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"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 9

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O Preço de Um Nome

Lídia partiu antes que Bento terminasse de reunir os homens.

Levou Daniel e Lina pela trilha dos pastores. Joana queria acompanhá-los, mas Lídia pediu que ficasse com as vinte e duas crianças. Depois da armadilha na casa comunal, ninguém sairia com outro grupo sem que Joana mesma conferisse cada rosto.

Mateus tinha onze anos. Conhecia a aldeia inteira, porém nunca passara sozinho pelo desfiladeiro no inverno.

As marcas na neve mostravam que caminhara por algum tempo. Depois desapareciam sob sulcos arrastados: um adulto o pegara no colo ou sobre o ombro.

Lina reconheceu a largura das botas.

“Nuno usa sola com pregos só na parte da frente. Essas marcas são de Varek.”

Daniel examinou o chão.

“Há um cavalo mais adiante. Ele não vai carregá-lo até o acampamento.”

Lídia ajustou a capa e continuou subindo.

A trilha seguia entre duas paredes de pedra. O vento carregava neve para dentro das pegadas, apagando-as depressa. Quando chegaram ao primeiro estreitamento, ouviram vozes abaixo, perto da curva do rio congelado.

Esconderam-se atrás de uma rocha.

Varek estava com dois homens e Mateus. O menino tinha as mãos amarradas à frente do corpo, mas caminhava por conta própria. Um dos homens carregava uma tocha protegida por uma lanterna de chifre.

“Vamos alcançá-los antes da ponte”, sussurrou Daniel.

“Se sairmos agora, Mateus fica entre nós”, respondeu Lídia.

Lina apontou para cima.

Uma passagem antiga contornava a rocha e chegava à margem oposta. Era estreita, mas evitava a curva onde Varek podia vê-los.

Lídia enviou Daniel por ali. Ela e Lina continuariam pela trilha principal até um ponto onde o menino pudesse ouvi-las. Tinham de impedir que Varek atravessasse a ponte com Mateus.

“Se eu chamar sua atenção, você pega o menino”, disse Lídia.

“E se ele puxar uma faca?”

“Não chegará perto o bastante se eu tiver algo que ele queira.”

Daniel olhou para o pergaminho que ela tirava da roupa.

“A lista?”

“Ele sabe o que está escrito nela. Ainda não sabe quanto nós entendemos.”

Daniel não gostou da escolha, mas tomou a passagem superior.

Lídia desceu com Lina até a curva. Varek parou ao ouvir suas botas sobre a pedra.

“Solte Mateus.”

“Sabia que viria.”

“Se queria falar comigo, não precisava arrastar um menino pela montanha.”

“Da última vez que bati à sua porta, você cortou a corda de um dos meus homens.”

Lídia ergueu o pergaminho.

“Então vamos falar de outra coisa. Esta lista foi feita antes de você levar as crianças.”

Varek estreitou os olhos.

“Você guardou um pedaço de papel durante trinta e dois anos?”

“Joana guardou. Você mandou contar os adultos em cada casa. Alguém daqui fez o trabalho.”

Ele desviou o olhar para Mateus. O menino encarava Lídia, esforçando-se para parecer calmo.

“Dê-me a lista”, disse Varek.

“Solte o menino primeiro.”

Varek fez sinal para um de seus homens aproximar Mateus da ponte. Não soltou suas mãos.

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“Você não tem força para levá-lo daqui.”

“Não vim sozinha.”

Lina, escondida alguns passos atrás, bateu uma pedra contra outra. O som ecoou na passagem superior. Varek olhou para o alto. Daniel já se encontrava do outro lado, fora da vista dele.

Lídia manteve o pergaminho erguido.

“Ester também está viva.”

O nome teve o efeito que ela esperava. Varek virou a cabeça bruscamente para Lina.

“Foi ela quem mandou a menina.”

“Ela contou a Joana sobre os próprios filhos”, disse Lídia. “Sua ameaça deixou de funcionar.”

“Você não sabe onde estão.”

“Sei que não estão com você nesta trilha.”

Varek avançou um passo. Lídia recuou até a pedra marcada que Lina lhe mostrara. Sob uma camada fina de neve, havia uma fenda. Bastava continuar recuando pela direita; quem viesse diretamente atrás pisaria no gelo frágil.

“Ela também sabe dos outros nomes”, continuou Lídia.

Varek parou.

Pela primeira vez, pareceu avaliar a lista como algo mais perigoso do que uma lembrança da antiga invasão.

Um dos homens levou Mateus até a ponte. Daniel surgiu da passagem superior e saltou para a margem, entre o menino e o rio. Atingiu o homem com o ombro. Os dois caíram na neve.

“Corra!”, gritou ele a Mateus.

O garoto disparou na direção de Lina. Ela cortou a corda em suas mãos e o empurrou para a trilha de volta.

Varek tentou alcançá-los. Pisou onde Lídia o esperava. O gelo cedeu sob sua bota, prendendo-lhe a perna até o joelho.

Ela não se aproximou com o machado. Manteve distância enquanto ele tentava se libertar.

“Quem fez a lista?”

Varek arrancou a perna da fenda, deixando parte da bota para trás. Sacou a espada.

“Uma pessoa que vocês agradeceram por muitos anos.”

Daniel se levantou junto à ponte. O outro invasor estava caído, desarmado. Varek viu que Mateus já passara por Lina e desistiu de persegui-lo. Recuou com o homem que restava, pela trilha do acampamento.

Daniel deu um passo para segui-lo.

Lídia segurou seu braço.

“Mateus primeiro.”

Ele respirou fundo e guardou a espada. Os três conduziram o menino de volta à aldeia.

Perto da oficina, Bento os esperava com Joana. Mateus correu para os braços da mãe. Só então começou a chorar.

A vitória durou pouco.

Tomás saiu da oficina trazendo uma caixa de madeira escura. Encontrara-a no antigo depósito do escrivão, atrás de tábuas soltas que Nuno tentara retirar enquanto todos estavam na casa comunal.

Dentro havia a metade superior do pergaminho.

A data fora escrita antes da noite em que Daniel desapareceu.

Abaixo dela, uma ordem curta autorizava a entrega de alimentos e a abertura do caminho do norte. Não era a letra do escrivão. A assinatura estava coberta por uma mancha de cera, mas o selo permanecia inteiro.

Bento reconheceu o desenho gravado nele.

Era o emblema do antigo conselho da aldeia.

Seu pai presidira aquele conselho no ano da invasão.

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