em casa”, respondeu Lídia.

“Estou falando do seu.”

Daniel avançou um passo. Lídia se colocou ao lado dele.

Varek apontou para o pergaminho em sua mão.

“Encontrou a ordem.”

“Encontrei metade do que aconteceu. A outra metade você vai contar.”

Ele riu sem alegria.

“O conselho me chamou ao vale naquele inverno. Queria farinha levada pela montanha antes que a estrada fechasse. Quando chegamos, alguns homens tinham tomado dois viajantes como reféns. O pai de Bento assinou uma ordem para abrir a passagem e tentar recuperá-los.”

“E as marcas ao lado dos nomes?”

Varek não respondeu.

Daniel percebeu antes de Lídia.

“Você acrescentou a lista depois”, disse. “Usou a mesma folha porque tinha o selo.”

“Seu pai teria rasgado o papel se soubesse”, continuou Lídia. “Por isso você o matou quando tentou barrar a casa.”

Varek ergueu a espada na direção dela.

“Erik escolheu me enfrentar.”

“Escolheu impedir que levasse Daniel.”

O rosto de Varek endureceu. Lídia soube que chegara à parte da história que ele não queria ouvir diante do homem que criara à força.

Acima do depósito, uma voz feminina gritou o nome de Joana.

Ester.

Varek olhou para a encosta. Daniel aproveitou a distração para atingir o braço que segurava a tocha. Ela caiu na neve e se apagou. Um dos homens avançou; Lídia bateu em seu joelho com o cabo do machado. Daniel afastou o outro.

Varek recuou para a ponte.

“Se vierem atrás de mim, ninguém volta para a aldeia.”

Ele golpeou a corrente com a espada, tentando libertá-la da argola.

A cunha de Lídia manteve-a no lugar.

Por um instante, ele ficou olhando para a ponte que se recusava a cair.

“Você preparou até isto?”

“Vi onde prenderam a corrente.”

Daniel tomou a espada de um dos invasores caídos. Varek largou a própria arma e agarrou Lídia pelo ombro, puxando-a para a borda. Ela sentiu a pedra desaparecer sob um dos pés.

Daniel avançou.

“Solte-a!”

Varek apertou a mão em torno do braço dela.

“Dê mais um passo e ela cai.”

Lídia encontrou com os dedos a ponta solta da corrente junto à argola. Não tinha força para arrancar Varek dali. Podia, porém, obrigá-lo a escolher onde pôr o peso.

Ela puxou a corrente contra as pernas dele.

Varek tropeçou. Lídia se abaixou, libertou o ombro e rolou para longe da borda. Daniel agarrou Varek antes que ele alcançasse a espada. Os dois caíram sobre as tábuas da ponte.

A madeira estalou.

Lídia correu até a argola e segurou a corrente com as duas mãos.

“Daniel, saia daí!”

Ele mantinha Varek preso pelo colarinho. Olhou para a mãe, depois para a ponte que começava a ceder sob os dois.

Soltou o homem e se lançou para a margem.

Varek agarrou a borda com uma mão.

Lídia podia deixar que caísse. Lembrou-se de Erik no chão da casa, de Daniel levado pela tempestade, dos anos em que ninguém acreditara nela.

Então viu Daniel voltar e estender a mão ao homem que o aprisionara.

Lídia prendeu a corrente na argola e ajudou a puxá-lo para a pedra firme.

“Vai responder pelo que fez”, disse ela a Varek.

Do alto da trilha vieram passos rápidos. Joana apareceu primeiro. Atrás dela caminhava Ester, agora adulta, segurando a mão de uma menina e conduzindo um menino menor junto ao corpo.

As irmãs pararam ao se verem à luz fraca que vinha do depósito.

Nenhuma delas encontrou palavras.

Ester soltou a mão da menina apenas para abraçar Joana.

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