"A Mulher na Casa Abandonada" Capítulo 6
O Tapa
Às nove e vinte da manhã, Helena Vasconcelos entrou sozinha no saguão da sede do Grupo Vasconcelos, na avenida Brigadeiro Faria Lima.
Nenhum advogado caminhava ao seu lado.
Nenhum segurança a acompanhava.
Ricardo não estava em lugar algum.
Helena usava um vestido de gestante simples, azul-escuro, sapatos baixos e uma bolsa pequena.
Não havia joias em seu pescoço.
Nenhum relógio caro no pulso.
Para quem a observasse de longe, parecia exatamente o que Beatriz queria enxergar.
Uma mulher derrotada.
A recepcionista reconheceu Helena e ficou imóvel.
"Senhora Vasconcelos?"
Helena sorriu.
"Bom dia, Júlia."
A jovem olhou discretamente para a barriga dela.
Depois para a entrada.
"Está sozinha?"
"Estou."
"Quer que eu avise ao conselho que chegou?"
"Ainda não."
Helena caminhou pelo saguão.
Alguns funcionários pararam de conversar.
Outros fingiram não olhar.
Os boatos sobre a esposa desaparecida de Ricardo haviam circulado durante meses.
Uns diziam que ela fugira.
Outros, que Ricardo descobrira uma traição.
Havia quem repetisse que a criança não era dele.
Caio se certificara de alimentar cada versão.
Helena sabia.
Por isso não baixou a cabeça.
Às nove e vinte e quatro, as portas do elevador se abriram.
Beatriz saiu primeiro.
Caio vinha ao lado dela.
Lavínia caminhava alguns passos atrás.
Helena reconheceu imediatamente o colar de esmeraldas em seu pescoço.
Era seu.
Ricardo havia lhe dado a joia no primeiro aniversário de casamento.
Lavínia percebeu o olhar.
Tocou o colar de propósito.
Beatriz parou no centro do saguão.
Um sorriso lento apareceu em seu rosto.
"Eu sabia."
Helena não respondeu.
Beatriz se aproximou.
"Sabia que você voltaria."
"Bom dia, Beatriz."
"Não finja educação."
Caio olhou ao redor.
Havia funcionários demais observando.
Ele baixou a voz.
"O que você está fazendo aqui?"
Helena olhou para ele.
"Vim devolver algumas coisas."
Caio sorriu.
"Finalmente."
Lavínia se aproximou.
Seu vestido claro destacava a barriga arredondada.
Helena olhou para ela por um segundo.
Agora que conhecia a verdade, era quase difícil não enxergar o volume artificial sob o tecido.
"Gostou do colar?"
Lavínia perguntou.
Helena voltou os olhos para a joia.
"Combina com você."
Lavínia pareceu surpresa.
"Não vai reclamar?"
"Por quê?"
"Era seu."
Helena sorriu.
"Algumas pessoas gostam de usar coisas que pertencem aos outros."
Caio perdeu o sorriso.
"Chega."
Helena virou para ele.
"Ficou ofendido?"
"Você veio entregar o que ainda está com você. Faça isso e vá embora."
"Estou esperando."
"Esperando o quê?"
"Ser convidada a subir."
Caio riu.
"Para a reunião?"
"Sim."
"Você não participa."
Helena inclinou levemente a cabeça.
"Tem certeza?"
Beatriz avançou.
"Você não tem mais lugar nesta empresa."
"Curioso."
"O quê?"
"Ouvir isso de uma mulher que nunca trabalhou um único dia aqui."
Algumas pessoas no saguão desviaram o rosto para esconder a reação.
Beatriz percebeu.
Seu sorriso desapareceu.
"Você continua arrogante."
"Não."
Helena colocou a mão sobre a barriga.
"Eu só parei de fingir que você me assusta."
Beatriz aproximou-se ainda mais.
"Olhe para você."
Helena permaneceu imóvel.
"Eu estou olhando."
"Esse vestido barato. Esses sapatos. Nem uma joia."
Beatriz apontou discretamente para Lavínia.
"Enquanto isso, ela está usando aquilo que você nunca soube merecer."
Helena olhou novamente para o colar.
"Se você soubesse quanto custou, não teria deixado Lavínia usar."
Lavínia tocou a joia imediatamente.
"Por quê?"
"Porque pode ser apreendido."
Caio ficou tenso.
"Do que está falando?"
Helena sorriu.
"Nada."
Beatriz estreitou os olhos.
"Você veio aqui para nos ameaçar?"
"Não."
"Então por que veio?"
Helena olhou para o painel do elevador.
Nove e vinte e sete.
Faltavam trinta e três minutos.
"Para assistir."
Caio deu uma risada curta.
"Assistir ao quê?"
"Você descobrir."
Ele deu um passo à frente.
"Escute bem. Daqui a pouco, o conselho vai formalizar uma decisão que deveria ter sido tomada há anos."
"Colocar você na cadeira do Ricardo?"
"Salvar esta empresa."
Helena olhou para ele dos sapatos ao rosto.
"Você?"
Caio cerrou os dentes.
"Tem algum problema?"
"Vários."
Beatriz interrompeu.
"Não perca tempo com ela."
Virou-se para Helena.
"Você já recebeu mais tolerância desta família do que merecia."
Helena respirou fundo.
A pequena câmera presa discretamente sob a dobra do vestido estava funcionando.
Marcelo havia testado o equipamento duas vezes naquela manhã.
Áudio.
Vídeo.
Transmissão segura.
Tudo estava sendo armazenado fora do prédio.
Helena não precisava que Beatriz confessasse a fraude financeira.
Precisava apenas que ela continuasse sendo Beatriz.
"Você realmente acredita nisso?"
Beatriz franziu a testa.
"Em quê?"
"Que foi tolerante comigo."
"Eu deixei você sair daquela casa com suas coisas."
"Você me deu uma hora."
"Deveria agradecer."
Helena ficou em silêncio.
Beatriz continuou.
"Você não tinha dinheiro."
Caio observava.
Lavínia também.
"Não tinha motorista. Não tinha segurança. Não tinha família importante para protegê-la."
Helena passou a língua lentamente pelos lábios.
"Mesmo assim, sobrevivi."
Beatriz soltou uma risada.
"Sobreviveu?"
Ela olhou ao redor.
"Você passou meses escondida numa casa caindo aos pedaços."
Helena sentiu vários funcionários observando.
"Quem contou?"
"Não importa."
"Importa para mim."
"Você deveria sentir vergonha."
Helena sorriu.
"Da casa?"
"Da sua situação."
"Não sinto."
Beatriz aproximou o rosto.
"Então deveria."
Helena sustentou o olhar.
"Eu teria vergonha se tivesse expulsado uma mulher grávida de casa."
O saguão ficou mais silencioso.
Caio percebeu.
"Mãe, vamos subir."
Beatriz ignorou.
"Você foi expulsa porque não sabia qual era o seu lugar."
"Meu lugar era ao lado do meu marido."
"Seu marido não queria você."
Helena não piscou.
"Tem certeza?"
Beatriz sorriu.
"Ele deixou isso bastante claro."
"Nas mensagens?"
"Sim."
"As mesmas que Caio mostrou para você?"
Caio ficou rígido.
Beatriz hesitou por uma fração de segundo.
Helena viu.
"Ou você recebeu diretamente do Ricardo?"
"Isso não é da sua conta."
"Então foi Caio."
"Pare."
"Interessante."
Caio avançou.
"Helena."
Ela virou o rosto.
"Sim?"
"Você está tentando provocar minha mãe."
"Estou conversando."
"Você sempre faz isso."
"Isso o quê?"
"Finge que é mais inteligente do que todo mundo."
Helena olhou para ele.
"Não preciso fingir."
Um funcionário tossiu para disfarçar uma risada.
Caio ficou vermelho.
Beatriz apontou para Helena.
"Você chegou aqui sem nada."
"Eu sei."
"Meu filho deu tudo a você."
"Ricardo me deu amor."
"Deu sobrenome."
"Eu já tinha um."
"Um sobrenome que ninguém conhecia."
Helena respirou fundo.
"Meu pai me ensinou uma coisa sobre gente que confunde sobrenome com poder."
Beatriz arqueou a sobrancelha.
"O quê?"
Helena olhou diretamente para Caio.
"Ratos ficam descuidados quando acreditam que a casa está vazia."
Caio empalideceu.
Beatriz não.
Ela explodiu.
"Como ousa?"
A mão veio antes que qualquer pessoa pudesse reagir.
O tapa acertou o rosto de Helena com força.
O som seco atravessou o saguão.
Tudo parou.
A recepcionista levou a mão à boca.
Um segurança deu meio passo à frente.
Lavínia ficou imóvel.
Caio olhou para a mãe como se nem ele esperasse aquilo.
Helena virou o rosto com o impacto.
Sua bochecha começou a arder.
Ela permaneceu naquela posição por dois segundos.
Depois voltou lentamente.
Beatriz respirava rápido.
"Aprenda a respeitar esta família."
Helena não levantou a mão.
Não gritou.
Não ameaçou.
Apenas tocou discretamente a dobra do vestido.
Sentiu a pequena câmera.
Ainda estava gravando.
Helena sorriu.
"Obrigada."
Beatriz piscou.
"O quê?"
"Eu disse obrigada."
Caio olhou para Helena.
Depois para a mão dela.
Seu rosto mudou.
"O que você está usando?"
Helena afastou a mão.
"Um vestido."
"Não brinque comigo."
Ele avançou.
Helena recuou.
Imediatamente, dois seguranças do prédio se aproximaram.
"Está tudo bem, senhora?"
Caio apontou para eles.
"Saiam daqui."
Os homens hesitaram.
Helena sorriu.
"Interessante."
Beatriz percebeu que dezenas de pessoas continuavam olhando.
"Acabou o espetáculo."
Ela virou para os funcionários.
"Voltem ao trabalho."
Ninguém se mexeu imediatamente.
Caio olhou para o relógio.
Nove e trinta e quatro.
"Temos uma reunião."
Ele chamou um dos seguranças.
"Não deixe Helena subir."
O homem olhou para ela.
"Senhor..."
"Isso é uma ordem."
Helena ajeitou a bolsa.
"Não se preocupe."
Caio riu.
"Finalmente entendeu."
"Eu subo depois."
"Não vai subir."
Helena não respondeu.
Caio entrou no elevador com Beatriz e Lavínia.
Antes que as portas fechassem, Beatriz olhou para Helena.
"Quando sair daqui, desapareça de verdade."
Helena tocou a bochecha vermelha.
"Boa reunião."
As portas se fecharam.
Às nove e cinquenta e oito, Caio entrou na sala do conselho.
Dezessete pessoas estavam sentadas ao redor da mesa.
Conselheiros.
Acionistas.
Executivos.
Assessores jurídicos.
Na cabeceira permanecia a cadeira de Ricardo.
Caio sentou-se nela.
Cláudia Ferraz, secretária do conselho, olhou para ele.
"A presidência ainda não foi declarada vaga."
Caio sorriu.
"Questão de minutos."
Às dez em ponto, ele se levantou.
"Senhores, obrigado pela presença."
Beatriz estava sentada perto da cabeceira.
Lavínia aguardava numa sala reservada do mesmo andar.
Caio colocou uma pasta sobre a mesa.
"Infelizmente, estamos aqui por uma situação extremamente delicada envolvendo meu irmão."
Alguns conselheiros trocaram olhares.
Caio continuou.
"Ricardo Vasconcelos sofreu uma grave deterioração de sua saúde mental durante sua permanência nos Estados Unidos."
Cláudia franziu a testa.
"Temos confirmação independente?"
"Temos um relatório médico."
Caio distribuiu as cópias.
"Paranoia. Instabilidade emocional. Comportamento impulsivo. Incapacidade de tomar decisões empresariais."
Um conselheiro ergueu a mão.
"Ricardo sabe desta reunião?"
"Neste momento, meu irmão não está em condições de compreender a gravidade da situação."
Cláudia fechou o relatório.
"Isso não responde à pergunta."
Beatriz interveio.
"Meu filho está doente."
A sala ficou em silêncio.
Caio respirou fundo.
"Além disso, houve problemas graves envolvendo Helena."
Cláudia olhou para ele.
"Que problemas?"
Caio apoiou as duas mãos na mesa.
"Ela abandonou a residência da família."
Beatriz não reagiu.
"Está vivendo em condições precárias."
Caio fez uma pausa.
"Apresenta comportamento instável e não possui residência adequada."
Um conselheiro perguntou:
"Por que a situação pessoal da esposa de Ricardo é relevante para esta votação?"
Caio sorriu.
"Porque ela também tentou obter acesso a ativos familiares."
Cláudia estreitou os olhos.
"Tem provas?"
"Temos razões suficientes para acreditar que Helena tentou se aproveitar da ausência de Ricardo."
Caio olhou para os acionistas.
"E existe uma questão ainda mais delicada."
Beatriz abaixou os olhos.
Caio continuou.
"A criança que ela está esperando pode nem ser do meu irmão."
Algumas pessoas se mexeram desconfortáveis.
Cláudia fechou a pasta com força.
"Isso ultrapassa qualquer limite aceitável para uma reunião societária."
Caio ergueu a voz.
"Estamos falando do futuro desta família e desta empresa."
Foi quando três batidas ecoaram do lado de fora.
Caio parou.
A maçaneta girou.
As portas da sala do conselho se abriram.
Helena entrou.
Sozinha.
A marca do tapa ainda estava visível em seu rosto.
Não carregava malas.
Não carregava joias.
Não carregava as chaves do carro.
Em uma das mãos havia apenas uma pasta preta.
Helena olhou para Caio sentado na cadeira de Ricardo.
Depois para Beatriz.
Então caminhou até a mesa.
"Desculpem o atraso."
Caio se levantou.
"Você não tem autorização para estar aqui."
Helena colocou a pasta preta diante dele.
"É exatamente sobre isso que precisamos conversar."
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