"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 6
A Casa que Eles Escolheram
Lídia alcançou a porta do porão antes que ela se abrisse por completo.
Do outro lado estava Rosa, com uma criança no colo e outras três atrás dela.
“Fui eu”, disse. “Joana já está esperando na passagem.”
Lídia soltou o ar que prendia.
“Feche a porta depois do último grupo. Ninguém volta para buscar cobertores.”
Rosa assentiu e desapareceu na escada.
Lina, ainda junto à parede, olhou para o sino da aldeia. Seu aviso não identificava a pessoa que levantara a tranca; apenas dizia que alguém a abriria para Varek. Lídia não podia deixar o medo transformar todos os seus aliados em inimigos.
Pediu a Tomás que ficasse na boca da passagem até a saída da última criança. Daniel levaria os dois homens feridos pela rota mais curta até a oficina. Joana contaria as crianças quando chegassem.
“E a senhora?”, perguntou Rosa ao voltar.
“Vou ficar onde Varek espera me encontrar.”
Bento entrou com a espada desembainhada. Trazia notícias do depósito: o homem capturado escapara. Um dos guardas estava caído, atordoado por uma pancada, e o outro havia sumido.
“Foi ele quem soltou o prisioneiro?”, perguntou Lídia.
“Não sei. Chama-se Nuno. Mora aqui desde criança.”
Lina levantou a cabeça ao ouvir o nome.
“Ester falou de um Nuno. Ele levava farinha ao acampamento.”
Bento empalideceu.
Nuno era seu sobrinho.
Lídia não perdeu tempo pedindo explicações. Mandou Bento reunir os moradores diante da casa de pedra. Precisava que todos vissem a razão de suas ordens, inclusive os que haviam duvidado dela.
A neve caía em flocos pesados quando ela subiu nos degraus do poço com a lista antiga na mão.
“Trinta e dois invernos atrás, alguém contou nossas crianças para os homens que as levaram.”
Um murmúrio atravessou o grupo.
Joana ficou ao lado dela e ergueu a faixa de Ester.
“Minha irmã está viva. Uma menina que veio do acampamento trouxe isto.”
Vários moradores avançaram com perguntas. Bento pediu silêncio, mas Lídia levantou a mão antes dele.
“Se sairmos agora para procurá-la, Varek encontrará as crianças que estão aqui. Quem quiser ajudar Ester vai primeiro ajudar a mantê-las vivas.”
Ela mostrou os sinais ao lado dos nomes. Explicou o celeiro, a chave roubada e a lanterna na encosta. Não acusou Bento. Disse apenas o nome de Nuno e o que Lina ouvira.
Bento não tentou defendê-lo.
“Vou encontrá-lo”, falou.
“Você ficará aqui até terminarmos de mover as crianças. Ele pode querer que nos espalhemos pela aldeia.”
A decisão custou a Bento mais do que a Lídia. Ela viu isso em seu rosto. Ainda assim, ele guardou a espada e passou a orientar os moradores.
Do outro lado da rua, Tomás apareceu à porta da oficina e ergueu cinco dedos. Cinco crianças já tinham atravessado.
Logo depois, outras quatro.
Lídia desceu do poço e levou Daniel para dentro da casa. Mostrou-lhe as vigas sob o telhado, a corda visível que terminava num suporte secundário e a verdadeira, passada por uma argola de ferro junto à chaminé.
“Se Varek cortar a primeira, uma parte da neve cai sobre o pátio”, explicou. “Ele vai achar que descobriu meu plano.”
“E a segunda?”
“Solta a neve dos dois lados. Precisamos que todos estejam longe das portas quando eu puxá-la.”
Daniel examinou a madeira.
“Esta viga está rachada.”
“Eu sei. O peso não aguenta muito mais.”
“Então vá com as crianças. Posso cuidar daqui.”
“Você conhece os homens lá fora. Eu conheço esta casa. Precisamos dos dois.”
Daniel a encarou por um instante. Havia anos demais entre eles para que uma conversa resolvesse tudo. Lídia percebeu que ele queria dizer alguma coisa, mas Tomás chamou do corredor.
Dezessete crianças haviam atravessado.
Restavam seis.
Uma trompa soou na montanha. Desta vez, foi respondida por outra junto ao rio. Varek dividira os homens.
Bento levou metade dos moradores para proteger a oficina. Joana permaneceu na saída da passagem. Lídia posicionou barris de areia junto à porta da frente; se os invasores trouxessem fogo, água congelaria depressa demais sobre a madeira e o chão.
Um golpe atingiu a casa de Joana.
Depois outro.
Homens subiram em seu telhado baixo e lançaram ganchos na direção da casa de pedra. Dois ferros se prenderam às estacas. As cordas se enroscaram exatamente como Lídia planejara.
Um invasor tentou atravessar, perdeu o apoio e caiu entre as casas.
Os moradores gritaram. Foi a primeira vez naquela noite que o medo deles se transformou em coragem.
Do bosque surgiu um homem de capa escura, acompanhado por Nuno.
Varek era mais velho do que Lídia lembrava. Sua barba embranquecera nas pontas. Mesmo à distância, ela reconheceu a maneira como mantinha a mão pousada sobre o punho da espada.
Nuno apontou para a casa.
“Ela escondeu as crianças no porão”, anunciou.
Lídia abriu a janela do andar principal para que os dois a vissem.
“Se sabe onde estão, venha buscá-las.”
Varek sorriu.
“Passei metade da vida ouvindo que aquela mulher perdeu a razão. Agora vejo que ainda gosta de me esperar.”
Daniel surgiu ao lado dela.
O sorriso de Varek desapareceu por um momento.
“Você trouxe meus homens até aqui, Caio.”
“Trouxe você para longe deles”, respondeu Daniel.
Varek fez um sinal. Tochas acesas apareceram atrás dos barris no pátio. Os invasores haviam usado a discussão diante do poço para se aproximar da porta dos fundos.
Lídia fechou a janela.
“Quantas crianças faltam?”, perguntou a Tomás.
“Três.”
Ela arrancou a tampa de um barril e lançou areia sobre a primeira tocha que entrou pela fresta da porta. Daniel bloqueou a segunda com uma tábua. Do porão, ouviu-se o choro abafado de uma criança.
Varek também ouviu.
“Estão aí”, gritou. “Arrebentem a porta.”
Tomás correu para buscar as últimas três. Lídia e Daniel recuaram até a escada do sótão, obrigando os invasores a procurar passagem pelo telhado. Precisavam ganhar apenas mais alguns instantes.
Um homem de Varek subiu pela parede e alcançou a corda visível. Cortou-a com a faca.
A neve presa sobre o pátio caiu de uma vez, derrubando duas tochas e os homens que as carregavam.
Varek recuou, protegido pela saliência da parede. Quando viu que o telhado permanecia inteiro, soltou uma gargalhada.
“Era só isso?”
Lídia não respondeu. Observava Tomás na porta do porão.
Ele ergueu três dedos, fechou a mão e desapareceu na passagem.
Todas as crianças haviam saído.
No alto da casa de Joana, porém, Nuno puxou outra corda. Um gancho passou sobre as estacas e se prendeu à viga rachada que Daniel identificara.
A madeira rangeu. Se partisse, abriria um caminho direto para o sótão.
Daniel correu pela escada interna para soltar o ferro antes que os homens atravessassem. Lídia foi atrás, levando o machado. Pela janela, viu Varek mandar os invasores se concentrarem dos dois lados da casa.
Era a posição para a qual ela os atraíra.
Ela alcançou a argola junto à chaminé e pôs a mão na verdadeira corda de liberação. Bastava puxá-la para lançar sobre eles a neve acumulada nas duas faces do telhado.
Mas Daniel ainda estava do lado de fora, apoiado na viga rachada, tentando desprender o gancho.
A madeira cedeu sob seu pé.
Ele conseguiu agarrar uma estaca com a mão esquerda. Abaixo dele, Varek ergueu os olhos e compreendeu o que Lídia estava prestes a fazer.
“Puxe, velha”, gritou. “Vamos ver se salva a aldeia ou o seu filho.”
Lídia firmou os pés, segurou a corda com as duas mãos e olhou para o ponto onde Daniel pendia sobre a queda.
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