"A Mulher na Casa Abandonada" Capítulo 4
O Homem Que Todos Pensavam Estar Longe
Ricardo continuava diante da caixa preta aberta.
Os documentos que Helena havia reunido durante três meses estavam espalhados sobre a mesa, mas um deles parecia ter apagado todos os outros.
A convocação da reunião extraordinária.
Ricardo leu novamente.
"Deliberação sobre incapacidade permanente do atual presidente executivo."
Mais abaixo estava o nome de Caio Vasconcelos.
Ricardo amassou o papel entre os dedos.
"Eu vou para o Morumbi."
Helena ergueu os olhos.
"Não."
Ele já estava pegando o celular.
"Minha mãe expulsou você da nossa casa. Meu irmão roubou cento e vinte e sete milhões, hipotecou a mansão e agora quer me declarar incapaz. Eu não vou passar mais um minuto escondido."
"É exatamente isso que Caio espera."
Ricardo parou.
"Como é?"
Helena retirou das mãos dele a falsa avaliação psiquiátrica.
"Leia novamente."
"Eu já li."
"Então leia como Caio leria."
Ricardo ficou em silêncio.
Helena apontou para alguns trechos.
"Instabilidade emocional. Comportamento impulsivo. Agressividade diante de situações de pressão. Incapacidade de avaliar consequências."
Ricardo entendeu.
Mas não gostou.
"Você acha que eu devo ficar aqui enquanto eles comemoram?"
"Eu acho que, se você entrar naquela mansão furioso esta noite, Caio vai ter exatamente a cena que precisa."
Ela deu um passo em direção ao marido.
"Amanhã, ele vai dizer aos acionistas que você voltou de Nova York descontrolado, ameaçou a família e confirmou tudo o que está escrito nesse relatório."
"É mentira."
"Mentiras funcionam melhor quando encontram uma imagem que parece confirmá-las."
Ricardo apertou a mandíbula.
"Então o que você quer que eu faça?"
"Quero que deixe Caio falar."
"Helena..."
"Quero que ele apresente o relatório."
"Você enlouqueceu."
"Quero que ele minta diante do conselho."
Ricardo encarou a esposa.
Helena não desviou os olhos.
"Não interrompa uma mentira antes que o mentiroso termine de contá-la."
A chuva continuava batendo no telhado.
Por alguns segundos, o único som dentro da casa foi a água pingando dentro da panela na sala.
Ricardo soltou o ar lentamente.
"Você planejou isso."
"Parte."
"Há quanto tempo?"
"Desde que percebi que eles não estavam tentando apenas me humilhar."
Helena apontou para a caixa.
"Caio não precisava de cento e vinte e sete milhões para me expulsar. Não precisava falsificar seus documentos. Não precisava mexer na estrutura acionária."
"Ele queria a empresa."
"Ele quer tudo."
Ricardo caminhou até a janela.
A imagem de Beatriz queimando a ultrassonografia da própria neta ainda o consumia.
Mas havia algo pior agora.
Sua mãe não tinha simplesmente apoiado uma crueldade contra Helena.
Ela havia participado de uma operação para substituí-lo.
"Preciso falar com Marcelo."
Helena assentiu.
"Mas não pelo seu celular."
Ricardo olhou para ela.
"Por quê?"
"Porque ainda não sabemos quem está monitorando suas comunicações."
Ele quase perguntou como ela sabia.
Então lembrou que suas mensagens haviam sido interceptadas durante meses.
Ricardo abriu a mala.
De um compartimento interno, retirou um pequeno computador.
"Este equipamento só é usado nas operações internacionais do grupo."
"Seguro?"
"Canal criptografado."
Helena puxou uma cadeira.
"Então ligue para Marcelo."
Marcelo Nogueira atendeu na terceira chamada.
Seu rosto apareceu na tela.
"Ricardo?"
O advogado se inclinou para a câmera.
"Meu Deus. Onde você está?"
"No Brasil."
Marcelo ficou imóvel.
"Desde quando?"
"Algumas horas."
"Quem sabe?"
"Helena."
"Mais alguém?"
"Meu motorista me deixou longe daqui. Ele não sabe o endereço exato."
Marcelo respirou fundo.
"Não apareça na sede."
Ricardo olhou para Helena.
Ela cruzou os braços.
"Já ouvi isso hoje."
Marcelo franziu a testa.
"Você sabe da reunião?"
"Agora sei."
"Então sabe que existe uma avaliação médica contra você."
"Também sei."
Marcelo ficou sério.
"Eu passei os últimos dias tentando descobrir de onde aquilo veio."
Helena se aproximou.
"Eu descobri."
Marcelo olhou para ela.
"Helena?"
Ela colocou diante da câmera os registros da CFS Desenvolvimento.
"O pagamento passou por esta empresa. O controlador indireto é Caio."
Marcelo permaneceu alguns segundos em silêncio.
"Você conseguiu provar isso?"
"Tenho a cadeia societária, as transferências e os metadados do relatório."
O advogado aproximou o rosto da tela.
"Me envie tudo."
Helena começou a transferir os arquivos.
Marcelo chamou dois integrantes de sua equipe para a conversa.
Durante a hora seguinte, a pequena casa em Cotia se transformou em uma sala de investigação.
Arquivos eram abertos.
Datas eram comparadas.
Assinaturas eram ampliadas.
Cada nova descoberta tornava o silêncio de Ricardo mais pesado.
Marcelo foi o primeiro a confirmar uma parte do esquema.
"Caio substituiu dois dos seus assistentes executivos quarenta e dois dias depois da sua viagem."
Ricardo ergueu os olhos.
"Sem minha autorização?"
"Há uma autorização."
"Eu não assinei."
"Foi o que imaginei."
Marcelo colocou o documento na tela.
Ricardo viu sua própria assinatura.
"Falsa."
Helena observou a imagem.
"É boa."
"Boa o bastante para enganar alguém?"
"Boa o bastante para enganar quem não esperava uma fraude."
Marcelo abriu outro arquivo.
"Depois das substituições, vários e-mails enviados ao seu escritório deixaram de seguir para o seu endereço pessoal."
"Quantos?"
O advogado hesitou.
"Mais de cento e oitenta."
Ricardo ficou pálido.
"Centenas de mensagens?"
"Incluindo mensagens de Helena."
Ele virou lentamente para a esposa.
Helena não disse nada.
Ricardo baixou os olhos.
Durante meses, acreditara que o silêncio dela significava que estava tudo bem.
Agora descobria que o silêncio tinha sido fabricado.
"Continue."
Marcelo abriu outra pasta.
"Há mais."
Os novos assistentes haviam criado filtros automáticos.
Chamadas da mansão eram desviadas.
E-mails de funcionários específicos eram arquivados antes de chegar a Ricardo.
Documentos enviados por ele de Nova York eram interceptados antes de serem registrados no sistema interno.
Caio havia construído uma parede invisível ao redor do irmão.
Ricardo apertou os punhos.
"Ele controlou tudo o que eu via."
"Exatamente", respondeu Helena.
Marcelo continuou.
"E isso permitiu a segunda etapa."
Na tela apareceu um pedido judicial.
Ricardo se inclinou.
"O que é isso?"
"Um pedido de administração emergencial sobre parte do patrimônio familiar."
"Com base em quê?"
"Na sua suposta incapacidade mental."
Ricardo riu de incredulidade.
"Ele tentou assumir o patrimônio enquanto eu estava trabalhando em Nova York?"
"Não tentou."
Marcelo respirou fundo.
"Está tentando."
Helena fechou os olhos por um instante.
Era pior do que imaginara.
Marcelo mostrou outra página.
"Beatriz assinou uma declaração afirmando que você vinha apresentando alterações graves de comportamento antes de viajar."
Ricardo não conseguiu falar.
A assinatura da mãe estava ali.
Beatriz Vasconcelos.
Não era Caio usando o nome dela.
Era a assinatura verdadeira.
"Minha mãe declarou que eu estava doente."
Marcelo assentiu.
Ricardo se afastou da mesa.
"Ela sabia."
Helena o observou.
"Ricardo..."
"Ela sabia de tudo."
Ele bateu a mão na parede.
A casa pareceu estremecer.
Helena se levantou.
"Olhe para mim."
Ricardo não respondeu.
"Ricardo."
Ele finalmente se virou.
"Não dê a eles essa versão de você."
A frase o atingiu.
Ele olhou para a própria mão fechada.
Depois para o falso relatório.
Agressividade.
Impulsividade.
Instabilidade.
Ricardo abriu os dedos lentamente.
"Você tem razão."
Voltou para a mesa.
"Marcelo, o que precisamos fazer antes das dez?"
O advogado mudou de postura.
"Primeiro, impedir qualquer transferência de ações ou ativos durante a reunião."
"Consegue?"
"Vou pedir uma tutela de urgência ainda esta madrugada."
"Faça."
"Segundo, precisamos preservar os registros internos antes que Caio perceba que estamos investigando."
Helena interveio.
"Já tenho cópias de parte deles."
"Precisamos dos servidores."
Ricardo pensou por alguns segundos.
"Há um servidor de contingência."
Marcelo olhou para ele.
"Onde?"
"Fora da sede. Foi criado depois do ataque cibernético de três anos atrás. Pouquíssimas pessoas sabem."
"Caio?"
"Não deveria."
Helena inclinou-se.
"Quem tem acesso?"
"Eu, o diretor de tecnologia e Marcelo."
O advogado assentiu.
"Vou solicitar a preservação imediata."
A investigação continuou.
Pouco antes das quatro da manhã, surgiu outra descoberta.
Caio havia solicitado mudanças temporárias nas regras de movimentação de uma estrutura patrimonial da família.
Marcelo leu duas vezes.
"Ele está tentando chegar ao fundo de proteção."
Ricardo franziu a testa.
"Isso não faz sentido. Ele não pode."
"Ele está alegando sua incapacidade."
"E minha mãe?"
"Assinou como familiar responsável."
Helena olhou para os dois.
"Que fundo?"
Ricardo hesitou.
"Uma estrutura criada anos atrás para impedir que uma crise pessoal de qualquer membro da família colocasse o grupo inteiro em risco."
"Quem controla?"
"Depende das circunstâncias."
Marcelo interrompeu.
"E isso pode ser importante amanhã."
Helena percebeu a troca de olhares.
"Importante como?"
"Depois", respondeu Ricardo.
Ela não gostou.
Mas não insistiu.
Ainda havia trabalho demais.
Às cinco e vinte, Marcelo conseguiu localizar o médico cujo nome aparecia na avaliação psiquiátrica.
Ele nunca havia atendido Ricardo.
Nunca o encontrara.
Nunca emitira diagnóstico algum.
A assinatura fora copiada de outro documento.
Às seis, o pedido de preservação dos registros estava pronto.
Às seis e quarenta, a equipe jurídica começou a preparar a tutela de urgência.
Às sete, Ricardo já não parecia furioso.
Parecia frio.
Helena conhecia aquela expressão.
Era a expressão que ele usava antes de uma negociação difícil.
"Agora você entendeu", ela disse.
Ricardo olhou para os documentos espalhados pela mesa.
"Entendi."
"Eles não expulsaram você apenas para me ferir."
"Não."
"Você era a primeira peça."
Ricardo encarou a assinatura de Beatriz.
Depois o nome de Caio.
"Primeiro tiraram você da mansão."
Helena assentiu.
"Depois cortaram nossas comunicações."
"Depois criaram a história de que nossa filha não era minha."
"Depois fabricaram sua doença."
Ricardo terminou:
"E amanhã tomariam a empresa."
Nenhum dos dois falou por alguns segundos.
Então Ricardo fechou o computador.
"Ninguém pode saber que eu voltei."
Helena assentiu.
"Até Caio terminar de mentir."
Enquanto isso, a quase quarenta quilômetros dali, as luzes da Mansão Vasconcelos ainda estavam acesas.
Beatriz atravessava o salão principal usando um vestido de seda claro.
Sobre a mesa havia garrafas de champanhe francês.
Lavínia estava diante de um espelho, ajustando um colar que pertencera a Helena.
Caio entrou no escritório do irmão.
Olhou para a cadeira de couro atrás da enorme mesa.
Sentou-se.
Beatriz apareceu na porta.
"Está nervoso?"
Caio sorriu.
"Por quê?"
"Amanhã muda tudo."
Ele abriu uma garrafa.
O estouro da rolha ecoou pelo escritório.
Lavínia entrou e ergueu sua taça.
Beatriz fez o mesmo.
Caio olhou para a cadeira em que estava sentado.
Depois para uma fotografia de Ricardo sobre a estante.
Pegou a moldura.
Virou-a para baixo.
E levantou a taça.
"Amanhã, tudo será nosso."
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