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"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 3

正文开头

Os Nomes que Ficaram

Lídia segurou o cavalo de madeira pelo pescoço.

Uma das pernas havia sido consertada com um pedaço de linha vermelha, reparo que ela mesma fizera no primeiro inverno após o desaparecimento de Daniel. O brinquedo saíra do quarto naquela noite.

Ela subiu a escada com Rosa logo atrás.

A porta do quarto estava entreaberta.

Nada parecia revirado. A manta permanecia dobrada aos pés da cama. Sobre a prateleira, havia um retângulo limpo em meio à poeira: o lugar onde o cavalo ficara.

“Quem entrou aqui hoje?”, perguntou Lídia.

“Eu não”, respondeu Rosa.

“E ontem?”

“Trouxe lenha até a escada. Não passei da porta.”

Lídia examinou o chão. Perto da janela havia um pequeno monte de neve derretendo. O trinco de dentro estava levantado.

A pessoa que levara o cavalo conhecia a casa o bastante para subir pela parede do fundo. Também sabia que aquele objeto chamaria sua atenção.

Ela devolveu o brinquedo à prateleira, mas não fechou a janela. Abriu-a mais um pouco, como se nada tivesse percebido, e colocou sob o peitoril uma tigela rasa cheia de farinha.

“Quer que volte?”, perguntou Rosa.

“Quero saber se já saiu.”

Na casa comunal, os moradores discutiam tão alto que Lídia os ouviu antes de entrar. Bento tentava convencer três famílias a levar os filhos para os próprios porões. Tomás insistia que os invasores preferiam telhados baixos.

“Bento quer espalhar as crianças”, disse Rosa.

“Se espalhá-las agora, terão de atravessar a rua.”

Lídia entrou e bateu a régua de madeira sobre a mesa.

“Há homens na aldeia. Um esteve dentro da minha casa.”

O silêncio veio de uma vez.

Joana, que perdera uma irmã na antiga invasão, foi a primeira a falar.

“Viu o rosto dele?”

“Não. Mas abriu a janela do quarto de Daniel e pegou um brinquedo.”

Bento cruzou os braços.

“Talvez um dos três homens que a senhora acolheu.”

“Eles chegaram depois que comecei a vigiar a porta. O trinco da janela foi mexido antes de a neve engrossar.”

Ela mostrou a linha de água deixada pelo gelo no cabo do cavalo. Conhecia bem o frio daquela casa. Se o brinquedo tivesse sido posto do lado de fora havia poucos minutos, ainda estaria coberto de neve; alguém o deixara sob a janela antes da primeira trompa soar.

“Quem sabe que meu filho dormia naquele quarto?”

“Todos nós”, disse Bento.

“Quem sabe que a janela abre por fora quando a madeira encolhe?”

Ninguém respondeu.

Lídia passou os olhos pelos rostos conhecidos. Alguns haviam ajudado a procurá-lo anos atrás. Outros eram jovens demais para lembrar. Não pretendia acusar alguém apenas porque tinha medo.

“Vou precisar de gente para fechar o acesso ao pátio de Joana e trazer os barris de areia do celeiro”, disse. “Quem não puder carregar, que vigie as janelas. Cada casa acenderá uma vela no andar de cima e deixará o andar de baixo escuro.”

正文1

Tomás levantou a mão.

“Para parecer que estamos todos lá em cima?”

“Para enxergarmos quem tenta passar pela rua.”

Bento assentiu, embora parecesse contrariado.

“E as crianças?”

“Ficam comigo até termos uma passagem segura.”

Joana levou Lídia a um canto da sala. Tirou de dentro da roupa um pedaço de pergaminho dobrado.

“Guardei isto depois da última invasão.”

Era uma lista de nomes, feita pelo antigo escrivão quando os moradores procuraram os desaparecidos. Daniel estava em terceiro. Joana apontou para o nome de sua irmã, Ester, em sexto.

Ao lado de alguns nomes havia marcas quase apagadas: círculos, traços e pequenos riscos.

“Eu achava que eram anotações de quem procurou em cada trilha”, disse Joana. “Mas veja o primeiro e o quinto.”

Lídia aproximou o pergaminho da vela.

As marcas não indicavam trilhas. Correspondíam ao número de adultos que viviam em cada casa. Junto ao nome de Daniel havia dois traços. O marido dela ainda estava vivo quando aquela lista fora preparada.

“Quem escreveu isto?”, perguntou.

“O escrivão, depois que as crianças sumiram.”

“Quem ditou os nomes?”

Joana hesitou.

“Bento.”

Lídia dobrou o pergaminho. Bento era jovem na época, mas participara das buscas. Poderia ter informado as famílias ao escrivão depois do ataque. A marca de Erik, porém, precisava de outra explicação.

Ela procurou uma data.

O pergaminho estava cortado na parte de cima.

“Por que guardou só esta metade?”

“O resto pegou fogo quando a casa do escrivão queimou. Eu estava lá para pedir outra busca por Ester. Encontrei isso no chão.”

Da janela, Lídia viu Bento distribuindo tarefas. Ele não parecia um homem prestes a fugir. Tampouco parecia surpreso com a notícia de que alguém entrara na casa dela.

Ela decidiu não mostrar a lista a mais ninguém.

Na volta, encontrou o desconhecido esperando na oficina. Tomás continuava junto à porta, segurando uma pá de ferro.

“Rosa me disse que acharam um brinquedo”, falou o homem.

“Ela lhe disse onde?”

“Não.”

Lídia colocou o cavalo de madeira sobre a bancada.

Ele tocou o animal com a ponta de dois dedos.

“A perna quebrou porque tentei fazê-lo pular do parapeito. A senhora disse que cavalo não voava. Eu respondi que aquele ainda não tinha aprendido.”

A lembrança não saíra da boca de Lídia em trinta e dois anos.

Tomás baixou a pá.

“Daniel?”

“Talvez”, respondeu Lídia. “Ainda preciso que ele nos ajude a manter as crianças vivas.”

O homem recolheu a mão.

“Posso mostrar como Varek distribui os homens.”

Ela afastou a serragem da bancada e entregou-lhe um pedaço de carvão. Ele desenhou a casa, o celeiro, o pátio de Joana e a trilha do rio. Indicou onde deixariam cavalos protegidos do vento e quais janelas podiam ser alcançadas sem escadas.

Quando marcou a passagem atrás da casa comunal, Lídia o interrompeu.

“Essa passagem foi bloqueada no último outono.”

“Então não sabem.”

“Quem lhe mostrou o resto?”

“Vi quando atravessei a aldeia.”

“A parede atrás da casa de Joana não pode ser vista da rua.”

Ele largou o carvão.

“Varek recebeu informações de alguém daqui.”

Lídia tirou o pergaminho do bolso, mas manteve-o fechado.

“Recebe há mais tempo do que imaginamos.”

Uma batida veio do quarto acima deles.

Depois outra.

Tomás correu para a escada. Lídia o deteve e apontou para a tigela de farinha que trouxera ao sair. Seu conteúdo continuava intocado; quem estivesse no quarto entrara por outro caminho.

Ela fez sinal para que o homem pegasse a espada deixada ao alcance da bancada. Os dois subiram, com Tomás alguns degraus atrás.

A porta do quarto estava fechada.

Lídia a empurrou com o cabo do machado.

A janela permanecia aberta. No chão havia neve, uma corda fina e pegadas pequenas demais para pertencerem a qualquer dos invasores adultos.

Sobre a manta dobrada, alguém deixara uma tira de tecido infantil. Nela, bordado com linha azul já desbotada, estava o nome

Ester

.

Joana pensava que a irmã havia morrido na montanha.

Lídia ouviu um movimento atrás da parede do corredor. Virou-se a tempo de ver uma figura magra desaparecer pela abertura que levava ao sótão.

“Pare!”, gritou.

A figura correu. Lídia a seguiu até a escada do telhado, onde a corda fina desaparecia por uma fresta entre as telhas.

Pela abertura, alguém do lado de fora começou a puxá-la.

Lídia prendeu a corda sob o pé. Do outro lado veio um puxão desesperado.

Então uma voz jovem, quase perdida no vento, gritou:

“Não corte! Ester está viva!”

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