"A Mulher na Casa Abandonada" Capítulo 9
A Herdeira de Mentira
"Essas eram cópias."
Caio continuou olhando para os pedaços de papel espalhados pelo carpete.
Por alguns segundos, parecia não ter entendido.
Então seu rosto mudou.
"Não."
Helena permaneceu imóvel.
"Os originais estão preservados."
Caio virou para Marcelo.
"Você está mentindo."
Marcelo fechou a pasta que carregava.
"Os documentos originais já foram entregues para preservação jurídica, e os registros digitais estão armazenados em mais de um servidor."
Caio respirou fundo.
"Isso não prova que eu fiz nada."
Um dos investigadores olhou para os papéis rasgados.
"Destruir documentos durante uma investigação não ajuda muito essa tese."
"Eu rasguei cópias."
"Porque acreditava que eram provas."
Caio fechou a boca.
Ricardo caminhou até a cabeceira da mesa.
Não sentou.
Apenas ficou atrás da cadeira que Caio ocupara minutos antes.
"Cláudia."
A secretária do conselho ergueu os olhos.
"Sim?"
"Coloque em votação a suspensão imediata de todas as funções executivas de Caio."
Beatriz se levantou.
"Ricardo, não."
Ele nem olhou para a mãe.
"Agora."
Caio riu.
"Você não pode simplesmente me afastar."
Helena respondeu:
"Ele não precisa fazer isso sozinho."
Caio virou para ela.
Helena pousou a mão sobre a pasta do instrumento fiduciário.
"Você se lembra dos quarenta e um por cento?"
O maxilar dele travou.
Cláudia abriu o registro da reunião.
"Proposta de suspensão cautelar do senhor Caio Vasconcelos de todas as funções executivas, administrativas e representativas no Grupo Vasconcelos até conclusão das investigações."
Um conselheiro perguntou:
"Com bloqueio de acesso aos sistemas?"
Ricardo respondeu:
"Imediato."
"Cartões corporativos?"
"Bloqueados."
"Procurações?"
"Revogadas."
"Autorização bancária?"
Helena olhou para Marcelo.
"Suspensa."
Caio bateu as mãos sobre a mesa.
"Vocês estão fazendo isso com base em uma armação."
Ninguém respondeu.
Cláudia começou a votação.
A primeira mão se levantou.
Depois outra.
E outra.
Caio acompanhava cada voto como se assistisse ao próprio nome desaparecer da porta de um escritório.
Quando Helena formalizou o voto correspondente à estrutura fiduciária, ele perdeu a última esperança.
Cláudia respirou fundo.
"Aprovado."
Caio ficou parado.
"Não."
Cláudia continuou.
"A partir deste momento, o senhor está suspenso de todas as funções no Grupo Vasconcelos."
"Não."
"Seu acesso aos sistemas será encerrado imediatamente."
"Eu construí esta empresa."
Ricardo finalmente olhou para ele.
"Você quase roubou esta empresa."
"Eu trabalhei aqui por quinze anos."
"E em três meses conseguiu destruir quinze anos de confiança."
Caio apontou para Helena.
"Foi ela."
Ricardo soltou uma risada amarga.
"Você desviou dinheiro e ainda quer culpar minha esposa?"
"Ela manipulou você."
"Ela descobriu o que você fez."
"Ela quer controlar tudo."
Helena respondeu:
"Se eu quisesse controlar tudo, você não teria chegado até esta reunião."
Caio congelou.
Helena continuou.
"Eu poderia ter apresentado os documentos antes."
"Então por que não apresentou?"
"Porque queria saber até onde você iria."
Ela olhou para os papéis rasgados.
"Agora eu sei."
Caio avançou um passo.
Um investigador imediatamente entrou em seu caminho.
"Não se aproxime."
"Saia da minha frente."
"Não."
Beatriz começou a chorar novamente.
"Chega. Por favor."
Ricardo virou para ela.
"Você ainda não viu tudo."
Beatriz enxugou os olhos.
"O que mais vocês querem?"
Helena respondeu:
"Lavínia."
O nome caiu na sala como uma pedra.
Beatriz empalideceu.
Caio ficou alerta.
Ricardo olhou para Marcelo.
"Onde ela está?"
"Na sala de espera do outro corredor."
"Traga."
Caio deu um passo.
"Ela não tem nada a ver com isso."
Helena ergueu uma sobrancelha.
"Você pagava dezenas de milhares por mês para uma mulher que não tem nada a ver com isso?"
Caio não respondeu.
Poucos minutos depois, Lavínia entrou.
Ainda usava o colar de esmeraldas de Helena.
A barriga artificial continuava sob o vestido.
Mas sua postura havia mudado.
Ela não parecia mais a mulher confiante da mansão.
Seu rosto estava pálido.
Quando viu os investigadores, parou na porta.
"O que está acontecendo?"
Caio respondeu rápido:
"Não diga nada."
Marcelo virou para ele.
"O senhor não representa legalmente a senhora Lavínia."
"Eu estou tentando ajudá-la."
Lavínia olhou para Caio.
Depois para Helena.
"Por que ela está aqui?"
Helena respondeu:
"Pelo mesmo motivo que você."
Lavínia engoliu em seco.
"Eu não fiz nada."
Helena olhou para a barriga.
"Tem certeza?"
Lavínia colocou as duas mãos sobre o ventre falso.
"Estou grávida."
Ninguém falou.
Helena retirou uma fotografia dos documentos preservados.
"De quantos meses?"
Lavínia hesitou.
"Seis."
Beatriz franziu a testa.
"Você disse sete."
Lavínia virou para ela.
"Eu..."
Helena perguntou:
"Seis ou sete?"
"Sete."
"Qual a data prevista para o parto?"
Lavínia abriu a boca.
Nada saiu.
Helena continuou.
"Qual o nome do obstetra?"
"Não lembro."
"Você não lembra o nome do médico que acompanha sua gravidez?"
"Estou nervosa."
Helena colocou uma folha sobre a mesa.
"É Gustavo Marcondes?"
Lavínia respirou aliviada.
"Sim."
"Ele é ortopedista."
O alívio desapareceu.
Beatriz virou lentamente para Lavínia.
"O quê?"
Helena colocou outro documento.
"A clínica confirmou."
Lavínia olhou para Caio.
Ele balançou discretamente a cabeça.
Helena viu.
"Não olhe para ele."
Lavínia voltou os olhos.
"Olhe para mim."
A voz de Helena ficou mais firme.
"Você não está grávida."
Lavínia começou a respirar rápido.
"Estou."
"Não está."
"Estou sim."
"Então podemos chamar um médico agora."
Lavínia ficou imóvel.
"Há uma clínica no prédio ao lado."
Helena deu um passo.
"Podemos fazer um exame."
"Não."
A resposta saiu depressa demais.
Beatriz levou a mão à boca.
"Por quê?"
Lavínia fechou os olhos.
Caio falou:
"Ela não precisa se submeter a nada."
Ricardo virou para ele.
"Ninguém perguntou a você."
Lavínia começou a chorar.
"Eu não queria isso."
Beatriz recuou.
"Não queria o quê?"
Lavínia tirou as mãos da barriga.
"Eu precisava do dinheiro."
O silêncio foi imediato.
Beatriz balançou a cabeça.
"Não."
Lavínia olhou para ela.
"Desculpe."
"Não."
Beatriz deu outro passo para trás.
"A criança existe."
Lavínia chorou mais.
"Não existe."
Beatriz ficou imóvel.
"O que você disse?"
"Eu nunca estive grávida."
A frase atravessou a sala.
Beatriz segurou a borda da mesa.
Helena não desviou o olhar.
Lavínia passou as mãos pelo rosto.
"Caio me procurou meses atrás."
Caio explodiu.
"Cale a boca."
Um investigador se aproximou.
"Deixe-a falar."
Lavínia apontou para Caio.
"Ele disse que precisava de alguém."
"Você está mentindo!"
"Você me pagou!"
"Para eventos."
"Para usar isso!"
Lavínia puxou o vestido para o lado apenas o suficiente para mostrar a borda do enchimento preso ao corpo.
Beatriz soltou um som sufocado.
O colar de esmeraldas balançou sobre o peito de Lavínia.
"Ele me deu a barriga falsa."
Caio bateu na mesa.
"Ela está tentando se salvar."
Lavínia virou para ele.
"Você prometeu que eu ficaria com a vida dela!"
Helena ficou absolutamente imóvel.
Ricardo fechou a mão.
"Que vida?"
Lavínia olhou para Helena.
"Ele disse que, depois que ela saísse, eu poderia ficar na mansão."
Helena respondeu:
"Continue."
Lavínia chorava.
"Disse que eu poderia usar o quarto."
Ricardo empalideceu.
"Meu quarto?"
Lavínia abaixou os olhos.
"Sim."
Helena tocou o colar.
"E isso?"
Lavínia levou a mão à joia.
"Beatriz disse que eu podia usar."
Beatriz respondeu imediatamente:
"Porque você disse que estava carregando meu neto!"
Lavínia começou a tirar o colar.
Helena interrompeu.
"Não."
Lavínia congelou.
"Pode ficar com ele por enquanto."
Beatriz olhou para Helena.
"Por quê?"
Helena respondeu:
"Porque talvez também seja apreendido."
Beatriz pareceu não entender.
Marcelo se levantou.
"Isso nos leva ao próximo ponto."
Ele retirou um documento com carimbo judicial.
Beatriz olhou para a folha.
"O que é isso?"
Marcelo entregou uma cópia para Ricardo.
"Decisão judicial emitida esta manhã."
Caio ficou tenso.
"Sobre o quê?"
Marcelo respondeu:
"Bloqueio cautelar de determinados ativos relacionados às operações investigadas."
Beatriz franziu a testa.
"Que ativos?"
"Contas vinculadas às empresas de fachada."
Ele virou a página.
"Veículos adquiridos com recursos cuja origem está sendo questionada."
Outra.
"E imóveis oferecidos como garantia em operações irregulares."
Beatriz ficou pálida.
"Imóveis?"
Marcelo olhou diretamente para ela.
"Incluindo a Mansão Vasconcelos, no Morumbi."
Beatriz gritou.
"Não!"
A voz ecoou pela sala.
"Essa casa é minha!"
Marcelo permaneceu calmo.
"A propriedade está vinculada à estrutura patrimonial utilizada como garantia."
"Eu moro naquela casa há décadas!"
"Isso não impede o bloqueio."
"Vocês não podem fazer isso comigo."
Helena olhou para ela.
Beatriz apontou.
"Foi você!"
Helena não respondeu.
"Você quer minha casa!"
"Não."
"Mentira!"
Beatriz bateu no próprio peito.
"Aquela casa pertence à minha família."
Helena deu um passo à frente.
"A minha também pertencia à minha família."
Beatriz ficou em silêncio.
Helena continuou.
"Era a casa do meu pai."
A sala permaneceu imóvel.
"Você riu quando descobriu que eu estava vivendo lá."
Beatriz apertou os lábios.
"Disse que uma mulher sem uma família poderosa por trás deveria aprender a viver com pouco."
"Eu estava com raiva."
"Disse que eu deveria sentir vergonha."
"Chega."
"Não."
Helena se aproximou mais.
"Você me viu grávida, sem carro, sem segurança, sem acesso ao dinheiro, e decidiu que aquilo provava que eu era inferior a você."
Beatriz desviou os olhos.
"Agora olhe para mim."
Ela não olhou.
Helena elevou a voz.
"Olhe para mim."
Beatriz finalmente levantou o rosto.
Helena estava com os olhos cheios de lágrimas.
Mas não chorava.
"Naquela casa de Cotia, eu aprendi a dormir com goteira."
Sua voz ficou mais baixa.
"Aprendi a carregar baldes grávida."
Respirou fundo.
"Aprendi a contar moedas."
Beatriz ficou imóvel.
"E também aprendi que eu continuava sendo eu sem motorista, sem joias e sem o sobrenome de ninguém para me proteger."
Helena apontou para os documentos.
"Minha casa revelou minha força."
Depois olhou para Beatriz.
"A sua revelou seus crimes."
Beatriz perdeu qualquer resposta.
Do outro lado da sala, Caio tentou caminhar discretamente para a porta.
Um investigador bloqueou sua passagem.
"O senhor permanece aqui."
"Eu quero meu advogado."
"Tem esse direito."
Caio olhou para Ricardo.
"Você vai deixar isso acontecer?"
Ricardo respondeu:
"Você tentou me declarar incapaz."
"Sou seu irmão."
"Helena é minha esposa."
Caio ficou em silêncio.
"E você tratou minha família como obstáculo."
Dois agentes chegaram à porta minutos depois.
Marcelo entregou a documentação.
Caio percebeu imediatamente o que aconteceria.
"Não."
Um dos agentes se aproximou.
"Caio Vasconcelos?"
"Meu advogado está vindo."
"O senhor será conduzido para prestar esclarecimentos e cumprir as determinações relacionadas à investigação."
Beatriz começou a chorar.
"Não levem meu filho."
Ricardo fechou os olhos.
Caio apontou para Helena enquanto era conduzido.
"Isso não acabou."
Helena respondeu:
"Eu sei."
Ele tentou se soltar.
"Você acha que venceu?"
"Não."
"Você não sabe de nada."
Os agentes o levaram para o corredor.
A voz dele ainda ecoou por alguns segundos.
Depois desapareceu.
Lavínia permanecia sentada, chorando.
Beatriz parecia ter envelhecido anos em menos de uma hora.
Ricardo aproximou-se de Helena.
"Acabou."
Ela olhou para ele.
"Não diga isso ainda."
Ricardo franziu a testa.
"Caio foi afastado."
"Eu sei."
"A casa está bloqueada."
"Eu sei."
"Temos a confissão da Lavínia."
Helena olhou para os documentos.
"Mesmo assim."
Antes que Ricardo perguntasse, um dos investigadores que havia saído com os agentes retornou.
Seu rosto estava sério.
"Senhora Helena."
Ela se virou.
"Sim?"
"Precisamos conversar."
Marcelo aproximou-se.
"Aconteceu alguma coisa?"
O investigador colocou uma nova planilha sobre a mesa.
"Revisamos a cadeia das transferências dos cento e vinte e sete milhões."
Helena olhou para os números.
"Encontraram mais uma empresa?"
"Encontramos um problema maior."
Ricardo franziu a testa.
"Que problema?"
O investigador apontou para a última linha.
"Nem todo o dinheiro terminou nas contas controladas por Caio."
Helena sentiu o estômago apertar.
"Quanto falta?"
Ele olhou para ela.
"A maior transferência."
Silêncio.
"Para onde foi?"
O investigador respirou fundo.
"É isso que não sabemos."
Helena olhou para o valor na planilha.
Uma única transferência.
Maior do que todas as outras.
Sem destino final identificável.
O investigador fechou a pasta.
"Esse dinheiro desapareceu."
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