localização atual: Novela Mágica O Telhado que Todos Chamavam de Loucura Capítulo 2
标题上

"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 2

正文开头

O Homem que Sabia a Canção

Lídia não abriu a porta.

“Afaste-se dela”, ordenou.

O homem obedeceu. Recuou três passos, até ficar à vista pela janela estreita. Os dois companheiros se sentaram na neve; um deles pressionava a mão contra o lado do corpo.

“Fale de onde está.”

“Seus vizinhos vão nos ver.”

“Já estão vendo.”

Nas casas em frente, sombras se moviam atrás das janelas. Bento atravessou o pátio com o arco erguido e parou ao lado da cerca.

“Quem são eles?”

“Um homem que diz conhecer meu filho.”

O desconhecido olhou para Bento, mas continuou falando com Lídia.

“Meu nome é Daniel. Pelo menos era esse o nome que me deram antes de me chamarem de Caio.”

Lídia sentiu uma pontada no peito. Não permitiu que aparecesse no rosto.

“Quem lhe deu o outro nome?”

“Varek.”

Bento abaixou o arco por um instante. Conhecia o nome. Todos os adultos que tinham vivido a antiga invasão o conheciam.

Lídia encostou a testa na madeira fria da porta. Precisava fazer as perguntas certas antes que a esperança fizesse o trabalho dos invasores.

“Você disse que o homem atrás de você contou o que fez com Daniel. Por que falaria disso?”

“Porque sabe que vim procurar esta casa. Quer que eu chegue primeiro.”

“Por quê?”

“Para a senhora me deixar entrar.”

A resposta era honesta o bastante para assustá-la.

Uma flecha atingiu a cerca junto aos pés de Bento.

“Para dentro!”, gritou Lídia.

Bento correu para trás da parede de pedra. O homem diante da porta se jogou sobre um de seus companheiros e o arrastou para fora da linha de tiro. Uma segunda flecha passou por cima deles.

Lídia abriu apenas a portinhola lateral, pequena demais para um adulto atravessar.

“Os feridos entram primeiro. Sem armas.”

“Ele não aguenta andar”, disse o desconhecido.

“Então carregue.”

Bento apareceu pela lateral e ajudou a revistar os três homens. Tirou uma espada, duas facas e um gancho pequeno debaixo das capas. Só depois Lídia destravou a porta maior.

Rosa esperava no corredor com uma panela de água quente. Trabalhava com ervas e curativos desde que perdera o marido na mesma noite em que Daniel desaparecera. Não fez perguntas ao ver o sangue.

“Na mesa”, disse ao ferido.

Lídia voltou a barrar a porta. Enquanto Rosa cuidava dele, conduziu o desconhecido até a oficina. Ali havia uma janela voltada para o pátio e outra para o caminho da montanha. Ninguém poderia entrar sem que ela percebesse.

“Mostre as mãos.”

Ele as estendeu. As palmas eram atravessadas por cicatrizes antigas; a mais recente, perto do polegar, ainda estava vermelha.

Lídia procurava uma marca que lembrava bem: quando menino, Daniel enfiara a mão numa armadilha de raposa e rasgara a base do dedo mínimo. O homem à sua frente tinha uma linha esbranquiçada no mesmo lugar.

Poderia ser coincidência.

Ele percebeu o que ela observava.

“Foi perto do rio”, disse. “Papai ficou furioso porque eu mexi na armadilha.”

正文1

“Seu pai ficou com medo.”

“Eu lembro de ele gritar.”

“Gritou depois que viu o sangue parar.”

O homem ergueu os olhos.

Por um momento, Lídia enxergou o menino que tentara ser corajoso enquanto ela lavava seu ferimento. Mas também viu um adulto capaz de repetir informações arrancadas de alguém.

“Por que errou a pergunta da porta?”

“Porque não lembro do quarto inteiro. Vejo pedaços. A janela. O cheiro da madeira. Um cavalo. Às vezes nem sei se são lembranças minhas.”

Lídia se voltou para a bancada. A régua de madeira de seu marido repousava ali, marcada pelas iniciais dos dois.

“Você sabia da canção.”

“Sonhei com ela a vida toda.”

“Cantou o final errado.”

Ele levou a mão à nuca.

“A mulher que me criou terminava daquele jeito.”

Lídia quase perguntou que mulher. Não o fez. Havia mais urgência do lado de fora.

“Quantos vêm com Varek?”

“Vi doze saindo do abrigo da montanha. Outros podem ter seguido pela trilha do rio.”

“O que querem?”

“O trigo guardado no celeiro de Bento. E as crianças.”

A porta da oficina se abriu. Bento entrara a tempo de ouvir as últimas palavras.

“Por que crianças?”

O homem olhou para ele com evidente desprezo.

“Porque sabem que vocês as escondem na casa de pedra sempre que há tempestade. Fizeram isso trinta e dois anos atrás.”

“Não havia abrigo naquela época”, rebateu Bento.

“Havia crianças nesta rua.”

Bento avançou, mas Lídia colocou a régua de madeira entre os dois.

“Discutam depois de manter as que estão aqui vivas.”

Ela perguntou ao homem por onde os invasores atacariam primeiro. Ele desenhou com o dedo três caminhos na serragem sobre a bancada: o telhado dela, o celeiro e a passagem estreita atrás da casa de Joana.

Lídia observou o desenho.

“Como sabem que Joana retirou as pedras daquele muro no verão?”

“Não sei.”

“Você passou por lá quando entrou na aldeia?”

“Não.”

Então alguém de dentro observara a mudança e avisara aos homens da montanha.

Lídia mandou Bento reunir os moradores na casa comunal. Pediu a Rosa que mantivesse os feridos onde pudesse vê-los. O desconhecido permaneceu na oficina, com Tomás vigiando a única porta.

Antes de sair, Lídia tirou do bolso o pedaço de couro preso à estaca e o colocou sobre a bancada.

O homem parou de respirar por um instante.

“De quem é essa marca?”, ela perguntou.

“Dos homens de Varek. Três cortes para quem conhece os caminhos.”

“Você a usa?”

“Usei.”

Ele abriu a capa e mostrou, no ombro da túnica, três marcas antigas costuradas com linha escura. Não tentou escondê-las.

“Fugi há seis dias. Aqueles dois vieram comigo.”

“E Varek os seguiu até a minha casa?”

“Seguiu a mim. Esta aldeia já estava no caminho dele.”

Lídia pegou o couro. A explicação podia ser verdadeira. Também podia ser exatamente o que Varek queria que ela acreditasse.

Do corredor veio um ruído de passos apressados. Rosa apareceu à porta.

“Os meninos ouviram a trompa. Querem saber se podem ir para casa.”

“Não podem.”

“Uma menina disse que viu alguém sob a janela do porão.”

Lídia correu.

A janela baixa dava para o pátio coberto de neve. O lado de fora parecia vazio, mas havia pegadas recém-formadas junto à parede. Alguém se ajoelhara ali e afastara o gelo da abertura.

Ela fechou a portinhola de madeira e mandou Rosa levar as crianças para a parte mais funda do porão.

Quando se ergueu, viu um objeto entre as pedras da janela: um cavalo de madeira, pequeno o bastante para caber na palma de sua mão.

Lídia o reconheceu.

O marido fizera aquele cavalo para Daniel.

Ela o guardava sobre a prateleira do quarto havia trinta e dois anos.

Alguém entrara na casa antes da tempestade.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部