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"O Telhado que Todos Chamavam de Loucura" Capítulo 1

正文开头

O Primeiro Gancho

O gancho de ferro atravessou a nevasca e atingiu o telhado de Lídia Valente com um estrondo.

No porão, uma criança gritou.

Lídia largou o balde que carregava, subiu a escada estreita e alcançou o sótão antes que viesse o segundo golpe. Pela fresta da janela, viu uma corda escura esticada entre sua casa e as árvores do outro lado da rua.

Alguém puxou o gancho.

Ele não se moveu.

Os dentes de ferro haviam ficado presos entre duas das estacas que ela passara três dias pregando no telhado.

Lídia ouviu um homem praguejar na escuridão. Outro ordenou que puxassem com mais força.

Ela agarrou o machado encostado na parede e cortou a corda junto à janela.

Do lado de fora, houve um grito curto, seguido do baque de um corpo na neve.

Só então a porta do sótão se abriu.

Tomás, o padeiro, apareceu com uma lanterna na mão. Tinha o rosto tão pálido quanto a farinha que costumava cobrir seus braços.

“Era isso que a senhora estava esperando?”

“Apague a luz.”

“Tem gente lá fora.”

“Eu sei. Apague.”

Tomás obedeceu. Os dois ficaram imóveis enquanto outro gancho raspava as telhas. O ferro encontrou uma estaca, deslizou por ela e caiu do outro lado da casa.

Durante a manhã, Tomás tinha rido ao vê-la trabalhar sobre a neve.

Dissera que nem os corvos pousariam naquele telhado horroroso.

Agora apertava a lanterna apagada contra o peito.

“Quantos são?”

Lídia se ajoelhou diante da janela. Entre as casas de pedra, vultos avançavam curvados, protegidos por capas grossas. Um deles trazia uma espada. Outro arrastava um rolo de corda.

“Mais do que nós dois podemos enfrentar aqui em cima.”

Ela recuou e puxou a trava de madeira que separava o sótão da parte habitada da casa.

“Vá até o porão. Diga a Rosa para manter as crianças longe da escada. Ninguém sai, mesmo que ouça minha voz chamando.”

Tomás franziu a testa.

“Mesmo que seja a senhora?”

“Principalmente se parecer a minha voz.”

Ele desceu sem discutir.

Lídia ficou mais um instante junto à janela. Conhecia aquela maneira de lançar os ganchos: dois homens puxavam da rua enquanto um terceiro procurava apoio na parede. Tinham usado a mesma técnica trinta e dois invernos antes.

Naquela noite, o marido dela morrera tentando fechar a abertura do telhado. Daniel, com dez anos, desaparecera antes do amanhecer.

Os vizinhos diziam que ele havia morrido na montanha.

Lídia nunca encontrara o corpo.

Durante décadas, contara aos moradores o que vira: os homens sobre as casas, as cordas lançadas por cima das portas barradas, as crianças levadas enquanto os adultos procuravam invasores nas ruas. Com o tempo, a história se transformara numa prova da suposta loucura dela.

Naquele inverno, quando as primeiras marcas de ferraduras surgiram junto à trilha do norte, Lídia comprou madeira, afiou estacas e voltou a subir no telhado.

Ninguém quis ajudá-la.

正文1

Um estalo veio da parede externa. Um dos homens havia encontrado as pedras que se projetavam junto à chaminé.

Lídia ergueu o machado e avançou até a pequena abertura por onde limpava a fuligem. Viu dedos enluvados aparecerem na borda.

“Se subir mais um palmo, corto a corda”, avisou.

Os dedos desapareceram. Uma voz respondeu lá embaixo:

“Não precisa terminar assim, velha.”

Lídia conhecia aquelas palavras.

O homem que levara Daniel dissera quase a mesma coisa ao marido dela.

Ela atingiu a corda com o machado. O homem caiu contra a parede e rolou para o chão, mas conseguiu se levantar.

Do outro lado da rua, uma janela se abriu. Bento, o chefe do conselho da aldeia, surgiu com um arco nas mãos.

“Voltem para suas casas!”, gritou Lídia. “Não abram as portas.”

Bento disparou. A flecha desapareceu entre as árvores.

“Eles estão recuando!”, anunciou.

“Estão procurando outro telhado.”

Lídia apontou para a casa de Joana, cuja cobertura baixa quase tocava a de Tomás. Se os invasores atravessassem por ali, poderiam alcançar o pátio atrás de sua casa sem passar pela rua.

Bento olhou, compreendeu e correu para avisar os vizinhos.

Por alguns minutos, só houve vento.

Lídia usou o silêncio para verificar a última fileira de estacas. Encontrou um pedaço de couro preso à ponta de uma delas. A tira trazia três cortes paralelos, feitos de propósito.

Ela a guardou no bolso.

Então uma voz se ergueu perto da porta da frente.

“Mãe?”

Lídia ficou imóvel.

Durante trinta e dois anos, imaginara aquele chamado tantas vezes que já não confiava no que ouvia quando estava sozinha.

A voz veio novamente, mais firme:

“Mãe, sou eu. Preciso entrar antes que eles voltem.”

Ela desceu ao andar principal com o machado na mão. Pela fresta da porta, avistou um homem alto, de cabelos escuros molhados pela neve. Havia sangue seco junto à sobrancelha esquerda. Atrás dele, outros dois homens se apoiavam um no outro.

O desconhecido se aproximou da luz que escapava pela fresta.

Tinha pouco mais de quarenta anos.

Daniel teria quarenta e dois.

“Diga uma coisa que só meu filho saberia”, exigiu Lídia.

O homem olhou para a porta como se esperasse vê-la através da madeira.

“Papai fazia cavalos pequenos com a madeira que sobrava da oficina.”

Qualquer pessoa da aldeia poderia saber daquilo.

“Outra coisa.”

“Quando eu tinha medo das tempestades, a senhora cantava até eu dormir.”

“Qual canção?”

Ele começou a cantarolar três notas.

Lídia sentiu a mão enfraquecer sobre o machado. Eram as notas certas. Havia, porém, algo errado na maneira como ele as terminava.

Ela se lembrou de uma história que o marido contava sobre um viajante capaz de imitar vozes para entrar nas casas. Não acreditava naquela história quando era jovem. Agora tinha vinte e três crianças escondidas sob seus pés.

“Diga o que havia atrás da porta do seu quarto”, pediu.

O homem demorou a responder.

“Meu cavalo de madeira.”

Lídia apertou a tranca.

O cavalo ficava sobre a prateleira, diante da cama.

Atrás da porta havia uma marca feita por Daniel no dia em que tentou medir a própria altura com a faca do pai.

“Você não é meu filho.”

Do lado de fora, o homem bateu a palma aberta na madeira.

“Eu era pequeno. Posso ter esquecido.”

“Então por que sabe que deve me chamar de mãe?”

Ele ergueu a cabeça. Pela primeira vez, Lídia viu medo em seu rosto.

“Porque o homem que vem atrás de mim me contou quem a senhora é.”

Uma trompa soou na mata.

O desconhecido olhou para o norte e depois para a porta.

“Ele também me contou o que fez com Daniel.”

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