"A Mulher na Casa Abandonada" Capítulo 10
Os R$ 127 Milhões
"Esse dinheiro desapareceu."
Helena continuou olhando para a última linha da planilha.
R$ 127.000.000 haviam saído do circuito financeiro do Grupo Vasconcelos.
Boa parte já estava ligada às empresas controladas por Caio.
Mas não tudo.
A maior transferência seguia sem destino final identificado.
Ricardo se aproximou.
"Quanto?"
O investigador apontou para o valor.
"Quarenta e oito milhões."
Marcelo Nogueira franziu a testa.
"Uma única transferência?"
"Foi dividida depois."
Helena ergueu os olhos.
"Quantas vezes?"
"Dezessete."
Ela puxou a planilha.
"Me dê os registros."
Ricardo tocou no braço da esposa.
"Helena, você está acordada desde ontem."
"Eu dormi."
"Por quarenta minutos."
"Então dormi."
"Você está grávida de sete meses."
Ela olhou para ele.
"E quarenta e oito milhões acabaram de desaparecer."
Ricardo entendeu que não venceria aquela discussão.
Marcelo colocou o computador diante dela.
"Vamos trabalhar."
Nas seis horas seguintes, Helena fez aquilo que Caio jamais imaginara que ela ainda soubesse fazer.
Seguiu dinheiro.
A primeira transferência saíra de uma subsidiária do Grupo Vasconcelos para a CFS Desenvolvimento.
Da CFS, o valor fora fragmentado.
Uma parte seguiu para empresas imobiliárias.
Outra para contas de consultoria.
Outra apareceu como pagamento antecipado por terrenos.
Helena abriu o primeiro contrato.
"Este imóvel existe?"
Marcelo pesquisou.
"Existe."
"O vendedor?"
"Serra Azul Empreendimentos."
Helena soltou uma pequena risada.
"Outra empresa."
O investigador perguntou:
"De fachada?"
"Ainda não sei."
Ela abriu os registros societários.
Cinco minutos depois, encontrou o primeiro elo.
A Serra Azul pertencia a uma holding.
A holding pertencia a outra empresa.
E essa empresa tinha como procurador um homem chamado Otávio Menezes.
Helena reconheceu o nome.
"Eu vi esse homem antes."
Ricardo se aproximou.
"Onde?"
Ela abriu os documentos da hipoteca da mansão.
Ali estava.
Otávio Menezes.
Testemunha de uma das operações.
Marcelo ficou sério.
"Ele aparece em três contratos ligados a Caio."
"Agora quatro."
Helena continuou.
O segundo pagamento havia sido usado na compra de dois apartamentos de luxo em São Paulo.
O terceiro aparecia como aquisição de um terreno no interior.
O quarto fora enviado a uma administradora patrimonial.
O quinto retornara parcialmente ao Brasil como investimento.
Era uma engenharia criada para cansar qualquer pessoa que tentasse seguir a trilha.
Mas Helena não estava com pressa.
"Dinheiro roubado tem uma característica."
Ricardo olhou para ela.
"Qual?"
"Em algum momento, alguém quer usar."
Ela apontou para a tela.
"E quando usa, deixa marca."
Às quatro da tarde, encontraram a primeira conta ligada diretamente a Caio.
Às quatro e vinte, a segunda.
Às cinco, Marcelo recebeu confirmação de que dois veículos importados haviam sido comprados com recursos provenientes das empresas investigadas.
Ricardo soltou uma risada amarga.
"Ele roubou da empresa para comprar carros."
Helena respondeu:
"Não apenas carros."
Ela virou a tela.
"Havia imóveis."
Uma cobertura nos Jardins.
Uma casa em Angra dos Reis.
Dois apartamentos comprados por empresas relacionadas.
Caio havia escondido dinheiro em concreto.
Marcelo começou a enviar os dados para as autoridades responsáveis pela investigação.
Foi então que Helena encontrou algo estranho.
"Esperem."
Todos pararam.
Ela ampliou um documento.
"Esta autorização não é do Caio."
Ricardo aproximou-se.
"De quem é?"
Helena não respondeu.
Seu rosto mudou.
Marcelo olhou para a assinatura.
"Beatriz."
Silêncio.
Ricardo pegou o documento.
Era uma autorização relacionada à utilização de parte do patrimônio familiar como garantia de uma operação.
A assinatura era clara.
Beatriz Vasconcelos.
"Ela disse que não sabia."
Helena abriu outro arquivo.
"Talvez não soubesse de tudo."
Mais uma assinatura.
Depois outra.
Três documentos.
Todos assinados por Beatriz.
Marcelo respirou fundo.
"Ela autorizou operações essenciais para manter o esquema funcionando."
Ricardo ficou pálido.
"Minha mãe não entende de estrutura financeira."
Helena olhou para ele.
"Não precisa entender."
"Então pode ter assinado sem saber."
"Pode."
Helena abriu um correio eletrônico recuperado dos servidores.
"Mas isto muda as coisas."
Era uma mensagem enviada por Caio.
Beatriz aparecia entre os destinatários.
Helena leu.
"Precisamos manter essas operações fora do relatório consolidado até a troca definitiva da presidência."
Ricardo fechou os olhos.
Marcelo continuou lendo.
A resposta de Beatriz estava abaixo.
Curta.
Objetiva.
"Faça o necessário. Ricardo não pode descobrir antes da reunião."
Ricardo afastou-se da mesa.
Ninguém tentou consolá-lo.
Helena sabia que algumas dores precisavam de espaço.
Minutos depois, ele voltou.
"Ela sabia."
Helena respondeu com cuidado.
"Sabia que estavam escondendo operações de você."
"Isso basta."
"Para provar que ela participou da ocultação, ajuda muito."
Ricardo olhou para a esposa.
"Não proteja minha mãe."
"Não estou protegendo."
"Então diga."
Helena fechou o documento.
"Beatriz pode não ter planejado cada transferência."
Respirou fundo.
"Mas assinou documentos, ajudou Caio a esconder operações e usou a posição dela para impedir questionamentos."
Marcelo completou:
"Ela terá de responder por isso."
Naquela mesma tarde, as consequências começaram.
As contas pessoais de Caio vinculadas às operações suspeitas foram bloqueadas.
Dois carros de luxo foram apreendidos.
A cobertura dos Jardins entrou na lista de bens sob investigação.
Suas procurações corporativas já estavam canceladas.
Seu nome desapareceu dos acessos internos do Grupo Vasconcelos.
Em menos de vinte e quatro horas, o homem que brindara sentado na cadeira do irmão não conseguia sequer entrar no próprio correio eletrônico corporativo.
Lavínia escolheu colaborar.
Sentada diante dos investigadores, sem a barriga falsa e sem o colar de Helena, contou tudo que sabia.
"Caio disse que seria por alguns meses."
Marcelo perguntou:
"E quanto ele prometeu?"
"Dinheiro."
"Quanto?"
Lavínia abaixou os olhos.
"Um milhão e meio."
Helena permaneceu atrás do vidro da sala reservada.
Lavínia continuou.
"Ele disse que, quando Ricardo fosse afastado, Helena desapareceria."
"E você assumiria o lugar dela?"
Lavínia começou a chorar.
"Foi o que ele prometeu."
"Você sabia que os exames eram falsos?"
"Sim."
"Sabia que estavam usando a falsa gravidez para questionar a filha de Helena?"
Lavínia hesitou.
"Sim."
Marcelo anotou.
"Colaborar será considerado, mas não elimina sua participação."
Lavínia fechou os olhos.
"Eu sei."
Na manhã seguinte, Beatriz recebeu a notificação formal.
A Mansão Vasconcelos continuaria bloqueada.
Ela não poderia vender o imóvel.
Não poderia oferecê-lo novamente como garantia.
Não poderia retirar determinados bens até a conclusão do levantamento patrimonial.
Também foi afastada de qualquer função representativa ligada ao grupo.
Quando recebeu a notícia, telefonou para Ricardo.
Ele não atendeu.
Ligou novamente.
Nada.
Na terceira tentativa, Helena estava ao lado dele.
"Vai atender?"
Ricardo olhou para o celular.
"Não."
"É sua mãe."
"Eu sei."
"Um dia você vai precisar conversar com ela."
"Um dia."
Ele desligou o aparelho.
Beatriz descobriu rapidamente que perder a mansão não era sua única punição.
Convites começaram a ser cancelados.
Um jantar beneficente retirou seu nome da lista de anfitriões.
Duas associações das quais fazia parte pediram seu afastamento temporário.
Amigas que durante anos haviam disputado lugares à mesa de Beatriz deixaram de responder.
O sobrenome que ela usara como arma já não abria as mesmas portas.
Pela primeira vez, Beatriz Vasconcelos descobriu como era entrar em uma sala e perceber que ninguém queria ser visto ao seu lado.
Mas a maior perda ainda estava por vir.
Dois dias depois, o conselho do Grupo Vasconcelos voltou a se reunir.
Desta vez, não havia champanhe.
Não havia falsa gravidez.
Não havia Caio na cadeira de Ricardo.
A tutela judicial já havia preservado os ativos essenciais.
A investigação financeira continuava.
Grande parte dos R$ 127 milhões havia sido localizada ou vinculada a bens passíveis de bloqueio e recuperação.
Ricardo entrou na sala ao lado de Helena.
Todos se levantaram.
Ele voltou à cabeceira.
Cláudia abriu a reunião.
"Primeiro item: confirmação do senhor Ricardo Vasconcelos na presidência executiva."
A votação foi rápida.
Unânime.
Ricardo agradeceu.
Todos esperavam que ele começasse a anunciar como retomaria o controle absoluto do grupo.
Mas Ricardo permaneceu de pé.
"Há um segundo assunto."
Os conselheiros se entreolharam.
"Esta empresa quase foi tomada de dentro para fora."
Ele olhou ao redor.
"Não porque faltassem regras."
Fez uma pausa.
"Mas porque havia pessoas poderosas demais para serem questionadas."
Helena observou em silêncio.
Ricardo continuou.
"Durante meses, alguém investigou aquilo que nosso próprio sistema de controle não conseguiu enxergar."
Um conselheiro olhou para Helena.
Ricardo também.
"Ela encontrou empresas de fachada."
Outro conselheiro assentiu.
"Encontrou assinaturas falsas."
Ricardo continuou.
"Reconstruiu transferências. Identificou documentos fraudulentos. Descobriu a hipoteca irregular da mansão."
Helena percebeu para onde aquilo caminhava.
"Ricardo."
Ele sorriu discretamente.
"Espere."
Depois virou para o conselho.
"Estou propondo a criação de uma diretoria independente de integridade e conformidade, com autonomia para investigar qualquer operação do Grupo Vasconcelos."
Um dos conselheiros perguntou:
"Qualquer operação?"
"Qualquer."
"Mesmo da presidência?"
Ricardo respondeu:
"Principalmente da presidência."
A sala ficou em silêncio.
"Quem seria responsável?"
Ricardo olhou para Helena.
"Helena Vasconcelos."
Ela ficou imóvel.
Ricardo continuou.
"Com acesso independente aos registros financeiros, direito de solicitar auditorias e autoridade para investigar contas ligadas à família controladora."
Helena se levantou.
"Você não conversou comigo sobre isso."
"Porque sabia que você diria que precisava pensar."
"Eu preciso pensar."
Alguns conselheiros sorriram.
Ricardo respondeu:
"Então pense."
Helena cruzou os braços.
"Enquanto vocês votam?"
"Exatamente."
Cláudia perguntou:
"Coloco a proposta em votação?"
Ricardo olhou para Helena.
Ela respirou fundo.
Durante meses, Beatriz tentara convencê-la de que seu valor vinha do homem com quem se casara.
Caio acreditara que tirá-la da mansão significava tirá-la do jogo.
Agora estavam oferecendo a Helena algo muito diferente.
Não o poder de Ricardo.
O próprio poder.
"Coloque."
Cláudia iniciou a votação.
Uma mão se levantou.
Depois outra.
E outra.
Quando o último conselheiro votou, Cláudia sorriu.
"Aprovado por unanimidade."
Helena fechou os olhos por um segundo.
Ricardo estendeu a mão.
"Diretora Helena Vasconcelos."
Ela apertou.
"Não se acostume a mandar em mim."
Ricardo sorriu.
"Esse risco já passou."
Quando saíram do prédio, dezenas de jornalistas esperavam na calçada.
Câmeras avançaram.
Microfones cercaram Helena.
"Senhora Vasconcelos, Caio será denunciado?"
"Quanto dinheiro foi recuperado?"
"Beatriz sabia dos desvios?"
"Seu casamento continua?"
"É verdade que a senhora assumirá o setor de integridade do grupo?"
Helena continuou andando.
Do outro lado da rua, um veículo oficial aguardava.
Caio estava sendo conduzido para outra etapa do procedimento.
Por um instante, os olhos dos dois se encontraram.
Ele não parecia mais o homem que brindara na mansão.
Sem terno caro.
Sem cargo.
Sem carro.
Sem a cadeira do irmão.
Uma repórter conseguiu se aproximar de Helena.
"Senhora Helena!"
Ela parou.
A mulher ergueu o microfone.
"Depois de tudo que fizeram com a senhora, depois de perderem cargos, patrimônio e liberdade..."
Helena olhou para Caio.
"Você finalmente se vingou?"
As câmeras se aproximaram.
Ricardo ficou alguns passos atrás.
Helena pousou uma mão sobre a barriga.
Então respondeu:
"Ainda não."
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