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"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 4

正文开头

A Menina na Neve

“Não corte! Ester está viva!”

Lídia soltou o machado, mas manteve a corda presa sob a bota.

A figura do outro lado da fresta puxou mais uma vez. Era pequena, rápida e leve demais para ser um dos homens que ela vira na rua. Daniel alcançou o sótão atrás dela e se ajoelhou junto à abertura entre as telhas.

“Se eu levantar a tábua, você consegue entrar?”, perguntou ele.

“Não”, respondeu a voz. “Eles vão me ver.”

Lídia afastou Daniel com o braço.

“Quem é você?”

Houve uma pausa. A neve batia na madeira como areia lançada contra uma porta.

“Lina. Ester mandou que eu encontrasse a casa com o telhado de pontas.”

“Quantos anos tem?”

“Quatorze.”

“Por que trouxe a roupa dela?”

“Para a irmã acreditar.”

Lídia olhou para a tira de tecido que segurava. Uma menina capaz de entrar pelo telhado também podia ter sido enviada por Varek. Mas aquela estava exposta ao vento, com uma corda fina demais para suportar uma fuga rápida.

“Como Ester sabe que Joana ainda vive aqui?”

“Ela não sabe. Disse que eu procurasse Joana na casa perto do poço. Se não a encontrasse, devia procurar a senhora.”

Um assobio curto soou na rua.

Lina se calou.

Daniel apagou a lamparina. Pela fresta, Lídia viu uma tocha passar junto à parede do pátio. O homem que a carregava parou para olhar o telhado.

Lídia soltou a corda do pé e a enrolou duas vezes no pulso.

“Na próxima rajada de vento, suba até a janela do sótão. Daniel vai abri-la.”

A tocha seguiu adiante. Lina apareceu momentos depois, agarrada à beirada da janela. Daniel a puxou para dentro. Ela vestia uma capa grande demais, com uma das mangas amarrada para não atrapalhar seus movimentos. Tinha o rosto arranhado e as mãos roxas de frio.

Antes que alguém lhe oferecesse água, perguntou:

“Joana está viva?”

Lídia levou a menina até a oficina e mandou Tomás vigiar a janela por onde ela entrara. Rosa trouxe uma manta. Lina a aceitou, mas não se sentou.

Joana chegou poucos minutos depois. Ao ver a faixa bordada, apoiou a mão na bancada.

“Ester fez isso quando tinha onze anos.”

“Ela ainda sabe costurar”, disse Lina. “Consertou minha capa.”

“Então onde está?”

“No acampamento junto ao desfiladeiro.”

Joana deu um passo em direção à porta. Lídia segurou seu braço.

“Há homens armados entre nós e o desfiladeiro. Deixe Lina terminar.”

A menina contou que Ester trabalhava na cozinha do acampamento de Varek. Não era prisioneira atrás de grades, mas precisava da autorização dele para sair; os dois filhos que criara ali permaneciam sob a vigilância dos homens. Quando soubera que o grupo marcharia para Vale das Gralhas, dera a Lina a faixa e lhe mostrara uma trilha usada pelos pastores.

“Por que não veio com você?”, perguntou Joana.

“Porque precisava manter os guardas ocupados. E porque os filhos dela ainda estão lá.”

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A resposta fez Joana se sentar.

Daniel se aproximou devagar.

“Ester me conhecia como Caio?”

Lina assentiu.

“Foi ela quem me disse que você nasceu nesta aldeia. Varek falava que tinha inventado essa história.”

Lídia observou o rosto de Daniel. Ele não pareceu surpreso por Ester conhecê-lo, mas ficou imóvel ao ouvir que ela confirmara sua origem.

“Há mais alguém vivo dos nove que desapareceram?”, perguntou Lídia.

“Eu conheço três nomes. Ester sabe dos outros.”

Joana levou a faixa ao rosto. Lídia queria deixá-la fazer perguntas até amanhecer. A aldeia, porém, talvez não chegasse ao amanhecer se ninguém fechasse o pátio.

Ela pediu a Lina que desenhasse a trilha do desfiladeiro na serragem. A menina mostrou uma passagem estreita atrás da casa comunal e uma saída junto às árvores.

“Os homens de Varek conhecem esse caminho?”, perguntou Lídia.

“Ele conhece. Os outros, não todos.”

“E as marcas no pergaminho antigo?”

Lídia desdobrou a lista diante dela. Lina examinou os círculos e traços.

“Vi sinais parecidos nas tábuas do celeiro de Varek. Ele marca quantas pessoas moram numa casa antes de mandar homens buscá-las.”

Joana olhou para Lídia. As marcas ao lado dos nomes das crianças haviam sido feitas antes do antigo ataque. Era uma lista de alvos.

Lídia pediu a Daniel que acompanhasse Lina até Rosa e fosse com as duas organizar a passagem das crianças para a oficina. Quando ficaram a sós, mostrou a Joana o pergaminho inteiro.

“Bento ditou os nomes ao escrivão”, disse.

“Ele tinha dezesseis anos.”

“Era velho o bastante para contar as pessoas de cada casa. Ainda não sabemos se foi ele quem fez isso.”

Joana apertou a faixa da irmã.

“Vou perguntar na frente de todos.”

“Se ele ajudou Varek, avisá-lo agora pode custar a vida de Ester e dos filhos dela. Primeiro tiramos as crianças daqui.”

Um sino tocou no fim da rua.

Uma vez. Depois três, muito rápidas.

Tomás entrou na oficina sem bater.

“Estão abrindo o celeiro. Bento mandou todo mundo levar seus sacos de farinha para a casa comunal.”

Lídia sentiu o peso da lista no bolso.

Concentrar toda a comida num único prédio durante um ataque era uma decisão ruim. Concentrar ali os moradores que iriam carregá-la era pior.

Ela saiu para a rua com Joana. A nevasca diminuíra o suficiente para revelar uma fila de homens e mulheres junto ao celeiro. Bento os orientava com a calma de quem organizava uma colheita.

Lídia subiu nos degraus do poço.

“Deixem os sacos onde estão.”

Bento virou-se.

“Se queimarem o celeiro, perderemos a comida.”

“E se nos reunirmos todos aqui, eles só precisarão cercar esta rua.”

Os carregadores hesitaram. Bento se aproximou dela, mantendo a voz baixa.

“Não transforme sua suspeita em ordem para a aldeia.”

“Então explique por que mandou abrir as portas antes de colocar guardas nas casas.”

“Porque precisamos trabalhar depressa.”

Atrás dele, um dos rapazes retirou a barra da porta do celeiro. De dentro veio um grito.

O rapaz recuou, tropeçando.

Um homem armado já estava entre os sacos de trigo.

Ele não entrara com a fila.

Estivera escondido lá dentro o tempo todo.

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