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"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 8

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A Casa sem Saída

Lídia atravessou a rua antes que Daniel conseguisse acompanhá-la.

A porta da casa comunal estava fechada por dentro. Ela bateu três vezes, o sinal combinado com Joana.

Ninguém respondeu.

Daniel chegou ao seu lado com uma espada na mão. Bento vinha atrás, deixando Nuno sob a guarda de dois moradores.

“Quantas entradas?”, perguntou Lídia.

“A da frente, a do depósito e uma janela baixa voltada para o poço”, respondeu Bento.

“A janela é estreita demais para um adulto.”

“Para Lina, não.”

Lídia procurou a menina na rua e não a encontrou.

Tomás apoiou-se na parede. Rosa examinava o corte em seu ombro, superficial, embora sangrasse bastante.

“O homem da capa levou uma faca da minha oficina”, disse ele. “Vi quando saiu pela porta dos fundos.”

Lídia olhou para a casa comunal. As velas continuavam acesas no andar de cima. Se Joana estivesse lá com vinte e três crianças, teria mantido ao menos uma delas junto à janela para observar a rua.

Não havia sombra alguma atrás das chamas.

“Talvez seja uma armadilha vazia”, disse Daniel.

“Ou Joana está mantendo todos longe da janela.”

Lídia não escolheria entre aquelas possibilidades pela aparência das velas. Precisava ouvir alguém lá dentro.

Bento trouxe a chave principal. A fechadura girou, mas a porta não abriu. Haviam colocado uma barra do outro lado.

Daniel e dois homens se prepararam para arrombá-la.

“Esperem.”

Lídia se ajoelhou junto à soleira. Uma linha escura escorria por baixo da madeira e congelava nas pedras. Aproximou o rosto. Cheirava a gordura e óleo de lamparina.

Se forçassem a porta com tochas acesas por perto, o chão poderia pegar fogo.

Ela mandou afastar os moradores e cobrir a faixa escura com neve limpa.

“Joana!”, chamou. “Se me escuta, responda com qualquer coisa.”

Do interior veio uma pancada.

Depois outra, mais fraca.

“Há alguém vivo”, disse Bento.

Lídia se voltou para a janela baixa. Lina surgiu justamente naquele momento por trás do poço, com o rosto coberto de neve.

“Consegui ver lá dentro”, contou. “Há três homens no salão. Joana e as crianças estão no depósito.”

“Como entraram?”

“Pela passagem do estábulo. O muro dos fundos está aberto.”

Bento praguejou. Meses antes, Nuno se oferecera para reparar aquele muro. A abertura ficava escondida por uma pilha de lenha.

Lídia pediu a Lina que mostrasse exatamente onde vira os homens. A menina apontou dois junto à porta do depósito e um acima, na escada com as velas.

“Estão esperando que tentemos entrar pela frente”, concluiu Daniel.

“E óleo junto à porta”, disse Lídia. “Varek quer que percamos tempo ou queimemos a saída de Joana.”

Bento propôs cercar a casa e exigir que os homens se rendessem. Lídia concordou em cercá-la, mas não em anunciar todas as posições. A casa comunal tinha paredes grossas. Enquanto a porta permanecesse barrada, não saberiam se os invasores maltratavam alguém no depósito.

Ela conduziu Daniel e Lina pela lateral, até a pilha de lenha. Atrás dela havia uma abertura no muro suficiente para um adulto passar de lado. O estábulo ficava além do pátio.

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Dois cavalos desconhecidos estavam amarrados sob o beiral.

Lídia cortou uma das rédeas e entregou-a a Lina.

“Leve-os para a rua de trás. Sem montar. Se dispararem, vão avisar que estamos aqui.”

Daniel observou a porta do estábulo.

“Entro primeiro.”

“Não. Conheço o lugar.”

“Conhece a casa, não os homens.”

“Então vamos juntos.”

Eles atravessaram o estábulo sem acender luz. No fundo, uma porta estreita dava para a cozinha da casa comunal. Lídia encostou o ouvido na madeira.

Uma voz masculina discutia no salão.

“Varek disse para esperar.”

“Se esperarmos demais, eles cercam tudo.”

Outra voz, rouca, respondeu:

“Ele quer a velha aqui. As crianças garantem isso.”

Lídia sentiu Daniel se mover ao seu lado. Segurou seu braço e apontou para a tábua solta no chão da cozinha. Por baixo dela havia um vão usado para guardar legumes no inverno. A abertura levava à parede do depósito.

Ela não entrava ali havia anos, mas Joana conhecia o espaço.

Lídia levantou a tábua com cuidado. O vão estava vazio. Arrastou-se por ele, com Daniel logo atrás, até encontrar uma pequena abertura entre as pedras.

Viu Joana sentada no chão do depósito, abraçada a duas crianças. Rosa estava ao seu lado. As outras se amontoavam contra a parede. Nenhuma parecia ferida.

Lídia bateu duas vezes na pedra.

Joana ergueu a cabeça.

Lídia levou um dedo aos lábios e apontou para a abertura. Joana olhou para as crianças, mediu o espaço e fez um gesto negativo. As menores passariam; algumas das mais velhas ficariam presas.

Daniel encontrou um pino de madeira segurando a tábua superior. Se o retirassem, poderiam alargar o vão, mas o barulho alertaria os homens no salão.

Lídia voltou à cozinha e pegou uma panela de ferro. Jogou-a contra a porta do estábulo.

O estrondo fez um dos invasores correr para os fundos.

Daniel o derrubou assim que entrou. Lídia fechou a porta antes que o homem pudesse gritar, e os dois o prenderam com a rédea do cavalo.

No salão, os outros chamaram o companheiro pelo nome.

Lídia respondeu com um gemido abafado.

“Ele está ferido”, disse um deles.

Passos se aproximaram. Daniel se posicionou atrás da porta.

Mas, antes que o segundo homem chegasse, alguém do lado de fora começou a bater na porta principal.

“Sou eu!”, gritou Varek. “Abram.”

Os passos mudaram de direção.

Lídia retirou o pino. Daniel puxou a tábua superior. A pedra raspou no chão, mas o barulho foi coberto pelo movimento da barra na entrada principal.

“Joana, mande as crianças uma por vez”, sussurrou Lídia pela abertura.

As menores vieram primeiro. Daniel as conduziu pela cozinha até Lina, que esperava junto ao muro. Quando as crianças mais velhas começaram a passar, Varek entrou no salão.

“Por que as velas continuam acesas?”, perguntou.

Um dos homens respondeu que esperavam seu sinal.

Varek caminhou até o depósito. Lídia ouviu a chave girar na fechadura.

Restavam cinco crianças, além de Joana e Rosa.

Ela entrou no vão e empurrou a última tábua com o ombro. A madeira cedeu o espaço necessário para um adulto passar de lado.

“Agora”, disse a Joana.

A porta do depósito se abriu.

Varek encontrou o chão quase vazio.

Uma menina pequena ainda estava junto à parede. Não correra porque perdera uma das botas e não queria pisar descalça na pedra gelada.

Lídia saiu do vão, agarrou a criança e voltou com ela para a cozinha. Varek viu seu rosto antes que a parede as escondesse.

“Lídia!”

Ela empurrou a menina para os braços de Daniel. Ele correu com ela até Lina. Joana e Rosa atravessaram logo depois.

Varek perseguiu-os pelo vão estreito, mas Bento entrou pela porta principal com os moradores. A casa se encheu de passos e gritos.

Lídia saiu pelo estábulo. Na rua de trás, contou as crianças junto com Rosa.

Vinte e duas.

Contou outra vez.

Joana percebeu quem faltava antes de ouvir o nome.

“Mateus entrou na passagem depois de mim.”

Lina apontou para a trilha que saía da aldeia.

Na neve havia pegadas de um menino e marcas profundas de botas adultas seguindo para o desfiladeiro.

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