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"A Mulher na Casa Abandonada" Capítulo 2

正文开头

A Hora Que Me Deram Para Desaparecer

Quando Ricardo embarcou para Nova York, Helena ainda acreditava que os seis meses seguintes seriam apenas difíceis.

Ela não imaginava que, em poucas semanas, deixaria de ser tratada como esposa do homem mais poderoso do Grupo Vasconcelos e passaria a ser tratada como uma intrusa dentro da própria casa.

No início, Beatriz foi cuidadosa.

Nada aconteceu de uma vez.

Primeiro, o motorista de Helena foi dispensado.

Depois, dois seguranças que trabalhavam com Ricardo havia anos receberam ordens para não voltar mais à mansão do Morumbi.

A governanta, dona Célia, tentou perguntar o motivo.

Foi demitida no mesmo dia.

Helena percebeu que alguma coisa estava errada quando abriu o aplicativo do banco e todos os cartões apareceram bloqueados.

Ela foi até o escritório da casa.

Caio estava sentado atrás da mesa de Ricardo.

Esse detalhe foi o primeiro a incomodá-la.

"Por que você está usando a cadeira do seu irmão?"

Caio nem levantou os olhos.

"Porque alguém precisa trabalhar enquanto ele brinca de empresário internacional em Nova York."

"Ricardo está fechando uma aquisição para o grupo."

"Ricardo está ausente."

Helena cruzou os braços.

"E isso lhe dá o direito de bloquear minhas contas?"

Caio finalmente olhou para ela.

"Não são suas contas."

"Eram contas domésticas autorizadas por Ricardo."

"Agora não são mais."

Helena permaneceu em silêncio.

Caio gostava daquele silêncio.

Interpretava como submissão.

"Você precisa entender uma coisa, Helena. Meu irmão pode ter colocado uma aliança no seu dedo, mas isso não faz de você uma Vasconcelos."

Ela sorriu sem humor.

"Engraçado. A certidão de casamento diz o contrário."

O rosto de Caio endureceu.

"Tenha cuidado com a forma como fala comigo."

"Então pare de sentar na cadeira de um homem que você ainda não conseguiu substituir."

Por um instante, ele pareceu prestes a gritar.

Mas respirou fundo.

"Você vai aprender."

Helena não respondeu.

Naquela tarde, tentou ligar para Ricardo quatro vezes.

Nenhuma ligação completou.

Tentou pelo telefone da casa.

Nada.

Mandou mensagens.

Todas ficaram sem resposta.

Dois dias depois, Beatriz apareceu no quarto dela sem bater.

"Você anda muito agitada."

Helena estava dobrando roupas de bebê.

"Meus cartões foram bloqueados."

"Caio está reorganizando as finanças."

"Caio não tem autoridade para mexer na minha vida pessoal."

Beatriz soltou uma risada seca.

"Você ainda não entendeu a situação."

Helena ergueu os olhos.

"Então me explique."

"Meu filho está longe. O grupo precisa de estabilidade. A família também."

"Eu faço parte da família."

Beatriz a observou como se Helena tivesse contado uma piada.

"Você se casou com a família."

"Há uma diferença."

Helena sentiu a filha se mexer.

Colocou a mão na barriga.

"Para Ricardo, não há."

O olhar de Beatriz caiu sobre o ventre dela.

"Ricardo sempre teve dificuldade em perceber quando alguém se aproxima dele pelo motivo errado."

"Está dizendo que eu me casei por dinheiro?"

"Estou dizendo que mulheres como você sabem reconhecer uma oportunidade."

正文1

Helena fechou a gaveta.

"Mulheres como eu?"

"Sem sobrenome. Sem tradição. Sem influência."

Beatriz deu um passo à frente.

"Você teve sorte."

Helena sustentou seu olhar.

"Não. Eu trabalhei."

"Trabalhou com planilhas."

"Eu investigava fraude corporativa."

"Uma contadora."

Helena sorriu.

"Continue achando isso."

Beatriz estreitou os olhos.

Foi embora sem dizer mais nada.

Na manhã seguinte, outro segurança foi dispensado.

Naquela semana, o acesso de Helena ao carro da família foi retirado.

Depois, o plano de saúde suplementar foi alterado sem autorização.

Por fim, a senha do sistema interno da mansão deixou de funcionar.

Cada gesto parecia pequeno.

Juntos, formavam uma prisão.

Helena tentou novamente falar com Ricardo.

Nada.

Começou então a registrar tudo.

Datas.

Horários.

Nomes.

Ordens.

Bloqueios.

Mudanças de senha.

Documentos que apareciam e desapareciam.

Caio não percebeu.

Beatriz tampouco.

Eles continuavam acreditando que a mulher grávida estava apenas assustada.

E Helena deixou que acreditassem.

Três semanas depois, Beatriz reuniu os poucos funcionários que ainda restavam na sala principal.

Helena desceu a escada devagar.

Sua barriga já estava maior.

Quando chegou ao último degrau, viu uma mulher que nunca tinha visto antes.

Alta.

Elegante.

Cabelos escuros impecavelmente arrumados.

Lavínia Albuquerque usava um vestido claro que marcava uma barriga arredondada.

Ela mantinha uma das mãos sobre o ventre.

A outra segurava uma taça de água com gás.

Beatriz abriu um sorriso.

"Helena, esta é Lavínia."

Helena olhou para a mulher.

Lavínia sorriu de volta.

"Prazer."

Helena não respondeu.

Seu olhar ficou preso na barriga.

Beatriz percebeu.

"Sim. Você entendeu."

O ar da sala pareceu desaparecer.

Helena olhou para a sogra.

"Entendi o quê?"

Beatriz colocou a mão no ombro de Lavínia.

"Ela está esperando o primeiro herdeiro realmente digno do nome Vasconcelos."

Uma funcionária deixou cair uma bandeja.

O som metálico ecoou pelo salão.

Helena não se mexeu.

"De quem é essa criança?"

Lavínia desviou os olhos.

Beatriz respondeu por ela.

"Isso não importa agora."

"Importa para mim."

"Você perdeu o direito de fazer perguntas."

Helena soltou uma risada breve.

"Interessante."

Beatriz ficou irritada.

"O que há de interessante?"

"Vocês ensaiaram isso?"

Lavínia ficou tensa.

"Eu não preciso ouvir esse tipo de coisa."

Helena olhou para ela.

"Então talvez não devesse entrar na minha casa usando uma barriga como argumento."

Beatriz avançou.

"Chega."

Helena virou para a sogra.

"Não. Ainda não."

Ela subiu novamente.

Minutos depois, voltou com um envelope branco.

Dentro dele havia a imagem do ultrassom mais recente.

Helena retirou a fotografia.

"Esta é sua neta."

Beatriz nem tocou.

"Não sabemos disso."

Helena congelou.

"Repita."

"Você ouviu."

"Está insinuando que a filha de Ricardo não é dele?"

"Estou dizendo que esta família não reconhece uma criança apenas porque você diz que ela pertence a nós."

Helena sentiu o peito apertar.

Mesmo assim, sua voz permaneceu firme.

"Ricardo reconhece."

Beatriz pegou a fotografia.

Por um segundo, Helena acreditou que ela finalmente olharia.

Em vez disso, Beatriz caminhou até a lareira.

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E soltou a foto no fogo.

Helena parou de respirar.

O papel se curvou.

As bordas escureceram.

A imagem de sua filha desapareceu entre as chamas.

Dona Célia, que voltara apenas para buscar documentos da rescisão, levou a mão à boca.

Lavínia abaixou os olhos.

Helena não chorou.

Beatriz se virou.

"Você tem uma hora para desaparecer desta casa."

Silêncio.

Helena olhou para o relógio na parede.

Depois olhou para Beatriz.

"Uma hora?"

"Leve suas roupas. O resto pertence aos Vasconcelos."

"Minhas coisas também?"

"Você entrou nesta casa sem nada."

Caio apareceu no corredor.

"Ela pode levar o que couber em duas malas."

Helena o encarou.

"Você estava ouvindo?"

"Eu estava esperando vocês terminarem."

Beatriz apontou para a escada.

"Quarenta e oito minutos."

Helena respirou fundo.

Subiu.

No quarto, fechou a porta.

Por alguns segundos, ficou parada.

As mãos tremiam.

Foi a única vez.

Depois, pegou duas malas.

Colocou roupas, vitaminas, documentos médicos e alguns objetos pessoais.

Então abriu uma pequena gaveta onde guardava um pen drive.

Helena olhou para ele.

Do lado de fora, ouviu a voz de Caio.

"Trinta e cinco minutos!"

Ela respirou fundo.

Saiu do quarto.

Mas não foi para a escada.

Caminhou até o escritório de Ricardo.

A porta estava aberta.

O computador de Caio continuava ligado.

Ele havia saído às pressas para assistir à expulsão dela.

Helena entrou.

Na tela havia uma pasta com o nome de uma empresa que ela não conhecia.

Montalvo Participações.

Outra pasta continha contratos de crédito.

Outra, planilhas internas.

Helena conectou o pen drive.

Copiou tudo o que conseguiu.

Quatro minutos.

Cinco.

Sete.

Passos surgiram no corredor.

Ela retirou o dispositivo e fechou a tela.

Caio apareceu na porta.

"O que está fazendo aqui?"

Helena pegou uma pasta vazia da mesa.

"Procurando documentos do meu plano de saúde."

Ele a observou.

"Seu tempo está acabando."

"Eu sei."

Helena passou por ele.

Não correu.

Não chorou.

Não pediu ajuda.

Quando atravessou a porta principal da mansão com duas malas, Beatriz estava parada no alto da escada.

Lavínia permanecia ao seu lado.

"Quando Ricardo voltar, ele vai agradecer por termos resolvido esse problema."

Helena se virou.

"Você realmente acredita nisso?"

Beatriz sorriu.

"Ele não vai voltar para você."

Helena apertou o cabo da mala.

"Vamos ver."

Ela deixou a mansão.

Foi para Cotia.

A casa havia pertencido ao pai.

Depois da morte dele, ninguém mais quis morar ali.

Havia infiltrações, móveis antigos e um telhado que precisava de reparos.

Mas havia eletricidade.

Internet.

E silêncio.

Naquela primeira noite, Helena colocou o pen drive sobre a mesa.

Abriu o computador.

Começou a copiar os arquivos.

O primeiro parecia normal.

O segundo também.

No terceiro, encontrou uma transferência sem justificativa.

Depois outra.

E outra.

Ela criou uma planilha.

Separou por data.

Conta.

Empresa.

Beneficiário.

Assinatura.

Cada noite acrescentava mais uma linha.

Cada linha revelava um padrão.

Três meses depois, já perto da meia-noite, Helena estava sozinha diante do computador enquanto a chuva batia no telhado.

A filha se mexeu dentro dela.

Helena apoiou a mão na barriga.

"Mais cinco minutos."

Abriu uma nova sequência de transferências.

Somou os valores.

Parou.

Refez a conta.

Conferiu novamente.

O total apareceu na tela.

R$ 127.000.000.

Helena ficou imóvel.

Desceu até o último documento.

Ali estava a autorização digital.

Caio Vasconcelos.

Ela aproximou o rosto da tela.

Um sorriso lento surgiu.

"Achei você."

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